A violência contra a mulher

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O trágico episódio ocorrido entre nós na última semana, que resultou em uma morte e graves ferimentos em uma mulher, por questões passionais, me obrigou a uma reflexão sobre a situação das mulheres ao longo da história.

O sistema patriarcal, através de construções ideológicas misóginas e machistas, sedimentou a ideia de inferioridade da mulher em relação ao homem. Por muito tempo a mulher ficou restringida a uma imagem limitada e distorcida de si mesma. Ela foi silenciada; suas aptidões  desprezadas, sua capacidade intelectual subestimada; suas ideias, desdenhadas, seus  talentos ignorados e desperdiçados.

Ao longo dos tempos do patriarcado, a mulher deveria corresponder, incondicionalmente, às expectativas masculinas e em troca receber proteção e sustento. Seus desejos e sonhos foram ignorados. Não eram ouvidas, ou melhor, nem sequer se manifestavam, pois eram educadas para o silencio, a resignação e a obediência.

A sociedade brasileira, extremamente conservadora, viu na mulher ideal aquela que deveria ser dócil, obediente, fragilizada para pertencer a um homem. O nosso patriarcado determinou que as mulheres fossem inferiores e, portanto, submissas aos homens e, estes, superiores, dominadores.

A afirmação da mulher foi uma conquista que se deu no longo prazo. “O acesso da mulher ao conhecimento foi o verdadeiro responsável pelo engrandecimento do status quo feminino. Bastou uma fenda na parede do aposento privado para que  as  luzes do conhecimento  elucidassem a vida  feminina e, sob  todas  as luzes, a mulher marchou  reivindicando a tão desejada  liberdade. A mulher  saiu da ignorância  em que vivia e lançou-se no mundo dos conhecimentos e das oportunidades, deslumbrando-se  com as novas  descobertas  e  possibilidades”, como afirma  a historiadora  Patrícia  Rocha.

Mas o machismo, o patriarcalismo persistem.  A violência contra a mulher ainda é gritante. Este ano no Rio Grande do Sul, 40 mulheres foram assassinadas e 60 foram vítimas de estupro.

A cultura da violência contra a mulher ainda é marcante. Ela ainda é vista como mero objeto por boa parte de nossa sociedade. É fácil de encontrar explicações para tal fenômeno. Se uma das principais revistas do país, trouxe como matéria de capa, recentemente, a imagem da primeira dama  Marcela Temer, dizendo que ela é um exemplo de como deve ser uma mulher: “bela, recatada e do lar”.

A violência contra a mulher pode ser atribuída a uma interpretação histórica tendenciosa e preconceituosa que a colocou na condição de mera servidora à sociedade,  ao marido  e aos  filhos.

A violência não é casual. Em sociedades estruturadas, como a nossa, sobre a desigualdade e a discriminação contra as mulheres, as vítimas são escolhidas precisamente por seu gênero.  É a permissividade social da dominação masculina que conduz a práticas cotidianas de violência sistemática contra as mulheres.

Florbela Espanca, poetisa portuguesa, disse certa vez, com muita propriedade: “É pensando nos homens que eu perdoo aos tigres as garras que dilaceram”.

 

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