O educador como agricultor

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Como podemos observar, pela coluna anterior, a profissão do agricultor não é nada fácil. Está sempre sujeito a riscos. Da preparação do solo até a comercialização dos grãos enfrenta muitos obstáculos, dos quais alguns dependem da solução de sua própria ação e outros obstáculos não. O planejamento de sua ação, ancorado em sua destreza para se antecipar aos fatos e escolher as melhores alternativas fortalecem suas capacidades de solução contra as intempéries naturais e econômicas. Mas, em que sentido a profissão do agricultor auxilia para pensar metaforicamente o papel do educador e a profissão de professor?

Se olharmos com atenção as etapas que constituem o trabalho do agricultor, caracterizando-o enquanto tal, é possível observar que muitos fatores independem de sua ação: forças da natureza, estradas apropriadas para o transporte, silos adequados para o armazenamento e humores do mercado internacional. Claro, ele pode interferir para acelerar o reparo das estradas, por exemplo, mas tal reparo depende em última instância da decisão do poder público.

Contudo, há muita coisa que está ao alcance de sua ação, sendo isso precisamente o que interessa a Dewey. A ação bem sucedida do agricultor depende do cumprimento de várias etapas: capacidade de previsão, observação cuidadosa, consideração meticulosa das condições existentes, estabelecimento do plano de ação e escolha certa entre alternativas possíveis. O autor resume o núcleo da ação do agricultor do seguinte modo: “Seu propósito é simplesmente prever as consequências de suas energias relacionadas com as coisas que estão à sua volta, uma previsão empregada para dirigir seus movimentos no dia a dia”. O resultado mais eficiente do emprego de suas energias depende do conhecimento maior das coisas e, ao mesmo tempo, do planejamento adequado de sua ação.

Algo semelhante acontece com o educador, seja pai ou professor. Ser bem sucedido no que faz depende do conhecimento de todas as etapas do processo educativo, respeitando-as em seus pequenos detalhes. Há, como na ação do agricultor, um conjunto de fatores que independem da vontade do educador e que pesam decisivamente no desempenho de sua ação. As forças do ambiente externo, natural ou social, interferem na relação que o professor mantém com seus alunos, dentro da sala de aula. Poderá dar melhor aula, enriquecendo a experiência formativa de seus alunos, se o ambiente lhe for favorável.

A escola pode estar mal construída, em local de difícil acesso, com telhado quebrado e com falta de material. Pode ter o espaço de sala de aula muito pequeno, não conseguindo abrigar confortavelmente o número excessivo de alunos. Além disso, pode contar com pais e diretores que se interessam pouco pelo processo pedagógico em si, entregando literalmente filhos e alunos ao professor. Há, ainda, o problema da gestão pública dos recursos destinados à educação: o governo, além de ter destinado pouca verba, torna-se ineficiente e corrupto para fazer chega-la a tempo na escola. Com todas estas condições desfavoráveis, o professor fica obviamente prejudicado no exercício de sua profissão, contando ainda mais com o fato de não receber remuneração justa pelo seu trabalho.

Mas, como na ação do agricultor, há um conjunto de coisas que dependem do próprio professor. Em primeiro lugar, cabe a ele e a mais ninguém, selecionar de maneira mais adequada possível, o conteúdo a ser tratado. A escolha do conteúdo precisa levar em conta as condições existentes, das quais o perfil dos alunos é decisivo. Ensinar sem conhecer quem são os alunos seria o mesmo que o agricultor lançar a semente em qualquer solo, sem conhece-lo e trata-lo corretamente. Daí a importância sobre a observação cuidadosa das condições culturais dos alunos; saber de onde provém; qual é seu contexto social e familiar; o que sabem ou não sabem, tudo isso é muito importante para a organização do ensino.

Além do bom domínio de conteúdo e do conhecimento dos alunos, a postura do professor é determinante para que o processo pedagógico seja bem sucedido. Do mesmo modo que o agricultor não pode estabelecer um ideal de cultivo ignorando as condições existentes, o professor não pode querer simplesmente impor seus próprios fins como objetivos adequados ao desenvolvimento dos alunos. Respeitar a condição cultural do aluno, tomando como ponto de partida a capacidade de fazer suas próprias experiências é um princípio pedagógico indispensável para que o professor possa ser bem sucedido em sua tarefa de ensinar as novas gerações.

Se o agricultor desenvolve em cada safra as mesmas atividades, mas nunca repetindo-as da mesma maneira, o professor recebe a cada ano alunos diferentes, sem repetir literalmente o mesmo conteúdo e procedimento. Cada safra representa um novo ambiente, assim como cada turma significa, para o professor, um novo desafio, exigindo-lhe novo recomeço. Mesmo experiente e vacinado na lida, sabe que vai correr risco de não se fazer entender diante da nova turma.

Assim como o bom agricultor, que não se deixa orientar somente pela rentabilidade de seu negócio, mas, ao contrário, zela diariamente pelo crescimento das plantas, o professor demonstra todo seu amor à educação, cuidando cotidianamente de seus alunos. Assim com o agricultor que espera boa safra e boa cotação de preço para seus produtos, também o professor espera colher os frutos formativos de seu trabalho, sendo remunerado de maneira justa.

Nem uma e nem outra profissão é um mar de rosas, pois, como vimos, estão rodeadas de obstáculos e dificuldades. O sucesso do professor depende, primeiramente, do mesmo modo que o sucesso do agricultor, de sua capacidade de distinguir entre o que depende e não depende de sua própria ação. Isso ele precisa ter como pano de fundo para poder planejar adequadamente sua ação, prevendo suas possíveis consequências, para escolher da melhor forma entre as alternativas disponíveis. Contudo, o gosto pela lida, baseado no amor zeloso e simples, faz toda a diferença no exercício diário de qualquer profissão.    

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