Evento natural e a ação educativa

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Deixei claro, na coluna anterior, que Dewey se preocupa com a finalidade da educação por duas razões bem definidas: evitar, por um lado, que a ação educativa seja determinada exclusivamente de fora, pois, quando ela o é, deixa de ser autônoma; por outro, trata-se de pensar as condições em que a ação educacional pode ser determinada internamente, por ela mesma, sem a determinação exclusiva que vem de fora. Isso conduz então à investigação das condições imanentes à ação educacional.

Na linguagem atual, o problema tem a ver com a autonomia educacional e com a possibilidade do sujeito educacional ser portador de sua própria ação. A educação torna-se autônoma, embora seja sempre uma autonomia relativa, quando não se deixa curvar exclusivamente às demandas sociais, econômicas e políticas postas pelo governo, pelo mercado e pela sociedade. De outra parte, o sujeito educacional torna-se autônomo quando relações horizontais e transparentes se estabelecem no interior da comunidade educacional. Quando o aluno, por exemplo, não obedece irrestritamente a ordenação do professor, como a abelha segue fixamente, de maneira instintiva, a voz de comando de sua rainha.

O problema implica pensar, então, segundo Dewey, na natureza do fim quando é referido a uma atividade ou ação, em vez de ser definido de fora, por uma força externa à própria ação. Trata-se de uma questão importante porque o que está em jogo é a especificidade da ação educacional como um fenômeno eminentemente humano e social, diferente de um evento natural ou da associação de certas espécies de animais. Ou seja, é preciso saber por que a ação educacional é própria do ser humano e de sua sociedade, e não pode ser produzida no mesmo sentido, por outros seres vivos e outras formas de associações animais. Qual é o conteúdo desta especificidade e por que se torna importante pensa-la para pode conceber a humanidade e o mundo?

Antes de investigar a especificidade da ação humana e da própria ação educacional, Dewey refere dois outros tipos de eventos, um natural e outro social, limitando este último à associação das abelhas. Investigar como se põem os fins e os resultados nestes dois tipos de eventos tornar-se instrutivo, metaforicamente, para se compreender a característica específica da finalidade da ação educacional e porque ela não pode ser simplesmente reduzida a um evento natural ou ao modo como se estabelece a associação de abelhas. Na coluna de hoje tratarei da analogia da educação com o evento físico, reservando sua analogia com a associação de abelhas para a próxima.

Quanto ao evento físico, muitos poderiam ser tomados como referência, pois a própria natureza oferece uma abundância de acontecimentos que ocorrem sem a intervenção direta da ação humana. Neste sentido, por evento natural pode ser entendido tudo aquilo que acontece na natureza sem que o ser humana precise interferir. É o que acontece independentemente de sua vontade. O calor do sol, o efeito da chuva e a força do vento são coisas que acontecem regularmente, com mais intensidade e frequência em algumas regiões do planeta, comparativamente a outras. Há, na média anual, por exemplo, mais sol nos países próximos à linha do equador do que naqueles que estão distantes.

Dewey toma com evento natural, no capítulo VIII de Democracia e educação, o vento que sopra na areia do deserto, mudando a posição dos grãos que a constituem. Ao soprar continuamente e com força, o vento provoca o deslocamento da areia, fazendo um novo monte em outro lugar. Neste sentido, o referido evento provoca um resultado, mas não propriamente um fim, pois há somente a redistribuição espacial, sem que ocorra a transformação qualitativa de seus componentes. Os grãos de areia permanecem praticamente os mesmos, mudando apenas de lugar, pelo efeito do vento. A mudança ocorre tão somente na paisagem, sem que os objetos que a constituem se transformem significativamente.

É possível perceber, com isso, que falta ao evento natural algo que é próprio à ação educativa, a saber, a transformação qualitativa dos componentes envolvidos. Transformação qualitativa significa mudança tanto na paisagem como no conteúdo interno, ou seja, nas aparências e, principalmente, nos aspectos espirituais. Devido à ação do processo formativo, o sujeito educacional transforma-se em seu modo de vestir, de usar o cabelo e de se alimentar.

Mas, também, e isso é de fato o ponto mais significativo, o sujeito educacional transforma qualitativamente seu modo espiritual de vida. Inclui hábitos em seu cotidiano antes inexistentes, por efeito de uma boa aula ou de uma nova amizade. Porque o professor falou de maneira clara e suave sobre a importância da leitura, referindo-se ao romance de determinado autor, o aluno volta apressadamente para casa e se põe a lê-lo imediatamente. Porque um novo amigo relatou de maneira persuasiva sobre a importância de dedicar-se continuamente a escrita, o jovem adquire aos poucos o hábito de escrever algo todos os dias.

Contudo, embora muito diferente, mesmo assim a educação também pode ser concebida nos termos de um evento natural. Neste caso, os sujeitos educacionais podem simplesmente mudar de lugar, como os grãos de areia, sem sofrerem qualquer transformação significativa. Podem absorver o conteúdo transmitido sem que o mesmo faça diferença qualitativa em suas vidas. A escola pode ser tratada como um grande banco de areia, no qual os grãos mudam de lugar sem sofrerem transformação alguma. O professor pode falar do conteúdo de ensino aos seus alunos como se simplesmente estivesse tratando com grãos de areia. Enfim, o diretor pode tratar de professores e alunos como se fossem apenas grãos de areia, ou seja, meros instrumentos para seus próprios interesses.

Isso acontece quando os sujeitos educacionais, professor e aluno, tratam uns aos outros como meros grãos de areia, ou seja, como simples objetos. Mudam de lugar sem se afetarem reciprocamente. A ausência de afetação recíproca é o que caracteriza a relação entre objetos, pois, no fundo, eles, os objetos, são incapazes de reciprocidade. Neste sentido, são sobrepostos uns aos outros por força externa, permanecendo inclusive indiferentes ao fato de um estar pesando sobre o outro.

Portanto, o aspecto cruel da ação educativa, quando concebida nos termos de um evento natural, é a completa indiferença que provoca nos envolvidos. Tornar-se indiferente a si mesmo e, também, ao que acontece ao seu redor significa a objectualização do ser humano, ou seja, a morte de sua condição humana. A indiferença nada mais é do que a ausência de reciprocidade. Ora, sem reciprocidade, não há ação educativa, pelo menos naquilo que lhe específico, uma ação inteiramente afetada, uma ação cheia de sentido.

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