A perspectiva educacional individualista

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Vou retomar na coluna de hoje o problema do individualismo que deixei em suspenso na coluna anterior. Se há uma tendência solidária forte nas teorias educacionais do século XVIII, como emerge o individualismo? Justamente neste ponto é que Dewey formula, no contexto do capítulo VII de Democracia e Educação, sua ideia original: o mesmo ideal da perfectibilidade infinita do ser humano que sustenta a aliança entre progresso social e humanidade livre também conduz à doutrina do individualismo extremo. Isto ocorre quando a formação das capacidades individuais desvincula-se de experiências educacionais cooperativas e solidárias. Quando o progresso econômico visa somente o lucro, desvinculado da formação humana, ele conduz ao individualismo possessivo.

É perfeitamente compreensível, do ponto de vista histórico, as razões que tornaram possível, segundo Dewey, a formação do individualismo extremado. As estruturas fechadas e dogmáticas da sociedade feudal coibiam o desenvolvimento das liberdades individuais e a ruptura destas estruturas conduziu, no primeiro momento, para a defesa extremada da liberdade. Também é neste contexto que se entende a importância dada à natureza; nas palavras do próprio autor: “Dar à natureza plena liberdade de ação era substituir uma ordem social artificial, corrompida e injusta, por um novo e melhor reino da humanidade”.

Muitas questões teóricas, de natureza política e pedagógica, estão relacionadas com o problema da tendência individualista apontada por Dewey. O tratamento deste tema é importante para compreender sua ideia de democracia como cooperação social e o papel que a educação desempenha para a realização desta ideia.

A sociedade feudal era uma sociedade de estamentos, que apresentava uma divisão fixa entre as duas principais classes sociais, a nobreza e servo. Não havia possibilidade de circulação de uma classe para outra: o servo jamais poderia se tornar senhor. Este limite instransponível da estrutura social feudal mostrava-se, ao mesmo tempo, como limite da própria liberdade humana. Na verdade, a liberdade estava limitada ao âmbito da nobreza, que já nascia com o direito de sangue para governar e usufruir das vantagens do poder.

A luta contra estes ideias restritos de liberdade assumiu primeiramente a perspectiva individualista. A ampliação da liberdade deveria tocar primeiramente a ampliação dos direitos de todos os seres humanos e não apenas de uma determinada classe social. Por isso, a crítica à nobreza assume diferentes dimensões.

Do ponto de vista político, a crítica volta-se contra a monarquia e o poder absoluto do príncipe. O poder não pode estar concentrado na mão de uma única pessoa. Daí o fracionamento da autoridade e o surgimento da divisão do poder em três esferas: executivo, legislativo e judiciário. Tem-se, com isso, o nascimento da democracia representativa moderna e o modo de funcionamento do governo que vigora até hoje.

Do ponto de vista educacional, há duas mudanças fundamentais: o ensino precisa ser muito mais do que transmissão e memorização de conteúdos e a autoridade não pode estar concentrada somente na figura do professor. A educação tradicional, própria ao mundo fechado e à fixidez social do sistema feudal, não serve mais para a nova ordem social que se avizinha, marcada cada vez mais pelas formas plurais de vida, urbanas e industriais.

O núcleo da educação nova que deve sustentar a nova ordem social repousa na concepção ativa do sujeito educacional. Este núcleo Dewey recolhe da tradição pedagógica dos séculos XVIII e XIX, oferecendo-lhe nova roupagem, no âmbito de sua teoria educacional. Que o ser humano é antes de tudo um ser ativo e que é pela sua condição ativa que ele estabelece seus laços sociais tornam-se duas ideias centrais da teoria da democracia de Dewey.

A crítica à ideia da autoridade centrada na figura do professor tem consequências não só pedagógicas, mas também políticas: se o ser humano não tiver a oportunidade de fazer suas próprias experiências já na infância, ele não aprende a ser sujeito de sua própria história. Isso significa, em outros termos, que é pela capacidade de fazer suas próprias experiências que o sujeito educacional conquista a possibilidade de se dominar a si mesmo. Ora, a ideia do autogoverno é a base ético-pedagógica fundamental da democracia como forma de vida.

Com este núcleo educacional Dewey quer evitar a um só tempo tanto o autoritarismo inerente à educação tradicional como o individualismo que brota do primeiro movimento de reação à educação tradicional. Ou seja, seu dilema consiste em evitar o autoritarismo sem cair no individualismo. Neste contexto, o fenômeno do individualismo precisava ser melhor estudado e, por isso, Dewey dedica atenção, no capítulo VII de Democracia e Educação para compreendê-lo.

A questão que sempre perturbou os filósofos e os teóricos da educação é saber por que o ser humano é um ser egoísta e como o egoísmo ganha legitimidade social. Este parece ser o ponto de partida para compreender o problema do individualismo humano. Controlar suas paixões e inclinações narcisistas sempre foi um dos grandes desafios humanos, de cujo enfrentamento adequado depende a boa sociabilidade. Mas isso deve ser feito de tal maneira que não coíba o desenvolvimento das capacidades humanas e não freie o querer humano e suas ambições correspondentes.

Dewey insere-se nesta problemática mais ampla, concebendo grosso modo a dupla raiz do individualismo, antropológica e social. A raiz social do individualismo manifesta-se por meio do liberalismo econômico dominante na época. Guiado pela forte ambição do lucro, o capitalista via na indústria apenas a forma de aumentar seu capital. Este espírito ganancioso está na base do individualismo econômico. Dewey não abre mão, neste contexto, do papel social que a propriedade precisa desempenhar e da solidariedade humana que precisa estar na base do desenvolvimento econômico.

A raiz antropológica mostra que o individualismo é antes de tudo uma inclinação humana que se entrelaça com o dinamismo da estrutura social. Ou seja, o ser humano torna-se individualista, primeiramente, por motivo de sua própria autoconservação, mas, também, por poder e prestígio social. Quando faz valer desmesuradamente seus interesses particulares sobre os demais, torna-se individualista. Contra a tendência humana individualista, Dewey opõe a ideia de cooperação social, colocando-a na base de sua noção de democracia como cooperação social.

Em síntese, o individualismo extremado surgiu como contraparte da defesa da humanidade livre, assentada na ideia de natureza como força transformadora das capacidades humanas. Como o individualismo é a antítese da ideia de democracia como cooperação social, ele precisa ser combatido no âmbito das teorias educacionais. Neste contexto, o Emilio de Rousseau representa o maior e mais consiste esforço de pensar a educação humana tomando a ideia de natureza como principal força formativa das disposições humanas.  Por isso, ao contrário do que pensa o próprio Dewey, o Emílio pode ser interpretado como obra crítica ao individualismo extremado.

 

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