Podres poderes

Postado por: José Ernani Almeida

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Enquanto ouvia a argumentação do voto do ministro Gilmar Mendes no caso da cassação da chapa Dilma-Temer, lembrei-me de uma canção de Caetano Veloso, Podres Poderes. Nada mais adequado como trilha sonora para a verdadeira aula de artes cênicas que foi o julgamento no TSE.

Nosso país tem coisas extraordinárias como o fato de o julgado, no caso, Temer, possa ter indicado neste ano dois dos seus julgadores. Durante muito tempo li e ouvi a palavra “aparelhamento” em relação aos membros do STF indicados por Lula e Dilma. E agora? O mesmo Gilmar que foi ovacionado pelos paneleiros, por ter garantido a continuação da ação contra Dilma, agora a absolveu!!!???? E ainda houve quem soltasse foguetes ao final do voto de Gilmar Mendes. Me parece que a  direita  anda afundada em suas  próprias  contradições.

Será que não percebeu que Dilma saiu vitoriosa e o Judiciário mostrou a sua cara tão ridícula como a do circo promovido pelo Legislativo em 2016?  Que o resultado do julgamento foi a cristalização do que aconteceu no ano passado, isto é, um golpe? Que o plano sempre foi o de golpear Dilma e tomar o poder? Que ficou escancarada a máxima: para os inimigos a lei. Para os amigos suas benesses... ?

Gilmar Mendes é uma figura ímpar. No Supremo e no TSE, controla o jogo. Ele enfrenta a Lava Jato e o procurador-geral Rodrigo Janot, e ainda arruma tempo para articular uma reforma trabalhista ao gosto do governo, palpitar sobre o Bolsa Família, o ajuste fiscal e os cargos federais, além de estrelar, como ocorreu no ano passado, tal qual um militante partidário, um Congresso do fascista Movimento Brasil Livre, articulador do golpe de 2016 e defensor das reformas neoliberais propostas pelo governo.

Os encontros com Temer, durante e fora do expediente – as caronas no jato da presidência, por exemplo –, causavam a impressão, agora confirmada, de que Gilmar Mendes tornou-se uma espécie de  “líder do governo no Judiciário”, papel que desempenhou nos idos do governo  FHC.

Em novembro de 2016 a revista CartaCapital, trouxe como reportagem de  Capa, Gilmar Mendes. Nela a publicação o chamou de “senhor da  república”. Mostrou a consolidação do seu poder em Brasília e o espantoso crescimento de seus negócios como sócio de quatro empresas ligadas ao setor  educacional, notadamente  depois  do golpe.

Com Mendes à frente, o Judiciário entra para a história, neste início do século 21, como um instrumento nas mãos de uma turma especializada  na produção de pizza!

Nos resta ouvir Caetano: “Enquanto os homens exercem seus podres poderes/ Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos/ E perdem os verdes/ Somos uns boçais/ Queria querer gritar setecentas mil vezes/ Como são lindos, como são lindos os burgueses/ E os japoneses/ Mas tudo é muito mais/ Será que nunca  faremos senão confirmar/ A incompetência  da  América Católica/ Que sempre precisará de ridículos tiranos?”.

E por aí, como cantou Chico Buarque, “vai nossa pátria mãe tão distraída, ser perceber que era subtraída em tenebrosas transações”. E ainda há quem solte foguetes!!!!!

 

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