Os 50 anos do tropicalismo

Postado por: José Ernani Almeida

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O golpe militar de 1964 provocaria, além de uma ditadura que governou o país por  21 anos,  uma grande  renovação  dentro dos meios culturais  brasileiros. Músicos, poetas, dramaturgos, estudantes e intelectuais formaram a linha de frente  no combate à  ditadura. Novos talentos surgiram e posicionaram-se politicamente  contra  os militares. A renovação foi tanto temática  como estética.

De todas as manifestações culturais, a que atingiu  uma importância maior  foi, sem sombra de dúvida, a música. Assim, em 1967, há 50 anos, o sucesso obtido  por  Caetano Veloso no  III  Festival de  Música  Popular  da  TV Record  com a música  Alegria,Alegria, que conquistou o quarto lugar, iniciou  uma nova revolução: a  do  Tropicalismo. A  crítica  tradicional, no entanto,  chocada com o fato  de  Caetano  apresentar sua  composição  com acompanhamento de  guitarras  elétricas, o  acusou  de  violar  a integridade  da música brasileira.

Também  não  viu com bons  olhos  aquela  letra  feita  de retalhos de jornal  ( com uma clara  influência  concretista), que  dizia:  “  ‘O Sol’ se  reparte em crimes,/ Espaçonaves, guerrilhas,/ Em Cardinales  bonitas./ Eu  vou./ Em caras de presidentes,/ Em grandes  beijos de amor,/em  dentes, pernas, bandeiras,/Bombas e  Brigitte  Bardot”.

Além de  projetá-lo nacionalmente, a composição  aproximou Caetano das  vanguardas  concretistas – atraindo-lhe   as benções  de Augusto de  Campos  e Gilberto Mendes, entre outros  e do universo do rock, a partir do momento em que ele chamou  os  Beat  Boys  para  acompanhá-lo  na apresentação e gravação  da música. Composta  num estilo cinematográfico-descritivo, “Alegria,Alegria” focalizava a caminhada de um transeunte pelas  ruas  de uma grande cidade. 

Ao mesmo tempo, Gilberto Gil conquistava, com uma história de amor e crime  Domingo no Parque, o segundo lugar no  III Festival da  Record. Inovadora  em vários  aspectos, a composição procurava fundir musicalmente o tradicional/nordestino  com o pop/internacional, enquanto, poeticamente, utilizava uma forma cinematográfica de narração, tal como a canção de  Caetano. A letra de Domingo no Parque  descreve o drama  passional de três personagens: o feirante  José, o operário João e  a mulher Juliana, objeto de disputa entre os dois.

A música de Gil foi acompanhada por um conjunto jovem e extravagante (Os Mutantes), sobre um arranjo de vanguarda  do maestro Rogério Duprat, que associava os sons da orquestra  e das guitarras  elétricas,  que mais uma vez deixou os críticos ortodoxos de cabelo em pé.

Contra a opinião do conservadores, no entanto, levantaram-se o artista plástico Hélio Oiticica, os compositores  Gilberto Gil e Caetano Veloso, o cineasta Gláuber Rocha e o  teatrólogo José  Carlos Martinez  Corrêa, gritando novas palavras de ordem e conclamando  para  “a guerrilha cultural”: “Abaixo o preconceito”, “ Por uma nova estética”, “Por uma nova moral”, “Abaixo a cultura de elite”  e  “A imaginação no poder”. O ator Renato Borghi, definindo a maré tropicalista, afirmava que a arte deveria “assumir um aspecto devorador, faminto! É preciso mastigar, triturar o mundo, devorar tudo, tudo, e depois vomitar farta e abundantemente. A arte lança os excrementos na cara das ordens vigentes e encontra  no vômito o cerne de sua força criadora”.

Mas o Tropicalismo não se restringiu apenas à música. Em setembro de 1967, o teatrólogo José Celso  Oswald  Martinez  Corrêa, estreava  a peça O Rei da  Vela, escrita  por Oswald de Andrade, no  Teatro Oficina.  A peça causou escândalo e trouxe enorme  sucesso  para seu diretor, que defendia  o  “teatro anárquico, cruel, grosso como  a grossura  da apatia em que vivemos.”

No cinema, também no ano de 1967, Glauber Rocha conquistou dois prêmios no Festival Internacional de  Cannes, com o filme Terra em Transe. Segundo o próprio Glauber, o cinema que ele fazia entra contra “a ditadura estética e comercial do cinema americano, contra a mentalidade conservadora dos críticos e a favor do público, não paternalizando, ou seja, pensando que uma mensagem mastigada vai mudar a consciência e acabar com a alienação”.

 Dessa forma, o sentido de liberdade defendido pelo Tropicalismo atingiu todas as artes e o próprio modo de vida da sociedade, principalmente o setor jovem.  Em  julho de  1968,  foi lançado  o  álbum  Tropicália  ou Panis et  Circensis, que  reuniu Gal Costa, Tom Zé, os Mutantes, Rogério Duprat, Gilberto Gil e  Caetano Veloso, que representou  a  consolidação definitiva do movimento tropicalista.

Bons tempos aqueles, em que a música brasileira era pautada pela qualidade, ao contrário da mediocridade de hoje. Estamos precisando urgentemente de novas  revoluções,   em  todas   as  áreas !!!


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