Educação e disposições humanas

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Democracia e Educação é uma obra contemporânea central para pensar o nexo entre democracia e educação. Capacidade imaginativa, fertilidade de pensamento e senso prático das coisas são virtudes que colocam John Dewey entre os grandes teóricos da educação ocidental. Não é fácil reunir todas estas qualidades ao mesmo tempo, pois a tendência do grande intelectual é permanecer só na esfera das ideias. Dewey ocupou-se desde muito jovem com experiências práticas, fundando, posteriormente, o laboratório escolar, na Universidade de Chicago.

Todo seu amplo e complexo pensamento sobre democracia e educação talvez possa ser resumido no desenvolvimento de todas as capacidades humanas, nas mais diferentes direções. Tenho insistindo que esta ideia nuclear é uma herança por ele assumido do humanismo iluminista do século XVIII, principalmente de autores como Rousseau e Kant e do neohumanismo do século XIX, de autores como Humboldt e Herbart. Estes quatro autores reúnem parte fundamental do que a Europa produziu no âmbito das teorias educacionais, nos dois referidos séculos.

O peso desta longa tradição recai muito significativamente no conceito de disposição humana. Dewey usa o conceito sinônimo de aptitude, que pode ser vertido para o português como aptidão, habilidade, destreza e até mesmo como inteligência. Na verdade, são vários conceitos que aparentemente podem ser empregados como sinônimo: capacidade, aptidão, disposição e potencialidade.

Na atualidade, todos estes conceitos encontram-se resumidos pelo debate sobre as competências e habilidades. A reforma educacional europeia derivada do Acordo de Bolonha toma as noções de competência e habilidade como referência para repensar os currículos da educação escolar e do ensino superior. Mas, as noções de competência e habilidade resumem adequadamente o significado daqueles conceitos? Ou, por exemplo, deixa escapar algo que é central para a disposição humana? Estas duas questões conduzem por si mesma para uma longa investigação e pontuam grande parte do debate educacional atual.

O emprego da noção de disposição humana feito pela tradição iluminista clássica do século XVIII tem em mente o ser humano em sua integralidade, ou seja, na sua realização como homem e cidadão. Neste sentido, não é suficiente ter uma vida política bem desenvolvida ou ter sucesso econômico nos negócios. É preciso que o sucesso econômico e político venha acompanhado pela retidão do caráter, a qual implica, na formulação kantiana, tomar o outro sempre como fim e jamais como meio. É preciso agir de tal forma que a ação possa valer como lei universal, que a humanidade valha sempre como fim.

A tradição neoiluminista do século XIX mantém firme a ideia de que a educação precisa esforçar-se enormemente para descobrir e desenvolver todas as disposições humanas, em todas as direções. Deste modo, o educador, como pai ou professor, precisa estar atento para o comportamento do educando, filho ou aluno, observando como reage e de que modo enfrenta e busca resolver os problemas que se colocam no seu dia a dia e na projeção da vida futura. Pois, deste seu comportamento e daquilo que os educadores lhe exigem brotam seus talentos e aptidões.

Mas, não é suficiente descobrir a multiplicidade das disposições do educando. Faz-se necessário também impulsionar seu desenvolvimento nas mais diferentes direções. O que significa diferentes direções? Esta segunda ideia da educação humanista e neohumanista fica normalmente negligenciada ou é encoberta pela primeira, ou seja, pela noção de multiplicidade das disposições. Diferentes direções indica, contudo, não uma finalidade fechada que se traduz na escolha de um único caminho, determinado previamente pelo educador ou pela sociedade. Significa, isto sim, a multiplicidade de escolhas e a variedade de caminhos.

Educação como multiplicidade das disposições humanas e seu desenvolvimento nas mais diferentes direções canaliza, do ponto de vista histórico, os anseios da nascente burguesia, revelando, ao mesmo tempo, a complexidade e a maleabilidade da nova sociedade, levado a acabo pelo capitalismo industrial. Para uma estrutura de classe, representada pela sociedade de corte feudal, a multiplicidade das disposições estava restrita somente aos nobres. Com o advento do capitalismo, esta restrição é questionada, buscando ampliá-la, como ideal, para toda a humanidade.

Também, do ponto de vista econômico, a organização industrial, embora ainda muito restrita, exigia, de qualquer forma, uma liberação muito maior, em relação à organização agrícola, das disposições humanas. Formas de vida industriais e urbanas exigiam um exercício plural das disposições humanas, quer seja na atividade econômica ou na convivência social. Ora, a educação deveria dar conta desta nova realidade, preparando os educandos para viverem neste novo mundo, urbano e industrial.  

Democracia e educação precisa ser compreendida como esforço intelectual, filosófico e pedagógico, para dar conta desta nova organização social, com suas respectivas formas de vida. Ou seja, a questão decisiva punha-se nos seguintes termos: como educar para um mundo dinâmico, em profunda transformação, que exige relações abertas e criativas entre seres humanos?

Como bom intelectual, Dewey insere-se na longa tradição iluminista e neohumanista, procurando responder às indagações educacionais do presente, recorrendo às ferramentas conceituais da tradição pedagógica passada. Democracia e educação, como obra clássica, é um bom exemplo de como compreender a atualidade presente, interpelando a tradição. Nesta obra manifesta-se, então, o jogo frequente e cada vez mais refinado entre o deslocamento do momento presente para a imersão na tradição passada, marcado pelo retorno, dirigido agora por um novo olhar do presente, conquistado pela imersão na tradição.

A democracia como forma de vida implica então uma teoria da educação que seja capaz de considerar a multiplicidade das disposições humanas e desenvolvê-las nas mais diferentes direções. Um educando com mente aberta e capaz de fazer muitas coisas é o tipo ideal da inteligência organizada indispensável à vida social bem sucedida, disposta em abrigar seus integrantes de maneira mais justa e fraterna. Sem o trabalho formativo, lento e insistente, sobre as disposições humanas, não há como se pensar numa sociedade livre e criativa, que seja capaz de tratar com dignidade de seus filhos.

 

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