O sonho não acabou

Postado por: Israel Kujawa

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As pessoas sem as mínimas condições materiais não devem ser caracterizadas como problema, mas como ponto de partida para o aperfeiçoamento da vida humana. Esta tese foi testada no Brasil, no início do século XX e seu resultado foi positivo não apenas na dimensão material, mas especialmente na constituição de um clima (espiritualidade) positivo e otimista. Nos últimos anos se avolumou a antítese, afirmando que os espaços de poder com maior reconhecimento social são para quem passou pelos critérios do mérito ou da meritocracia.  Além disso, esta antítese, que se transformou em nova tese, responsabilizou as camadas sociais, que não possuem condições materiais mínimas, pela instabilidade moral e insegurança institucional que infestou nosso cotidiano.

O sonho de uma sociedade em que os não escolarizados, os adolescentes, os jovens, as mulheres, os representantes da diversidade sexual, os negros, os trabalhadores domésticos os estudantes das classes sociais sem condições materiais, os sem casa, os sem-terra e os trabalhadores em geral, tenham prioridade na atenção social, vem sofrendo duros golpes nos últimos três anos. A vinculação entre da crise moral e as camadas sociais, historicamente desatendidas pelo mercado e pelo estado, foi etiquetada, impregnada em grupos de pessoas e líderes que representam a defesa do aperfeiçoamento da vida social, a partir da inclusão incondicional e universal. A substituição polémica e contraditória, do comando político brasileiro, em 2016 e as reformas implementadas no último ano são a materialização do divisionismo e da equivocada responsabilização moral das setores que vinham tendo atenção prioritária.

A melhora da vida em sociedade passa por recolocar o foco das atenções e das prioridades nas pessoas, especialmente nas pessoas que não atingiram as condições materiais básicas para um desenvolvimento humano saudável. Ao longo da história humana, muitos são os personagens que direta ou indiretamente focaram seus projetos de vida vinculados com a defesa de um justo compartilhamento dos bens materiais e espirituais.  Em decorrência da quantidade e do anonimato não é possível citar estes personagens, contudo, entre todos, um personagem localizado na mudança da época antiga para a medieval, merece ser destacado, Jesus Cristo. Este personagem marca a cronologia do nosso tempo, indicando que estamos no ano 2017 e seu representante máximo, no momento, é um argentino reconhecido pelo simbólico nome de Francisco.

A escolha em 2013 deste nome, tem a finalidade identificar um dos personagens máximos do cristianismo, São Francisco de Assis, que esteve ao lado dos pobres. A responsabilidade pela atual crise moral, que afeta o conjunto das pessoas, que afeta o conjunto das instituições vinculadas com a igreja, com o mercado e com o estado, não é causada pelas classes sociais com menos acesso material e cultural, nem por seu defensores. Os últimos episódios indicam que um novo patamar da vida social, com um nível satisfatório de administração das instabilidades e das crises deve estar, portanto, com a centralidade das atenções nos setores sociais menos privilegiados, apontando caminhos que nos aproximem do sonho de uma vida social com condições igualitárias. 

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