A metáfora do agricultor

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Dewey dedica a parte final do capítulo VIII de Democracia e educação para trazer de maneira mais concreta à educação a reflexão acerca da finalidade da ação ou atividade humana. Ressalta, inicialmente, que os fins educacionais assumem, de modo geral, a mesma peculiaridade da ação humana como ocupação dirigida. Isto é, precisam se orientar por um plano que seja capaz de prever as consequências e antecipar alternativas.

Deste modo, previsão e antecipação da ação considerando as circunstâncias existentes são dois aspectos centrais que determinam a finalidade da ação humana, ou seja, que a tornam uma ação com sentido. Finalidade da ação humana com sentido é o aspecto nuclear da própria ação educativa. O sentido da educação não repousa somente na formação do bom profissional, que assume com destreza suas funções no trabalho, mas também na formação mais ampla do ser humano, que possa conviver social e politicamente.

Para elucidar a ação educativa com sentido, Dewey toma a figura do educador, pensando-a em analogia como a ação do agricultor. O emprego desta metáfora no campo da educação não é novo. A própria origem da cultura em sentido mais amplo é derivada da agricultura, referindo-se ao cultivo zeloso das plantas. Educar assemelha-se então ao modo como as plantas são cuidadas: se tratadas adequadamente, com ambiente favorável, crescem naturalmente.

Com solo bem nutrido, insolação, água e temperatura adequadas, afastando-se insetos e outras plantas que os sufoquem, milho, feijão ou hortaliças, por exemplo, se desenvolvem vigorosamente. Quanto é belo observar, na primavera, a natureza explodindo. É motivo de alegria ver o canto apaixonado do sabiá, em época de acasalamento. De outra parte, quanto o jardineiro alegra-se, depois de muito cuidado com adubação e poda na hora certa da roseira, vê-la desabrochar vagarosamente. O desabrochar do botão só foi possível pela interferência de vários fatores, inclusive a ação do próprio jardineiro.

Dewey não trata, contudo, do jardineiro e nem do desabrochar do botão de rosas, mas sim do agricultor. Em que sentido o agricultor serve-lhe metaforicamente para pensar a figura pedagógica do educador? A metáfora sempre exerceu fascínio no domínio da pedagogia, basta lembrar a alegoria da caverna da República de Platão ou a educação da criança como cultivo de uma planta no jardim, longamente problematizada no Emílio, por Rousseau. São expressões simbólicas para expressar sentidos difíceis de serem ditos.

Platão dá sentido próprio à cada uma das figuras da metáfora da caverna. A caverna, como símbolo da escuridão, representa a ausência do saber e os seres humanos acorrentados que lá se encontram simbolizam a esfera da mera opinião (doxa). Acreditam como sendo imagens reais as sombras projetadas na parede, iluminadas artificialmente pela fogueira interposta entre os seres humanos e a própria parede. Pedagogicamente, torna-se relevante notar dois aspectos: primeiro, por mais ilusório que possa ser o que é percebido, o fato mostra que a doxa é capaz de percepção; segundo, há a possibilidade dos que se encontram acorrentados, com o auxílio de outros seres humanos, de refazerem suas percepções iniciais enganosas. O papel do filósofo e a figura do sol representam, como sabemos, a continuidade da metáfora.

Rousseau recorre inicialmente à metáfora do educador como jardineiro para acentuar o aspecto autoritário que está subjacente à postura do adulto em relação à criança: assim como o jardineiro que impõe às flores seu ideal de beleza sem considerar sua forma existente, o educador adulto impõe à criança aquilo que ele quer que ela seja. Apoiando-se em outros conceitos, como perfectibilidade e ambiguidade do amor-próprio, Rousseau busca o caminho intermediário entre o diretivismo autoritário e o espontaneísmo irrestrito. Pretende que a forma brote da interioridade do educando sem dispensar a ação do educador.

Do mesmo modo como o jardineiro precisa buscar o equilíbrio entre seu próprio gosto estético e o que a planta já traz em si mesma como forma, o educador percebe as capacidades do educando, buscando dar-lhes direção certa. O fato é que em ambas as situações está em jogo o entrelaçamento entre juízos éticos e estéticos e o bom resultado depende muito da ação do jardineiro sobre a planta e da postura do educador em relação à criança.      

Esta breve elucidação feita com recurso a Platão e Rousseau não elimina o fato de que o emprego metafórico é matéria de desacordo entre cientistas e intelectuais. Alguns pensam, como não é o caso de Dewey, que a metáfora é vazia de sentido; ela não se sustenta teoricamente, tanto do ponto de vista filosófico e científico, como especificamente filosófico. Recorre a uma linguagem imprecisa, que não encontra respaldo na realidade dos fatos.

Por que Dewey recorre então à metáfora? Porque compreende os limites da linguagem teórica, atestando que ela surge onde a ciência, a filosofia e a própria pedagogia encontram seus limites. A metáfora aparece quando a complexidade do tema vai além do poder explicativo da linguagem teórica; quando a profundidade do assunto possui força maior do que as próprias palavras. Neste sentido, a metáfora assume, em uma de suas funções heurísticas mais evidentes, a condição de dizer o indizível. Por isso, torna-se ferramenta indispensável tanto à ciência e filosofia como à própria pedagogia.

Em muitas circunstâncias, é possível pensar com maior profundidade e clareza sobre a especificidade da educação e o papel do educador recorrendo à metáfora. Quando bem empregada, possui um valor didático inestimável, tornando mais claro o sentido de um conteúdo que dificilmente seria compreendido somente por meio da explicação conceitual. Deste modo, a metáfora funciona como um poderoso meio de exemplificação do conteúdo a ser ensinado, assumindo relevância pedagógica importante.

Dewey pensa igual ao modo acima elucidado, quando trata o papel do educador à luz do cuidado do agricultor com o cultivo das plantas. O agricultor precisa fazer certas coisas e o faz mediante certas condições, enfrentando também certos obstáculos. Precisa preparar adequadamente o solo, selecionar boas sementes, esperar o momento certo para lança-las e, depois, acompanhar atentamente o crescimentos das plantas até a colheita. Além de colhe-las na época certa, precisa ter lugar apropriado para armazenar os grãos e contar com boas estradas para transporta-los. A comercialização não depende somente dele, como qualquer uma das outras etapas da produção.

O agricultor experiente sabe que o processo produtivo tem vários riscos e enfrenta vários obstáculos. Assim como a natureza trabalha a seu favor, suas forças podem destruir a lavoura em pouco tempo. A chuvarada pode levar embora em poucos minutos o solo preparado; a longa estiagem pode impedir a germinação mais adequada dos grãos ou o próprio crescimento da planta; os insetos podem destruir a lavoura; a chuva excessiva bem na hora da colheita pode voltar a pôr em risco o resultado da produção; enfim, parte da colheita pode ser perdida tanto no armazenamento, por falta de lugar apropriado, como no transporte, devido às péssimas condições da estrada.

Vencidas as etapas do plantio, da colheita e do armazenamento, os obstáculos ainda não cessam. O agricultor pode ter depositado o grão no silo de uma empresa particular ou até mesmo de uma cooperativa que abrirá falência em seguida, deixando-o na mão. Também enfrenta o obstáculo do mercado internacional que, movido pela quantidade de grãos existentes no mercado e por outros fatores, determina o preço do produto.

Se o agricultor até aqui tiver tido sorte em todas as etapas, plantado, colhido, armazenado e vendido bem, tem ainda que enfrentar o problema de saldar suas dívidas e fazer o melhor investimento possível do que lhe restou, como lucro. Depois de ter suportando a dureza da natureza, a voracidade do mercado internacional, tem agora o desafio de enfrentar a predação da especulação financeira. Se não abrir o olho, poderá fazer negócio mal feito, pondo a perder tudo aquilo que fora resultado de muito esforço, trabalho prolongado e cuidado atento com as coisas.

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