Os limites formativos da sociedade industrial

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A relação estreita entre democracia e educação depende, no olhar de Dewey, da relação entre educação e sociedade. Tal relação é uma constante ao longo da obra que estou analisando. No capítulo VII, especificamente, sua noção de sociedade se explicita melhor via negativa. Ou seja, o autor critica uma forma negativa de sociedade que vai na direção oposta da relação entre democracia e educação, a saber, a nascente sociedade industrial americana.

Não podemos esquecer que Democracia e Educação é uma obra de 1916 e, portanto, diz respeito ao início mais intenso da industrialização americana. Dewey manifesta preocupações pontuais sobre a sociedade industrial que devem ser levadas em consideração para tratar da relação entre educação e sociedade e, mais propriamente, democracia e educação. Tais preocupações auxiliam para desfazer a crítica equivocada que se fez ao seu pensamento de que ele teria sido um adepto fervoroso do desenvolvimento industrial americano. Como veremos logo abaixo, atribui sim papel importante à indústria, mas não de maneira ingênua e absoluta.

O problema de fundo que o leva a criticar a sociedade industrial, valendo isto também para a sociedade isolada, refere-se ao modo como a divisão social de trabalho nela existente impende o desenvolvimento autônomo de seus membros. Neste caso, a sociedade industrial reproduz, em outro contexto social e político, o mesmo tipo de subserviência próprio às sociedades escravista e aristocrática. Trabalhar no interior da fábrica, fazendo sempre os mesmos movimentos e com o olhar dirigido somente à máquina não difere muito do servo que vive na gleba, sob o mando autoritário do senhor, sem direto à educação e à vida espiritual ampla.

É neste contexto que se pode compreender a crítica que o pedagogo americano faz à organização científica do trabalho que estava em voga na época. Tal organização – e aí certamente ele tem em vista o modelo fordista de organização do trabalho que estava ainda em seu início – pensa somente na eficiência da disposição corporal do trabalhador, na agilidade de seus músculos, visando tirar o máximo de lucro de seu trabalho. Pensava-se na melhor forma de organização do trabalho humano para extrair o maior lucro possível. Quanto mais ágil na repetição de seus movimentos, mais lucro o trabalhador daria ao seu patrão.

Dewey é contra, portanto, o capitalismo economicista desumanizador, o qual, ao focar exclusivamente na lucratividade, ignorava o trabalhador em sua globalidade, deixando de trata-lo como ser de cultura, com vida espiritual própria. Reduzido a tal condição, de mero operador mecânico, o trabalhador torna-se um escravo moderno, vendendo sua própria alma ao capitalista industrial. Consagra-se a uma atividade que é útil socialmente, mas sem compreender a própria utilidade. Torna-se um autômato que executa tarefas, mas sem a disposição intelectual de poder compreendê-las.

Reduzida à investigação das operações musculares do trabalhador, a ciência deixa de se dedicar ao descobrimento das relações do ser humano com seu trabalho, incluindo suas relações com os demais trabalhadores, que participam deste mesmo trabalho. Ou seja, o reducionismo científico da época ignorava a dimensão social e formativa inerente ao trabalho humano e, com isso, não investigava o quanto o próprio trabalho poderia ser uma fonte de desenvolvimento das capacidades intelectuais humanas. Os industriais estavam conscientes de que se o trabalho assumisse esta dimensão formativa, terminaria por interferir nos resultados econômicos finais da atividade produtiva. 

Neste contexto, indo além das relações meramente mecânicas, o trabalhador poderia ver as relações técnicas, intelectuais e sociais naquilo que fazia no seu trabalho cotidiano. Dewey critica pontualmente o pensamento industrial tacanho: “A inteligência se reduz aos fatores que concernem à produção técnica e à comercialização de mercadorias”. Pensar na dimensão formativa do trabalho implica vê-lo também como produção social e cultural, na qual o trabalhador, colocando nela sua vida, pode se realizar como pessoa.

O que está em jogo nesta crítica de Dewey ao desenvolvimento industrial economicista? Qual a atualidade desta crítica? Sobre a primeira pergunta, o que está em jogo é o ideal de autodeterminação que a sociedade, independentemente de sua forma, deve proporcionar aos seus membros, contando com o auxílio inestimável da educação. O pensamento industrial restrito, visando somente o lucro, não considera o trabalhador com um ser humano que possui muitas outras necessidades, que vão além da satisfação de suas necessidades imediatas.

O que está em jogo, nesta contraposição deweyana aos industriais com mentalidade reduzida, é o ideal de educação que requer o desenvolvimento integral do ser humano em todas as suas direções. A educação pelo trabalho que se limitava simplesmente em aperfeiçoar o movimento muscular do trabalhador, ignorava a possibilidade de tal desenvolvimento. Neste sentido, Dewey insere-se bem na tradição neohumanista de sua época, a qual previa o desenvolvimento das disposições humanas em todas as suas direções.

Daí a importância, do ponto de vista educacional, de investigar a inteligência do trabalhador que se forma nas relações sócias que mantém na esfera de seu trabalho e as possibilidades formativas de ampliá-la, indo além do próprio trabalho. Além das operações mecânicas proporcionadas pelos músculos, também se faz necessário considerar o trabalhador com um ser emocional, que possui sentimentos. Além da mecânica corporal, é preciso toma-lo com ser espiritual, com disposições intelectuais aptas a serem desenvolvidas em diferentes direções.

Este modelo de desenvolvimento industrial que Dewey tinha diante dos olhos não é mais hegemônico na atualidade. Por conseguinte, também não é mais necessário reivindicar a educação para o trabalho no sentido da nascente sociedade industrial. Contudo, precisamos nos perguntar se a sociedade digital vigente não está impondo, por outras vias, o mesmo processo de embrutecimento do ser humano que a nascente sociedade industrial causava no trabalhador. A tecnologia digital não seria uma nova forma de escravidão, na medida em mantém multidões prisioneiras de si mesmas?

Em síntese, para ver a atualidade do pensamento de Dewey sobre os efeitos destrutivos que a industrialização tacanha provoca na formação humana teríamos que investigar a semelhança entre a atividade muscular mecânica do trabalhador, ao executar sempre a mesma atividade, e o olhar fixo e imóvel do ser humano digital no seu dispositivo eletrônico, seguindo repetidamente o movimento de seus dedos ou a tonalidade de sua voz para editar a mensagem. A incapacidade de pensamento manifestada outrora, no interior da fábrica, não estaria se repetindo agora, pelo andante solitário que caminha na rua, sem ver o que se passa ao seu redor, simplesmente porque está obcecado pelo seu aparelho digital?

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