Ação educativa como agir com sentido

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Se a ação educativa não pode ser reduzida ao evento natural e nem mesmo ser compreendida nos termos de uma associação de abelhas, o que a caracteriza? Esta questão conduz a uma outra, já anunciada em colunas anteriores: em que consiste dizer que a finalidade reside na própria ação do sujeito educacional? O tratamento destas questões conduz à investigação da especificidade da ação educacional.

Dewey baseia inicialmente a problematização da finalidade da ação educativa na definição que oferece à noção de fim. “Um fim implica – assim afirma ele – na atividade ordenada, na qual a ordem consiste na terminação progressiva de um processo”. Esta definição contém dois aspectos importantes: atividade ordenada e conclusão progressiva do processo. Eles, estes dois aspectos, pressupõem a capacidade de antecipar as consequências da própria atividade, a qual exige previsão imaginativa. Ambos estão ausentes tanto do evento natural como da associação de abelhas.

Estes dois aspectos já dão uma ideia mínima do próprio conteúdo da ação educacional, na medida em que indicam o que ela não pode ser: uma ação meramente espontânea, que segue simplesmente a causalidade natural; também não pode ser meramente instintiva, deixando-se determinar exclusivamente pela rigidez do instinto. De outra parte, não é estanque, no sentido de que finda de uma hora para outra e de uma vez por todas. Não é como a chuva que cai e desaparece rapidamente. Nem como a abelha que colhe o pólen sem saber a finalidade de sua colheita. Seria um absurdo dizer que a chuva e as abelhas são capazes de dar direção à agua e o mel que produzem e prever os resultados que podem causar.

De outra parte, a ação educativa, pensada de acordo com a definição do fim dada acima, torna-se algo planejado, capaz de perceber os aspectos que a constituem e, sobretudo, de prever os resultados a serem alcançados. Ora, capacidade de planejamento e previsão é um componente indispensável da ação humana que é inerente à ação educacional, diferenciando-a tanto do evento natural como do evento animal, representado pela atividade da colmeia.

Capacidade de prever os resultados torna-se o aspecto distintivo da ação educativa. Considerando a importância da previsão, Dewey atribui-lhe três modos diferentes de funcionamento. A previsão supõe, em primeiro lugar, “uma observação cuidadosa das condições dadas para ver quais são os meios disponíveis para alcançar o fim e para descobrir os obstáculos que estão no caminho”. Nesta primeira forma de funcionamento da previsão se destacam a observação cuidadosa e o conhecimento dos meios mais adequados para os fins desejados.

Isso significa dizer, em outras palavras, que a ação humana se realiza mediante determinadas condições, cujo conhecimento é indispensável para que a própria ação possa ocorrer de maneira satisfatória. O que determina tal conhecimento é em boa parte a capacidade de observação cuidadosa. Dela brota também a identificação dos meios que permitem alcançar o fim almejado, afastando os obstáculos que se põem no caminho.

O segundo modo de funcionamento da previsão refere-se à ordem ou sucessão mais adequada dos meios. Se o fim é o aperfeiçoamentos das capacidades humanas, sua realização depende da escolha dos melhores meios. Contudo, a prioridade sobre determinadas capacidades interfere na escolha de certos meios e, também, no afastamento dos obstáculos que se colocam à realização do fim almejado. Se o fim é o desenvolvimento da capacidade musical, por exemplo, a escolha do piano é indispensável. Além de uma boa professora musical, também é preciso ter o ambiente físico apropriado para que o aluno possa exercitar seu ouvido. Neste caso, o primeiro obstáculo a ser afastado é o barulho existente.

Por fim, o terceiro modo de funcionamento da previsão diz respeito à possibilidade de eleição de alternativas. Tal eleição já pressupõe a existência no mínimo de dois planos de ação distintos e, ao mesmo tempo, a capacidade de identificar minimamente as possíveis consequências que resultarão da execução de um ou outro plano de ação. Se quero que minha filha aprenda a tocar piano - para ficar apenas no exemplo dado acima -, preciso escolher entre as duas candidatas à professora. Tenho, assim, duas alternativas e minha escolha será feita obviamente de acordo com o perfil que estabeleço, mesmo que mais tarde a própria escolha possa mostra-se inapropriada.

Observação cuidadosa, ordem ou sucessão mais adequada no curso dos meios e escolha entre alternativas possíveis constituem, portanto, o modo de funcionamento da previsão. Dewey insiste que os três modos estão vinculados entre si, sendo que a execução de um depende do outro. Deste modo, o estudo cuidadoso das condições presentes interfere diretamente nos resultados, os quais, por sua vez, proporcionam o motivo para as próprias observações. Se quero que minha filha aprenda tocar bem piano, preciso de uma boa professora, cuja melhor escolha depende em parte da observação cuidadosa que faço das candidatas disponíveis.

Mas, aonde Dewey quer chegar com a reflexão sobre a finalidade da ação humana em geral e com os fins educacionais em especial? Do vínculo que estabelece entre os fins educacionais e a capacidade humana de previsão, constituída pelos três modos de funcionamento acima analisados, ele extrai a importante conclusão de que atuar com base em um fim equivale a agir de maneira inteligente. Dewey arremata a conclusão de seu pensamento do seguinte modo: “Prever o término de um ato é ter uma base sobre a qual podemos observar, selecionar e ordenar os objetos e nossas próprias capacidades”.

Ou seja, a finalidade vinculada à previsão possibilita observação, seleção e ordenamento dos objetos e das próprias capacidades humanas. Quando se desenvolvem tais capacidades, se pode dizer então que o ser humano possui um espírito (mind). Ora possuir um espírito significa ter precisamente “uma atividade intencional com propósito, controlada pela percepção de fatos e de suas relações recíprocas”.

Ter espírito é ser inteligente, ou seja, ter a capacidade de se “deter, olhar e escutar” ao realizar o plano de uma atividade”. Deste modo, concentração, percepção e escuta são três componentes indispensáveis de uma ação educativa que a diferenciam tanto da ocorrência do evento natural como da fabricação do mel feita pela colmeia. Quando estes três componentes estão presentes na ação educativa é possível dizer então que ela acontece orientada por um fim. Ter um fim é, em última instância, como atesta Dewey, agir com sentido e não como uma máquina automática.

Para concluir, poder agir com sentido é a grande especificidade da ação educativa. É o sentido, então, que diferencia a ação educativa de um evento natural como a chuva que molha o chão e da ação das abelhas que de maneira associada produzem o mel. Por isso, o sujeito educacional virtuoso não se parece nem de perto com o chão molhado ou o mel cristalino que se encontra bem distribuído nos favos perfeitamente produzidos pelo trabalho cooperativo das abelhas. 

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