Trovão Azul

Postado por: Júlio César de Medeiro

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O causo que conto hoje é verídico e se passou em uma cidadezinha do interior do RS, na década de 90.

Robledo (nome fictício) era um peculiar professor de inglês. Solteirão, morava em uma casinha ao lado da escola, com sua longa barba, seus livros e discos e seu fusca azul a álcool, o Trovão Azul, seu único amigo.

Embora o fusca fosse seu único companheiro, Robledo não era nada cuidadoso. Havia comprado o carro zero km e em pouco mais de 10 anos o estado do fusca era deplorável. Sujo, batido, arranhado, pneus ruins, bancos rasgados, motor vazando. Água só via quando chovia, nunca havia sido lavado. O para choque dianteiro com as pontas tortas para baixo, saldo de alguma batida, davam um ar triste ao fusca.

É que o professor era adepto da teoria de que fusca só precisa de um alicate e um rolo de arame para ser consertado. Dizia de peito estufado, que só em arame já havia usado o suficiente para fazer outro fusca.

Então, num final de tarde mormacento que anunciava temporal, aconteceu algo improvável. Antes da chuva, ao longe surgiu um pontinho azul rasgando a estrada esburacada e poeirenta que era a principal da cidade. Logo as lamúrias do motor identificaram que era o Trovão Azul que voltava de outra pescaria. Cada vez mais perto, se podia notar que algo estava mais estranho que de costume. O para choque dianteiro mais torto que nunca dava um ar não mais triste, mas sim furioso ao besouro. Um farol quebrado, paralama amassado, porta torta e amarrada com arame, para brisas quebrado. Havia caído de um barranco dentro do rio, por obra do seu descuidado dono. Resgatado por uma junta de bois, o Trovão, cheio de água e raiva, ainda teve de carregar o infeliz de volta para casa.

Mas, eis que chegando na cidade, Robledo parou no bar para "umedecer a palavra" e contar do acontecido. Percebendo que a chuva não tardava, embarcou, deu partida e apontou o fusca pros rumos de casa. Mas esqueceu de prender a porta torta com o arame. Na primeira curva a porta abriu e o Robledo rolou rua afora, dando cambalhotas e giros envolto na grande barba. As tralhas do bagageiro, também presas com arame, soltaram-se e lhe perseguiram no tombo, amontoando-se junto com ele com um grande estrondo contra a parede da delegacia. O Trovão, desgovernado, achou logo adiante a traseira de Mercedes 1113. Agora, tanto carro quanto dono estavam em mau estado.

Robledo foi resgatado e levado ao hospital. Passou uns dois dias por lá, curando as feridas e o orgulho, mas não sofreu nada grave.

Trovão Azul também foi resgatado e levado ao mecânico. Passou quase três meses se recuperando, pois os estragos de anos, aliados aos acidentes, foram muitos. Enfim reformado, recuperou um pouco de seu brilho e dignidade.

O para choque dianteiro, agora com as pontas levemente curvadas para cima, faz parecer que o Trovão Azul finalmente está feliz.

 

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