Associação de abelhas e ação educativa

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Além de comparar a ação educativa com o evento natural, mostrando o quanto aquele se diferencia da própria ação educativa, Dewey também a compara com a associação de abelhas. Para tanto, investiga o modo como se põe a finalidade e o resultado da associação de abelhas. A comparação da sociedade humana com a sociedade de abelhas é frequente na literatura dos estudos culturais, principalmente, no âmbito da antropologia educacional. Há uma propensão humana à comparação entre seres humanos, mas também com outros animais. Compara-se com o intuito de ser reconhecido ou para sentir-se superior aos demais.

Os resultados da ação das abelhas, quando comparados com os eventos naturais, podem ser considerados, em certo sentido, como fins porque são realizações de outro evento que os tem precedido. Ou seja, o ato de recolher o pólen, fabricar a cera e os próprios favos caracteriza cada passo da fabricação que prepara o caminho para o passo posterior. Os ovos postos pela rainha dão origem aos filhotes, que nascem e sobrevivem porque lhes é providenciado certo ambiente, com temperatura e alimentação adequadas.

Qual é a diferença básica da finalidade da associação de abelhas em relação ao evento natural? A diferença repousa, segundo Dewey, em que na associação de abelhas há significação elementar do lugar e da ordem temporal de cada ato. Ou seja, a vida associada das abelhas só é possível porque há a obediência instintiva a cada etapa do processo de associação. Os filhotes não nascem se os ovos não tiverem temperatura adequada e se não forem alimentados pelo mel produzido pelas abelhas, que por sua vez também alimenta a rainha para que possa pôr os ovos.

Portanto, no caso da associação de abelhas, há uma espécie de ação qualitativa mínima que inexiste absolutamente no evento natural. Tal associação garante minimamente que o sucesso do ato anterior conduza ao seguinte, ocorrendo o mesmo de tal forma que não só mantenha o bom resultado do anterior, como também possibilite a realização do próximo ato. A associação depende então de uma cadeia de atos intercalados, cujo sucesso de um assegura a boa realização do outro. Ora, é essa intercalação bem sucedida de atos que garante o resultado minimamente qualitativo da associação de abelhas.

Em síntese, na comparação entre o evento natural e a associação de animais, a diferença crucial é que as abelhas apresentam minimamente um nível de movimento próprio, embora se deixam orientar instintivamente pelo comando da rainha, enquanto os grãos de areia dependem exclusivamente da força externa, no caso, da força do vento. O movimento próprio fica indicado pela condição própria de voar das abelhas, que por um ato reflexo movem as asas, deslocando-se de um lugar para o outro. No caso do evento natural, sem a força do vento, os grãos jamais se moveriam por si mesmos.

Se a educação pode ser reduzida equivocadamente, como vimos acima, ao evento natural, também pode ser pensada exclusivamente nos termos da associação de abelhas. Sua marca característica seria então o encadeamento instintivo entre os diferentes elementos que a constituem, tornando seu processo meramente mecânico.  Além disso, o peso maior de seu comando viria totalmente de fora. A sociedade, o mercado e o Estado determinariam de forma absoluta a comunidade escolar, a qual, internamente, seria determinada pela voz hierárquica do diretor e professor, sendo o aluno o elo mais fraco da cadeia.

Poderíamos imaginar, deste modo, facilmente, como a sociedade de abelhas aconteceria na relação educativa entre professor e aluno: o professor ensinaria sem saber porque está ensinando e o aluno aprenderia sem ter claro o próprio objetivo de sua aprendizagem. Além disso, em analogia à colmeia, como as próprias abelhas que seguem “naturalmente” a voz de comando de sua rainha, o aluno seguiria servilmente a ordenação do professor, o qual, por sua vez, seguiria a voz de comando do diretor, sem ter a possibilidade de lhe dizer não.

Ora, pensada nos termos de uma associação de abelhas, a ação educativa perderia as características que lhe são intrínsecas. Os atos que lhe constituem ocorreriam instintivamente, sendo uma mera agregação, acontecendo um depois do outro, sucessivamente, mas de maneira totalmente linear e repetitiva. Faltar-lhes-ia algo que é fundamental à ação educativa, a saber, a liberdade de dizer não e a possibilidade criativa de colher o pólen e produzir os favos, sem a determinação absoluta da rainha. Por isso, a abelha continua repetitivamente, de geração em geração, reproduzindo a espécie, sem ter a possibilidade de romper com a cadeia instintiva que vem inscrita em seu código genético.

Em síntese, acompanhando o pensamento de Dewey, podemos concluir, pelos menos até aqui, que a finalidade da ação educativa não pode ser equiparada ao evento natural e nem igualmente à associação de abelhas. Neste último caso, mesmo que tal associação represente uma evolução significativa em relação ao evento natural, mantém certo parentesco estreito com ele, porque ainda se deixa-orientar pela determinação fixa que vem de fora.

Ou seja, como vimos, as abelhas perseguem cegamente a voz de comando de sua rainha, sem jamais lhes passar pela “cabeça” a possibilidade de dizer não. As pequenas mudanças que ocorrem em seus atos, além de serem extremamente lentas ao longo da grande cadeia evolutiva, não significam absolutamente nada, no sentido de indicarem qualquer possibilidade de rebelião frente à voz de absoluto comando da rainha.

Ora, a ação educativa dispõe de outro tipo de finalidade que está ausente tanto no evento natural como na associação de abelhas. Movida pela liberdade humana, ela dispõe da possibilidade de dizer não, rompendo em parte não só com a cadeia causal natural como também com a fixidez instintiva. É neste sentido e somente com base nele, ou seja, com base no fato humano da liberdade, que se pode dizer que a ação educativa faz uma grande diferença no mundo, pois, além de alterar a ordem dos fenômenos, também pode mudar significativamente, para melhor, a relação entre os próprios seres vivos.

A liberdade, associada à inteligência, dá origem a capacidade de prever o que poderá acontecer. Isso possibilita à ação humana a própria capacidade de se antecipar tanto às catástrofes naturais como às sociais. Embora sempre limitada, a capacidade de antecipação torna os seres humanos mais razoáveis entre si e na sua relação com o ambiente. Antecipar-se diante de uma grande tempestade pode evitar muitas mortes e, inclusive, danos materiais de maior monta. Do mesmo modo que se prevenir de maneira democraticamente organizada contra a instauração de uma ditadura sanguinária e violenta evita a infelicidade humana.

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