Coisas da vida

Postado por: Júlio César de Medeiro

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João e Maria (nomes fictícios), um feliz casal de aposentados, inseparáveis a quase 50 anos, procuravam curtir as alegrias da terceira idade.

Acordavam bem cedo, todos os dias, para tomar chimarrão, varrer o pátio, a calçada e, as vezes, a calçada dos vizinhos também. Cuidavam da horta, iam ao mercadinho, sempre juntos. Depois do almoço, a sagrada sesta. Quando o sol já não estava tão forte, saíam para uma caminhada, para manter o colesterol, os triglicerídeos e seus amiguinhos sob controle, diziam. De quando em vez um bailinho ou um churrasco dançante, afinal, ninguém é de ferro, dizia João.

Mas o que mais gostavam de fazer era viajar. Não viagens comuns, planejadas e anunciadas, com destino e hora marcada. Resolviam de um dia para o outro. "Vamos para a praia!" E iam. "E daí que é inverno?"

Para todas as viagens, há mais de 30 anos, o casal contava com uma companheira fiel. "Morena", uma Kombi safari 1976, daquelas com cama, fogão, mesinha, pia e um toldo para fazer varanda. Ia com eles para todos os lugares. Ou eles iam com ela, já não sabiam mais. Era a filha que nunca tiveram, dizia Maria.

Argentina, nordeste, pantanal, carnaval no Rio. Também para o Uruguai, Paraguai e até uma passadinha rápida na Bolívia. Chapada dos Guimarães, Ouro Preto, Vila Velha, Salvador... Em São Paulo, de noite, em plena linha amarela, que medo! Quanta estrada, quantas aventuras e quantas amizades com a filha-kombi "Morena". Nem sabiam mais, haviam perdido as contas.

Mas nem tudo era rosa. Os anos e os quilômetros não haviam passado em branco. João com uma barriguinha de chopp, desgaste em um joelho, colesterol alto. Maria acima do peso, pressão alta, cansaço. Morena com grandes pontos de ferrugem, instalação elétrica com defeito, uma fumacinha saindo pelo escapamento.

Um dia, do nada, logo após a janta, Maria anuncia: "João, quero ir ver meus pais, lá na fronteira, no cemitério. Sonho com eles já fazem três noites... Tô com um nó no estômago, uma dor funda no peito... Acho que é saudades". Nem bem terminou a fala e João estava planejado: "Saímos de madrugada, abastecemos na estrada, tomamos café na kombi e almoçamos lá em São Luiz Gonzaga. Mais tardar quatro da tarde estamos lá. Depois posamos na kombi, naquele posto grande e, de manhã, vamos para Rivera. Quero ver umas coisinhas".

João então foi carregar as tralhas e revisar a kombi. Cansada, Maria foi deitar-se. Como João demorava demais e o cansaço era grande, Maria adormeceu.

João se demorava, pois estava com um grande problema. Morena não pegava e um cheiro de queimado havia surgido. Procurou muito pelo defeito. Bateria, cabos, fusíveis, lâmpadas, tomadas. Nada parecia errado mas a kombi teimava em não dar partida. A cada tentativa, aumentava o cheiro de queimado. Melhor não insistir, pensou. "De manhã ligo para o Leonir, o mecânico, para ele vir olhar a Morena. Não há de ser nada."

Quando finalmente deitou-se, dona Maria ao seu lado nem se mexeu. Dormia pesado, em profundo silêncio.

De manhã, escuro ainda, João muito assustado chama pela esposa: "Mulher, acorda! Maria? Maria???"

Continua na próxima semana.

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