Autos de fé

Postado por: José Ernani Almeida

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Vivemos tempos muito estranhos neste país. No judiciário, por exemplo, observamos o retorno de um sistema medieval de persecução, onde a convicção antecede a sentença. Em entrevista à revista CartaCapital, o senador Roberto Requião, lembrou do livro Malleus Maleficarum, de 1487, obra que instruiu e guiou a Igreja Católica na perseguição, tortura e morte de milhares de homens e mulheres, sobretudo elas, acusados de bruxaria ou heresia. Naqueles tempos sombrios, eliminava-se adversários em um simulacro de justiça, coisa que hoje estamos vendo no Brasil.

Para a defesa de interesses, decisões judiciais, partem de uma visão ideológica, desligada da realidade. Há uma clara vontade de eliminar o adversário político. Na Idade Média, havia a tortura e a perseguição dos que não se submetessem à Igreja. Hoje são utilizadas prisões cautelares para buscar confissões e delações. O confinamento é um castigo que acaba gerando confissões.

Para reforçar a tese de que estamos vivendo tempos em que justiça e milenarismo convivem sem nenhum  constrangimento, basta lembrar  do  procurador Deltan Dallagnol. Ele não cansa de asseverar que “agradece ao Deus a quem sirvo”. O procurador arroga para si a messiânica missão de extirpar o mal da vida social e política brasileira. Curiosamente, os indícios e presunções dos milenaristas de toga, servem para acusar os adversários, raramente os amigos.

O sociólogo Pierre Bourdieu, no livro A Economia das Trocas, alertou para as múltiplas imbricações que a religião, ou o campo religioso, pode estabelecer com a sociedade, inclusive, com a política. Tomou como exemplo, o discurso inquisitorial da  igreja  do séc. XVII, que  teve  “ uma função  ideológica, função prática e política  de absolutização do relativo e legitimação do  arbitrário”.

Isto foi corriqueiro nos países Ibéricos durante suas constantes crises políticas. Nesses momentos, os autos de fé se tornaram comuns. Termos como “falso”, “mentiroso”, “sujo”, “corrupto”, bem como metáforas bíblicas, ganharam espaço, no embate político entre membros da nobreza  e da burguesia  no séc. XVII.

 

 Os sermões dos autos de fé captavam a realidade política e social dos reinos em geral, articulando os interesses da igreja com os mesmos.  O discurso inquisitorial justificava-se como forma de manter a ordem social tal qual estava “dada”, sem inovações. A pregação inquisitorial, portanto, não se reduzia a tratar de temas estritamente religiosos. Funcionou como porta-voz de interesses grupais e como mantenedor da ordem estabelecida.

Hoje, no Brasil, julgar parece muito mais um ato de crença, ou seja, de fé. A “dúvida razoável”, “a convicção”, os silogismos tortuosos e tão arcaicos que nos remetem aos discípulos de Santo Tomás de Aquino, são utilizados em abundância por membros do judiciário que se acham ungidos por Deus.

Juízes e procuradores se apresentam como semideuses, sacerdotes acima de qualquer ideologia e preconceito e, assim, como afirma a socióloga Marcia Tiburi, no livro Ridículo Político, “devem assumir uma feição conservadora para manter o respeito e a dignidade da função, ou seja, uma vítima da normalidade produzida pelo senso comum e pelos meios de comunicação de massa, que constroem a imagem do “bom juiz” como um herói que não tem limites à realização do que entende por justiça”.

Confirmando o que afirmou Bourdieu, sobre as imbricações da religião com a política, vi, dias atrás, a publicação de um jovem vereador passo-fundense, na qual o mesmo comemorava a conversão de um marxista-comunista e ex-líder sindical ao Cristianismo, pela graça do Espírito Santo! O vereador não teve dúvidas em citar o apóstolo João, “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Sessão de descarrego na Câmara de Vereadores.  Aleluia irmãos!!!

Me valho novamente da socióloga Márcia Tiburi: “em nossa época, proliferam cenas que desfiguram a vida política para além da simples aparência (...) as  cenas próprias  ao ridículo político nos parecem, muitas  vezes, apenas atos involuntários, efeito de ignorância  ou ingenuidade, de uma bufonaria  natural, embora sirvam ao poder”. O tempora, o mores!!!!

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