O ideal educativo do século XVIII: natureza versus individualismo

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A teoria da educação possui diante de si o difícil problema de ter que equacionar satisfatoriamente o problema da relação entre indivíduo e sociedade. Não é possível pensar o ser humano fora da sociedade e, por isso, a educação é um fato social que se forma no âmbito das instituições, dos costumes e das leis. De outra parte, a sociedade é constituída por seres humanos e a educação não deixa de ser, neste sentido, o modo de preparar a inserção de cada ser humano no âmbito da vida social. Por isso que se diz que a educação é uma das formas principais de socialização dos seres humanos.

O problema da formação do ser humano no ambiente social e natural também é uma questão chave da teoria educacional de John Dewey. Na coluna anterior expus como o referido autor considera o filósofo grego Platão como fundador da noção de educação compreendida enquanto desenvolvimento das disposições humanas, nas suas mais diferentes direções. Contudo, entre outros limites, Platão foca mais na sociedade e no Estado, enfraquecendo a posição do indivíduo (sujeito singular). Ou seja, sua teoria da educação possui dificuldade de dar conta da individualidade humana.

Dewey dá um salto histórico, em sua exposição do capítulo VII de Democracia e Educação, da antiguidade para o século XVIII. Interessa-lhe aí investigar uma tendência educacional forte, denominada por ele de individualista. Se Platão acentuou excessivamente a perspectiva estatal, no século XVIII, o enfoque recai no indivíduo. Pode concordar-se com Dewey no sentido de que há esta tendência, mas não se pode esquecer que este século, um dos mais ricos na história da educação ocidental, é plural, abarcando no seu interior várias tendências. Além do individualismo, há outras ideias que acentuam a cooperação social, a solidariedade e a empatia.

Cabe perguntar então o seguinte: o que seria, no olhar de Dewey, o enfoque individualista no âmbito da educação?  Que tradição intelectual e que autores comporiam tal enfoque? Ele nomeia expressamente Rousseau e deixa subentender que também Locke seria partidário do enfoque individualista. Entre estes dois autores há muita semelhança, mas coloca-los no mesmo plano não é possível, sem justificativa consistente. De outro modo, considerar Rousseau como teórico do individualismo foge às interpretações estandartes de sua teoria educacional.

Locke, como autor do século XVII, que antecipa muitos problemas educacionais do século XVIII, é grande defensor da liberdade individual e o faz sem necessariamente cair no individualismo. A educação que propõe ao jovem cavalheiro está marcado por aspectos virtuosos que conduzem mais à solidariedade humana do que ao individualismo possessivo. Sua crítica ao anseio humano de sempre querer parecer mais do que é antecipa, em certo aspecto, a crítica que Rousseau fará ao artificialismo do século XVIII.

Rousseau, por sua vez, foca no problema da piedade, vendo nela a possibilidade que o ser humano possui de incluir o outro em sua ação. Sentir piedade pelos outros significa se compadecer com seus sofrimentos e lhe ser solidário em sua dor. É o afeto da piedade que permite educar o lado destrutivo do amor próprio, conduzindo o ser humano a assumir a solidariedade como laço social vinculante. Este núcleo ético presente no pensamento de Rousseau coloca-se contra a perspectiva individualista.

Talvez possamos entender melhor o pensamento de Dewey se considerarmos o modo como ele interpreta o conceito de natureza. Para ele, a pedagogia do século XVIII concebe a natureza como núcleo da educação. Não há como pensar na formação da criança e do ser humano em geral sem levar em conta a noção de natureza. Isso tem duas razões precisas, que se entrelaçam entre si: a sociedade corrompe o ser humano e a natureza é a força normativa capaz de evitar tal corrupção.

O ser humano nasce livre, sendo bom por natureza. A sociedade o corrompe, empurrando-o para o artificialismo das relações sociais. Na sociedade, ele vive na máscara, esforçando-se para parecer ser e despreocupando-se com o seu próprio ser. O mundo das aparências joga o ser humano para a inautenticidade, distanciando-o da busca pela vida virtuosa. A vida coquete dos salões parisienses impressionou negativamente Rousseau de maneira profunda que o levou abandonar Paris e a buscar a vida no campo, em profunda meditação e escrita, para buscar compreender melhor o mundo e a si mesmo.

Ora, é o recurso à ideia de natureza que permite pensar a formação humana e as relações humanas em sociedade de maneira diferente. A natureza coloca-se primeiramente como força de desenvolvimento das próprias disposições humanas. Isto é sintomático, por exemplo, para a educação infantil. Como são os sentidos e não a razão que primeiro se desenvolvem na criança, o contato com a natureza estimula o fortalecimento do corpo e o refinamento dos sentidos. Uma educação adequada da criança implica no desenvolvimento natural de seus sentidos e a força da natureza ensina o conhecimento dos limites humanos de maneira mais eficiente do que a vida social, sempre sujeito à corrupção humana.

A natureza torna-se a força educadora para o bem porque nela não há maldade, artificialidade e nem inautenticidade. Como fonte da bondade e da beleza, a voz da natureza fala a favor da diversidade do talento (da disposição) individual e da necessidade do livre desenvolvimento da individualidade em todas as suas variedades. Este pensamento constitui o núcleo da natureza como fonte de formação das disposições humanas.

A associação entre natureza e formação da individualidade tinha como meta, no âmbito da vertente mais sólida do iluminismo do século XVIII, o ideal do progresso social e da humanidade como fim. Ou seja, procurava-se aliar o desenvolvimento econômico com o ideal de realização da humanidade livre e justa. O desenvolvimento econômico, o progresso da ciência e da tecnologia deveriam ter função social bem definida, servindo para a realização humana e social.

Em síntese, há uma vertente da pedagogia do século XVIII que não desemboca no individualismo. Isto pode ser tomado como contraponto crítico à interpretação de Dewey, uma vez que ao acentuar o individualismo moderno, ele quase fechou os olhos para os argumentos à favor da cooperação social e solidariedade. Contudo, ao seu favor pesa o questionamento sobre o papel excessivo que a pedagogia atribui à noção de natureza: possui ela realmente a força que pensadores como Rousseau lhe atribuem?

 

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