Educação democrática: a proposta de Dewey

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Nas colunas anteriores reconstruí a crítica que Dewey faz a diferentes teoria educacionais modernas. Sua crítica mantem um núcleo importante delas, a saber, a preocupação em desenvolver as capacidades humanas em todas as direções. Antes de abandonar a reconstrução do capítulo VII de Democracia e educação gostaria de reservar, para a coluna de hoje, algumas considerações sobre a própria proposta de Dewey.

Um aspecto a ser tratado refere-se ao nexo estreito entre democracia e educação. A pergunta que se põem é a seguinte: por que para Dewey, autor do século XX, não pode haver democracia sem educação e vice-versa? Um dos problemas que o preocupa é a relação entre indivíduo e sociedade: como se dá a formação autônoma da individualidade no contexto social? Do ponto de vista pedagógico, a ideia chave é que o educando, constituído por capacidades, necessita encontrar as condições para desenvolvê-las.

Daí a importância do ambiente social, da família, da escola, do Estado e da sociedade como um todo. Quanto mais estas instituições provocarem o desenvolvimento das capacidades individuais de cada ser humano, mas ele estará preparado para assumir suas responsabilidades sociais. Quanto mais tais instituições cercearem tal desenvolvimento, mais excluído e marginalizado o ser humano se sentirá. Neste sentido, o trabalho educativo sobre as capacidades humanas é decisivo para evitar a corrupção social e a própria barbárie humana.

A proposta educacional de Dewey surge de seu diálogo crítico com a tradição pedagógica passada. Contra o peso atribuído por Platão ao Estado e à sociedade; contra o peso atribuído pelo individualismo moderno ao indivíduo e contra a ideia de natureza propagada por Rousseau, contra todas estas tradições, Dewey objeta o desenvolvimento livre de todas as capacidades em todas as direções. Trata-se, como já afirmei em colunas anteriores, de um ideal neohumanista que o pedagogo americano assume com desenvoltura e readapta-o de acordo com as circunstâncias sociais americanas do início do século XX.

Em que consiste as capacidades humanas e como elas podem ser acionadas pela educação? Esta é uma das perguntas mais difíceis para se compreender a proposta de Dewey. Capacidade não é um termo criado por ele; herda-o da tradição pedagógica ocidental. Em Democracia e educação ele usa preferencialmente o termo aptidão, o qual pode ser tomado em princípio como sinônimo de capacidade.

Pois bem, como chega esta tradição até ele? Como na pedagogia ocidental tudo se origina do pensamento filosófico grego, vamos encontrar a expressão capacidade nos textos tanto de Platão como Aristóteles. Capacidade ou aptidão está diretamente relacionada ao impulso originário do ser humano e, por isso, da própria filosofia. Para compreendê-lo, é preciso investigar o significado de páthos e thaumázein, duas expressões gregas que de certa maneira sintetizam o sentido originário da própria filosofia pedagógica.

A tradução mais usual de páthos é doença, indicando o estado doentio do ser humano. Por isso, na medicina páthos dá origem à patologia, que etimologicamente significa o estudo da doença. Este é uma aspecto da questão, que se permanecer somente nele dá uma ideia reduzida do páthos, não apreendendo o sentido originário que interessa tanto à filosofia como à própria educação. Não que a doença do corpo não interessa à educação, pois o ensino e a aprendizagem precisam antes de tudo de corpos saudáveis.

O sentido pedagogicamente relevante de páthos refere-se à doença da alma e do espírito. Tem a ver mais precisamente com o sofrimento da alma. A que se refere este sofrimento? Refere-se à capacidade humana de suportar algo, deixando-se levar por ou sentir-se provocado por algo. Movida por paixões, a alma humana sofre, perdendo-se e se encontrando novamente nas lidas da vida. Cabe ressaltar, contudo, que este sentido de páthos não interessa somente à educação e à filosofia, mas também à medicina, pois está na origem da concepção hipocrática de saúde.

Thaumázein, por sua vez, é uma das palavras gregas mais ricas. Pode ser traduzida por espanto ou admiração. Significa, na verdade, o estado afetado da alma, que a move em determinada direção. Daí, a associação estreita entre sofrimento e espanto, porque um não existe sem o outro. Somente o ser humano afetado se espanta e, ao se deixar espantar, inicia o processo de cura. Espanto e sofrimento dão origem conjuntamente às capacidades humanas, pois caracterizam ambos a disposição humana para algo.

Esta origem longínqua das disposições humanas está na base da noção de capacidade que marca as teorias educacionais modernas e que chegam até a teoria das aptidões humanas de Dewey. A noção de ser humano como “disposto para” é crucial em Rousseau. A disposição é definida por ele como perfectibilidade: o ser humano possui a capacidade de se aperfeiçoar constantemente e de maneira indeterminada. Estar disposto para significar ser capaz de se aperfeiçoar indefinidamente.

Esta longa tradição é importante para a teoria das aptidões de Dewey. É pela sua aptidão que o ser humano torna-se capaz de ensinar e de aprender. Ser apto significa ter o poder de moldar-se ao meio, deixando-se moldar pelos outros. Mas, ser apto representa também a capacidade interna do ser humano de moldar-se a si mesmo, resistindo as forças externas que sempre exigem dele algo.

Por isso que, para Dewey, educação nada mais é do que esta relação tensional permanente entre as pressões vidas do ambiente e a elaboração que o educando é capaz de fazer delas. Sem as pressões do ambiente, o educando fechar-se-ia em um casulo, adoecendo e terminando por morrer. Sem a capacidade de elaboração de tais pressões, selecionando-as adequadamente, o ser humano não forma sua própria individualidade. Identificar o conteúdo de tais pressões e as formas de elaborá-lo torna-se uma questão educacional importante, de responsabilidade tanto do educador como do educando.

O que a democracia tem a ver com isso? Ora, ela é a maior força moral que regula politicamente a tensão entre as pressões externas e as elaborações internas. Como ideal moral e político, ou seja como modo cultural de vida, a democracia impede que, por um lado, o ambiente aniquile o ser humano e, por outro, que o próprio ser humano afunde-se em seu individualismo narcisista. É por isso que, para Dewey, o sentido legítimo de democracia é cooperação social.

  

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