Liberdade de expressão e de crítica

Postado por: Marcel Van Hattem

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A busca pela verdade e apuração justa dos fatos é elemento central no jornalismo. Subjugá-las em nome do quê ou de quem quer que seja corrói a credibilidade do meio de comunicação. Não à toa percebi nas redes nos últimos dias, enorme questionamento à forma como foi conduzido o caso da suposta prisão do Arthur do Val, do canal de Youtube Mamãe Falei. Conduzido à 17ª DP de Porto Alegre para prestar depoimento após uma confusão em meio a uma manifestação do Simpa, em Porto Alegre, quando produzia mais um de seus vídeos em que faz questionamentos sobre os motivos que levam ao protesto, o Arthur acabou sendo vítima do jornalismo enviesado.

Na confusão, dois admiradores do trabalho do Arthur acabaram entrando em confronto com sindicalistas. Por conta disso e da incitação ao microfone feita pelos sindicalistas contra o Arthur no momento, a Guarda Municipal interviu e levou as pessoas que estavam na confusão para prestar depoimentos. Sem ouvir todas as fontes, a repórter da Rádio Guaíba, na ânsia de se antecipar aos fatos, publicou no Twitter informações distorcidas, dizendo que os dois admiradores eram seguranças do Arthur, e que o Arthur teria sido preso. Nada disso se confirmou, e o Arthur, solto e com a sua câmera em punho, fez um vídeo após dar o seu relato para a polícia questionando as informações veiculadas pela repórter.

O vídeo feito com ela, veiculado no canal Mamãe Falei, viralizou na internet. Não restaram dúvidas de que a repórter deixou de noticiar o que aconteceu de fato. Mas seus colegas de rádio não gostaram de ver a colega ter o trabalho criticado e resolveram, então, criticar a mim por demonstrar, também no Twitter, que as informações disponibilizadas pela jornalista eram falsas. Fizeram comentários no ar também, dizendo que eu teria “cegueira ideológica”, que seria “idiotizado”. Por responder aos comentários negativos que os colegas da repórter faziam e por ter apontado que a repórter é militante de esquerda, no Twitter, disseram que eu estava incitando o ódio. Tudo sem me disponibilizar qualquer espaço para resposta em algum dos programas da rádio. A ponderação de que a Rádio Guaíba tem viés ideológico majoritariamente à esquerda tem sido constante (o que não é ilegítimo, de forma nenhuma, mas torna-se um obstáculo à credibilidade se a Rádio considera-se a si mesmo como plural).

Não raro ouvimos e lemos jornalistas que possuem espaços para opinar se queixando das redes sociais, ambiente em que os próprios jornalistas e praticamente toda a população está presente, como se fosse um espaço menos importante, radicalizado. Dizem que "por lá" há muito ódio - mas é por vezes exatamente com ódio que se posicionam quando questionados nas redes. Já passou da hora de deixar o preconceito de lado e entender que um jornalista possui, neste novo momento, ainda mais responsabilidade ao opinar, principalmente porque todas as pessoas têm acesso às redes e podem questioná-los livremente. Cada um com a sua posição, utilizando as mídias à disposição, e respondendo individualmente por suas atitudes.                       

Como deputado mas, sobretudo, como jornalista, faço questão de frisar que minha defesa é sempre pela liberdade de imprensa e de expressão. Uma imprensa livre, plural e independente, porém, critica mas também ouve críticas a seu trabalho, aceitando-as ou rejeitando-as, e dando espaço ao contraditório. Por outro lado, uma imprensa livre, sectária e panfletária, ataca quem a critica e não aceita o contraditório. A Rádio Guaíba talvez precise decidir que tipo de imprensa livre ela é em tempo de redes sociais, quando a dissimulação dos fatos é rapidamente revelada e o tratamento da informação com verniz ideológico é facilmente desmascarado.

Por fim, combato todo tipo de corporativismo, nefasto na sociedade em qualquer setor. O corporativismo no jornalismo talvez seja de todos o mais deletério pois só é possível se os próprios profissionais corporativistas subjugarem a verdade para defender colegas a qualquer custo, atentando contra a credibilidade da própria profissão. Espero, sinceramente, que esse caso seja pedagógico no sentido de demonstrar que, se houver alguma “idiotização”, ela jamais deve ser a do ouvinte, cada vez mais bem informado por uma infinidade de outros meios para julgar se a informação recebida é de fonte com credibilidade ou não.

 

 

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