O isolamento social e formação democrática do espaço público

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Na coluna anterior tratei dos limites formativos da sociedade industrial, considerando, como núcleo da crítica de John Dewey, que tal sociedade limita o desenvolvimento das disposições do trabalhador. Isto corre, sobretudo, quando ela foca somente no exercício corporal do trabalhador, visando maior eficiência de seus resultados produtivos e, com isso, maior lucratividade econômica. O mesmo processo limitante de formação das disposições do trabalhador pode ser verificado na formação profissional do educando, sobretudo, daquela formação voltada para o trabalho industrial.

Se o trabalho humano possui uma dimensão social e mesmo assim pode não se tornar formativo, a situação do isolamento social é mais precária ainda. O educando isolado não se forma, mas sim se deforma. É da condição humana e da própria condição dos grupos sociais, a dinâmica do intercâmbio entre si. As disposições intelectuais humanas e a sociedade como um todo se desenvolvem quando promovem um intenso intercâmbio entre si. O vai e vem no relacionamento humano, assegurado principalmente pela ação comunicativa entre os seres humanos, é condição de possibilidade para o crescimento individual e social.

Em circunstâncias nas quais não há interação mediada simbolicamente, ou seja, não há ação comunicativa, o potencial humano e social estagna, embrutecendo o ser humano. O caso prototípico destas circunstâncias é o isolamento individual ou do grupo social. Considerando isso, Dewey dedica alguns parágrafos do capítulo VII de Democracia e Educação para tratar do problema do isolamento. O que este fenômeno causa, primeiramente, é o espírito antissocial, acentuando a competitividade destrutiva entre os membros da sociedade.

Dewey trata aqui de um tipo específico de isolamento, o qual não pode ser confundido com a solidão necessária que é buscada pelo ser humano, compreendida como sua retirada consciente do meio social, para poder pensar sobre si mesmo e sua inserção no grupo social. Neste sentido, solidão não é a mesma coisa que isolamento: enquanto este último corta o vínculo do ser humano com o outro ser humano, negando os sentimentos morais humanos mais profundos, como a interdependência, a justiça e a solidariedade, a solidão é uma forma de, retirando-se momentaneamente da participação na vida pública, pensa-los (tais sentimentos) no espaço do interioridade humana.

Neste sentido, solidão é a decisão pessoal de estar só consigo mesmo para poder pensar em silêncio, e com profundidade, o significado do intercâmbio social. É justamente nesta perspectiva que Humboldt, o grande idealizador da modernização da universidade alemã, coloca, no século XIX, a solidão, juntamente com a liberdade, como pilar da universidade. Compreende-a como impulso da atividade espiritual mais profunda, pois sem o diálogo consigo mesmo não há como refletir sobre as coisas em geral e os assuntos humanos em especial.

Ao contrário disso, o isolamento é a característica básica do espírito antissocial porque potencializa os interesses egoístas do ser humano e de seu grupo social. Estimula e fortalece o espírito corporativo, o qual só vê na sua frente o interesse imediato, sem se preocupar com os interesses comuns, de outros seres humanos e grupos sociais. Não é difícil de compreender a insistência crítica de Dewey ao isolamento, por tem consciência de que o mesmo, enquanto laço social destrutivo, inviabiliza o espírito de cooperação solidária indispensável à constituição da democracia como forma de vida e organização social.

O feito danoso do isolamento não tem alcance somente individual. Não permanece somente na esfera do ser humano individual, uma vez que bloqueia a interação comunicativa entre os próprios grupos sociais. O espírito individualista que toma conta do comportamento do ser humano individual espalha-se para o grupo todo. Agindo de maneira interesseira e agressiva em relação aos outros grupos, o grupo social termina por se auto isolar em relação a tais grupos. A atitude contrária dos outros grupos é uma atitude de autoproteção natural, pois a aceitação passiva da agressividade individualista daquele grupo levaria a destruição dos próprios grupos.

Ao tratar deste tema, Dewey está chamando atenção para um fenômeno individual e social de primeira grandeza: o isolamento individualista e de grupo é o principal predador da tessitura social orgânica, que visa a formação do espírito de cooperação solidária. Destrutivo da ordem social solidária, o isolamento individualista precisa ser enfrentado educacionalmente. Neste contexto, a tarefa da educação consiste em desenvolver experiências concretas que oportunizem ao educador e educação a formação do espírito de cooperação solidária.

Neste sentido, compete aos grupos sociais família e escola, como as duas primeiras formas de socialização do ser humano, trabalharem na formação do espírito de cooperação solidária. Se a criança for inserida em ambientes familiares e escolares, no quais há boas experiências de solidariedade, ela encontra uma boa referência para fazer contraponto internamente a sua própria propensão humana ao isolamento individualista. Não há outra forma senão as experiências coletivas concretas de vivência mútua para fazer frente à tendência humana de se isolar e de cuidar somente de seus interesses individualistas.

Mas, por que Dewey insiste tanto na valorização de experiência educacionais concretas, voltadas para a formação do espírito de cooperação solidária? Por que ele sabe que a forma de vida democrática no espaço público mais amplo depende de um processo formativo que precisa iniciar já na infância, servindo como contraponto crítico à tendência humana para o individualismo, baseado em experiências formativas concretas que exercitem na criança o espírito de cooperação solidária. Da crítica intelectual ao isolamento individualista, baseada em experiências concretas de formação, resulta um educando disposto em intervir no espaço público orientando por ideias de cooperação e solidariedade.

Com o individualismo contemporâneo, que só tendeu a se acentuar depois da publicação de Democracia e Educação, ocorrida em 1916, mais e mais necessitam as novas gerações de experiência formativas concretas, capazes de orientarem a formação para a solidariedade. O grupo social, tanto familiar como escolar, continua desempenhando papel educacional importante, assim como na época de Dewey. Nestes espaços, as crianças podem aprender que sua existência depende do grupo e que sua humanidade é alcançada quando for capaz de incluir em suas ações o pontos de vista, o modo de ação e as reivindicações dos outros. Experiências formativas de cooperação solidária no grupo social fortalece a constituição democrática do espaço público.       

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