A perspectiva da humanidade cosmopolita de Kant

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Dewey também coloca a perspectiva educacional de Kant como alternativa tanto ao individualismo como ao nacionalismo. Mas, em que sentido a perspectiva educacional kantiana constitui tal alternativa? Há duas noções fundamentais: a humanidade como fim e o cosmopolitismo. Kant escreveu muito sobre vários temas, mas pouco diretamente sobre educação. O que temos dele, mais consistente, são suas aulas sobre pedagogia, editadas posteriormente, após sua morte, com o título Sobre a Pedagogia.

Dewey toma este escrito como referência para expor resumidamente a ideia de educação de Kant. Primeiro retoma a definição dada por ele de educação como processo por meio do qual o ser humano torna-se humano. Considerando que a selvageria caracteriza a condição humana inicial, se ela não for tratada, o ser humano não se socializa e, com isso, não pode se tornar um ser cultivado.

Neste contexto, a cultura é resultado da lapidação interior permanente e a educação é, para Kant, a principal força que o ser humano dispõe para lapidar-se a si mesmo. A educação está muito próxima da cultura, é o principal mecanismo para se chegar até ela, e em seu processo se transforma ela própria em cultura. Por isso, sob determinado aspecto, não há diferença entre educação e cultura.

Kant compreende a noção de natureza um pouco diferente de Rousseau. Ela oferece apenas os germes iniciais ao ser humano, os quais precisam ser desenvolvidos pela educação. A natureza não possui mais aquela força pedagógica e moral que Rousseau lhe atribuiu. Sendo assim, destaca-se mais em Kant o papel do educador e das instituições sociais, no trabalho de lapidação da rudeza humana. É a educação como modo cultural de vida que permite que a selvageria seja humanizada, mas a educação precisa da força mediadora das instituições, principalmente da família e da escola.

Segundo Dewey: “A peculiaridade da vida verdadeiramente humana é que o ser humano precisa criar-se a si mesmo, por seu próprio esforço voluntário. Ele deve fazer a si mesmo um ser verdadeiramente moral, racional e livre”. Esta linha kantiana de pensamento, reconstruída pelo pedagogo americano, implica a liberdade humana como capacidade de iniciar por si mesmo um novo estado. Sem liberdade não há posição ativa do sujeito e menos ainda educação. Pelo fato de ser livre ou de ter a possibilidade da liberdade, o ser humano rompe com o mecanismo natural, independiza-se, de certo modo, das amarras que o prendem à natureza; produz uma segunda natureza, que nada mais é do que a própria cultura.

No centro do pensamento moral, político e educacional de Kant está, portanto, a noção de liberdade. Ela não só permite uma certa independização do ser humano em relação à natureza, como também em relação à própria sociedade. Ao assumir sua condição de ser livre, o ser humano, dominando sua vontade, pode não só romper a cadeia causal natural, como também se insurgir contra o que social e politicamente o oprime. A educação desempenha papel decisivo neste processo de independização.

Kant vincula este processo lento de independização, guiado pela ação humana livre, ao pensamento da maioridade. Toda a educação precisa visar este fim, pois sem a maioridade, que também pode ser compreendida como autonomia, não há democracia e nem a possibilidade do ponto de vista cosmopolita. A busca pela maioridade depende em parte da estrutura social e, também, do próprio sujeito. Kant chega mesmo a dizer, para enfatizar o papel do sujeito, que por preguiça e covardia muitos preferem manter-se servos e obedientes aos outros. Deixar de ser preguiçoso e covarde é a primeira iniciativa para conquistar a autonomia.

Sapere Aude é a expressão latina que Kant usa como lema do esclarecimento; ela significa ter a coragem de pensar por si mesmo e sem tal coragem não há autonomia possível. Neste sentido, a independência como autogoverno depende da vontade do sujeito, a qual, por sua vez, é matéria de formação. Como nenhum ser humano não nasce autônomo, sua conquista depende de longo e infindável processo educacional.

De qualquer sorte, Kant acentua, em Sobre a Pedagogia, o papel que as gerações mais velhas possuem na educação das gerações mais novas. Uma geração educa a outra e compete à geração mais nova ser melhor do que a geração anterior. Deste modo, a educação expressa este melhoramento humano que se reflete a médio prazo, com maior força na espécie do que no sujeito individual. A vida humana é muito curta para que possa suportar transformações profundas que possibilitem um melhoramento acentuado.

Mas, como uma geração educa a outra? Como o adulto educa a criança? Kant atribui papel formativo importante à disciplina, pois é por meio dela que a criança aprende a dominar suas inclinações e caprichos. Sem tal domínio, a criança não consegue descobrir e nem desenvolver suas capacidades. Mas, a disciplina não deve ser entendida como poder autoritário que o adulto exerce sobre a criança. Disciplina não é sinal de castigo físico e nem de coerção violenta, exercida a força contra a criança. É a forma de indicar os limites, movida pelo amor afetivo do adulto em sua relação com a criança.

A disciplina é a primeira forma da educação infantil porque a criança ainda não é capaz de viver mediante regras. Mas, na medida em que ela desenvolve sua vontade e aprende progressivamente a dominar a si mesma, a disciplina precisa ceder lugar para as máximas. Na adolescência e juventude, o poder das máximas se acentua porque a capacidade de determinar-se a si mesmo é muito superior do que na infância. De qualquer forma, a educação disciplinar e a educação movida por máximas são duas etapas importantes da educação para a maioridade.

Kant, do mesmo modo como Rousseau, acentua o foco na educação moral, cujo núcleo repousa na formação virtuosa do caráter. A ideia é a preparação progressiva do ser humano para que possa assumir uma forma virtuosa de vida no âmbito da república entre justos e iguais. Neste contexto, dois aspectos são importantes: o respeito pelo ponto de vista do outro e a postura cosmopolita. Ambos andam juntos e um não existe sem o outro.

O respeito pelo ponto de vista do outro vem expresso pelo ideal moral mais alto de sempre tomar a humanidade como fim e jamais como meio. Tomá-la como fim não significa aceitar tudo o que vem do outro; ao contrário, pois leva-lo a sério, que é a forma do respeito autêntico, implica contestá-lo, quando for o caso. De qualquer forma, tomar a humanidade como fim é o imperativo moral que impede sua instrumentalização. Talvez esta seja a exigência mais profunda da formação humana, pois impede, moralmente, que o ser humano seja transformado em objeto.

A postura cosmopolita por sua vez significa a orientação política de considerar como iguais outras culturas e nações. A diferença de raça, religião, classe social e gênero não deve ser motivo de discriminação e exclusão dos outros. O ponto de vista cosmopolita implica levar a sério as diferenças, respeitando inclusivo quem pensa de maneira diferente. Para elucidar tal metáfora, Kant usa a bela expressão cidadão do mundo.

Em síntese, em Kant encontramos a formulação mais alta dos ideais iluministas de educação. O ponto de vista moral de tomar a humanidade como fim impede a instrumentalização do outro. O ponto de vista cosmopolita, como modo de orientação política, ao mesmo tempo que exige a ruptura com a visão provinciana, também possibilita o sujeito transformar-se em um cidadão do mundo. Deste modo, humanidade cosmopolita é o ideal da educação para a maioridade.

 

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