Raízes do conservadorismo brasileiro

Compartilhe

A historiografia brasileira já se debruçou sobre vários fatos marcantes  do século XIX no país: A vinda da família Real, a Independência  e a Proclamação da República. Agora, está sendo lançada uma obra de extraordinária qualidade, sobre um tema muito pouco abordado em nossa literatura, a Abolição da Escravatura.

Após cinco anos de pesquisas, Juremir Machado da Silva, historiador, escritor, tradutor, jornalista e professor universitário, oferece ao público um novo livro, “Raízes do Conservadorismo Brasileiro: A Abolição na Imprensa e no Imaginário Social”.

O foco do trabalho é como a imprensa, os políticos e o imaginário social da época receberam a Lei Áurea. Juremir identifica os fundamentos conservadores que permearam aquele século, no contexto da assinatura da lei de 13 de maio de 1888 e, sobre os quais, foi criada a República em 1889.

O historiador apresenta os personagens da política da época, com suas posturas, suas questões, seus arroubos e suas biografias. Grandes figuras são retiradas do pedestal e desconstruídas na obra de Juremir. Um exemplo: José de Alencar, autor de Iracema. O livro mostra que ele foi um escravocrata vital, que votou contra a Lei do Ventre Livre. Alencar foi racista, escravista ferrenho e teórico da infâmia. O que dirão os comprometidos com a Escola Sem Partido?

Os grandes defensores da abolição foram Rui Barbosa, José do Patrocínio, Castro Alves e  Joaquim Nabuco,  entre outros, que desembainharam  suas penas  na defesa dos direitos  dos negros.

Um dos capítulos mais chocantes da obra de Juremir Machado é o que aborda “a lenda da criação do negro”. Ele revela um texto publicado em 1887 pelo jornal A Província do Espírito Santo. Trata-se de uma paródia – como o Diabo criou o preto para ser o pior da sociedade –, mostrando  como o racismo  foi uma construção  consciente, articulada, hedionda  e disseminada pela “mídia” da época para tentar naturalizar a mais  infame  das  instituição: a escravidão.

Os jornais da época, de uma forma geral, defendiam  de forma ardorosa o respeito às  instituições, isto é,  à propriedade  de seres humanos

Raízes do Conservadorismo Brasileiro deixa claro, igualmente, que a Justiça cumpria o papel de verdadeira guardiã da legalidade da  escravidão. Já os militares eram obrigados a cumprir o triste papel de capitães-do-mato.

A abolição começou a se tornar inevitável quando surgiram jornais engajados na luta contra a escravidão. No parlamento foi formada uma bancada abolicionista.  Os próprios negros passaram a fugir em massa e a tomar praças, ruas e campos em combates pela liberdade.  O Exército se recusou a continuar cumprindo ordens judiciais de captura de escravos em fuga.  Juízes, igualmente, se rebelaram.

Enfim, em seu grande trabalho Juremir Machado revela que a abolição foi, na verdade, uma conquista dos negros, não uma concessão dos brancos. Mostra que os imaginários não surgem por acaso. Demonstra, igualmente, que o Brasil de hoje, ainda tem muito do Brasil do século XIX, ou por outra, insiste em voltar àqueles tempos obscuros.

Para lançar este grande trabalho e fazer uma palestra, Juremir Machado da Silva estará aqui em Passo Fundo, na próxima quinta-feira, dia 3. O evento será no Auditório da FAMED, Teixeira Soares, 817 – em frente ao HSPV, às 19 horas. É uma promoção do pré-vestibular Medischool, Rádio Planalto e da Secretaria de Cultura de Passo Fundo. 

Leia Também História sem fim Ausentes fisicamente, mas presentes na memória! STJ mantém decisão que afasta IR em uso de software por empresa Esperando demônios