Coisas da vida – continuação.

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Após o incêndio da kombi Morena, João e Maria demonstravam que o golpe havia sido duro e profundo. Um longo, impiedoso e escuro inverno de emoções assolou o casal devastando suas vidas. Uma depressão profunda os atingiu.

Passavam os dias encerrados em casa, relembrando viagens, lugares, acampamentos e pessoas que conheceram. Histórias e mais histórias vividas a bordo da kombi, guardadas em uma infinidade de fotos, eram contadas e recontadas mil vezes, como que se agarrando ao passado pudessem encontrar algum futuro.

Dois anos haviam se passado desde o incêndio. A sucata da kombi ainda jazia na garagem. O pátio, antes limpo diariamente, estava entregue às folhas e sujeiras trazidas pelos ventos. Saíam de casa somente para o essencial: mercado ou médico. E o psicólogo. Por sugestão de bons amigos que lhes amparavam, haviam iniciando uma terapia.

Foi numa das consultas que surgiu a ideia. Estapafurdia e sem cabimento declararam os dois assim que o psicólogo terminou de falar. Mais tarde, já em casa, até revoltado João ficou. “Onde já se viu uma coisa dessas!”, dizia rangendo os dentes. Mas o tempo passou, os dias passaram e a ideia, que antes era um absurdo, já não parecia tão absurda assim.

Maria dava mostras de que a tal ideia lhe havia agradado mais que a João. Volta e meia ela tocava no assunto, mas ele desconversava. Se ela insistia, ele se calava e a prosa morria por ali.

Até que um dia um caminhão chegou e carregou a sucata da kombi. Sem muitos rodeios nem cerimônias. Rápido, frio e eficiente. Até uma vassoura no chão passaram para recolher os pedaços menores da Morena. Não sobrou nada. Foi um dia de muito silêncio naquela casa. Mas não um silêncio ruim. Era mais uma expectativa que um pesar.

No outro dia, João acordou mais cedo que o costume. Chamou Maria que, surpreendentemente, acordou logo e bem disposta. Café da manhã tomado, arrumaram-se e saíram apressados ao encontro do compromisso mais importante dos últimos tempos.

Uma alegria tímida no sorriso de Maria. Um brilho vivo no olhar de João.

 Continua.

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