Capacidades individuais e pressão social

Postado por: Cláudio Dalbosco

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No capítulo VIII de Democracia e educação Dewey se ocupa, como vimos nas colunas anteriores, com o tema da finalidade da educação. Toda a educação precisa ter fins, pois sem os mesmos ela ocorre no vazio, não chegando a lugar nenhum. Finalidade tem a ver também com objetivos e saber traça-los e excuta-los de maneira correta é um dos grandes desafios da educação. Os objetivos dizem respeito ao sujeito, mas também à sociedade. Há fins que podem interessar primeiramente só ao sujeito, mas sua compreensão e realização dependem de seu entrelaçamento social. Neste sentido, não há fins que sejam meramente individuais e nem só sociais, pois depende do entrelaçamento recíproco entre ambos, sujeito e sociedade.

A educação implica o desenvolvimento das capacidades humanas individuais, as quais ocorrem por meio da pressão social e ambiental mais ampla. Não há sujeito sem meio, pois ele não vive de maneira etérea, como se fosse uma substância invisível pairando no ar. Pode-se dizer que a força da educação reside precisamente em provocar o desenvolvimento das capacidades individuais visando o melhoramento da sociedade. Contudo, as capacidades individuais e os interesses sociais não são um todo harmonioso entre si; a educação é um fenômeno conflitivo em si mesma.  

De qualquer sorte - e esta é a preocupação de Dewey -, ter finalidade e objetivos é indispensável para o processo formativo. De maneira concreta, quando a comunidade escolar elabora coletivamente o plano político pedagógico da escola ou quando o professor traça seu plano de aula, tanto em um como em outro caso a primeira coisa que surge é a pergunta pelos objetivos do plano. Objetivos intrínsecos referem-se ao desenvolvimento das capacidades físicas, afetivas e intelectuais de gestores, professores e alunos, visando seu bem estar. Objetivos extrínsecos, colocam o desenvolvimento intrínseco em comum acordo com os interesse humanos e sociais mais amplos, não só da comunidade escolar, mas também do mundo ambiente que a cerca.

Se o plano deposita peso exclusivo ao poder da autoridade externa, instrumentaliza os sujeitos executores do próprio plano. Se ignora as condições existentes e a complexidade do contexto social e cultural, termina por fragilizar as próprias capacidades dos sujeitos envolvidos, na medida em que as potencializa ficticiamente. Isto quer dizer, então, que a educação não é obra somente do indivíduo e nem só da sociedade, mas sim da relação tensional que se estabelece entre ambos. Desenvolvimento das capacidades humanas individuais em tensão com a pressão dos interesses sócias é o nó górdio da educação e um dos maiores problemas das teorias educacionais.

Portanto, estabelecer finalidade ou elaborar objetivos é algo importante para que o processo formativo seja bem sucedido. O problema é, então, como a finalidade é concebida e, sobretudo, como é buscada no processo educacional. Se é posta de fora e perseguida de maneira retilínea, torna-se autoritária. Se é assumida somente internamente, desconsiderando o ambiente social do qual faz parte, torna-se espontaneísta. Autoritarismo e espontaneísmo são duas faces da mesma moeda que se opõe à democracia como forma de vida e como organização social, ou seja, como ideal que possibilita o desenvolvimento das capacidades humanas em todas as direções.

Tanto o autoritarismo como o espontaneísmo depõe contra a democracia como forma de vida e, portanto, vão na contramão da noção de dignidade humana. Um modelo exemplar de imposição externa aos fins intrínsecos da educação é o que a sociedade como um todo ou como uma instituição isolada impõe à escola, fazendo dela uma mera correia de transmissão dos interesses sociais ou institucionais. A defesa do civismo míope e conservador, a transformação da educação em fins meramente lucrativos e a redução da finalidade escolar aos interesses de partidos políticos são formas de imposição externa da pátria, do mercado e do partido político à educação.

Ao contrário disso, a educação escolar precisa ser o espaço onde se exercita o tempo livre para a formação das capacidades humanas e não sua redução ao aprendizado de competências e habilidades, visando preparar as novas gerações para fins exclusivamente mercadológicos. Neste sentido, a escola é muito mais do que preparação para o trabalho; é preparação para o desenvolvimento integral das capacidades humanas, que vão além de suas habilidades técnico-instrumentais. A formação profissional baseada no domínio da destreza técnica é indispensável para a inserção do sujeito no mundo contemporâneo, mas não é suficiente à formação humana no sentido mais amplo. Tal formação profissional precisa estar ancorada na formação cultural, pois esta possibilita o desenvolvimento de capacidades espirituais mais amplas, como a capacidade de pensar por si mesmo e de julgar por conta própria.

O espontaneísmo é a teoria oposta à teoria que defende a intervenção externa como fator educacional por excelência. Ele dispensa-a em nome do desenvolvimento interno. Concebe as capacidades humanas e seu desenvolvimento como algo que pertence mais à natureza do que à sociedade. Atribui poder exagerado à capacidade individual livre em detrimento da ação externa. Ao subestimar o peso das condições existentes e a força do ambiente, termina por fragilizar o próprio desenvolvimento das capacidades humanas.

Se o autoritarismo retira a força da liberdade individual do educando, na medida em que o faz sucumbir frente ao poder externo, o espontaneísmo atribui peso exagerado à liberdade individual porque, assumindo a tendência oposta ao autoritarismo, ignora a força dos próprios poderes externos. No fundo, qualquer uma destas duas ideias educacionais são parciais, pois não permitem que a educação cumpra com seu objetivo maior de proporcionar o desenvolvimento integral de todas as capacidades humanas em suas mais diferentes direções.

A tensão entre o interno e o externo, entre as forças individuais e as forças sociais é algo constitutivo da educação e ignorá-la é uma passo dado para o próprio fracasso educacional. As capacidades mínimas que o educando traz consigo ao nascer, pois não é uma tábula rasa ao vir ao mundo, são acionadas pelo ambiente e jamais poderiam se desenvolver sozinhas e isoladamente. Contudo, como compreender de maneira equilibrada a tensão entre o individual e o social, permitindo o desenvolvimento integral e contínuo das capacidades humanas, é o grande desafio da educação. Identificar quais são os agentes que interferem e devem interferir no processo de formação humana e no desenvolvimento correspondente das capacidades humanas é um problema educacional de primeira grandeza.

O capítulo XIX de Democracia e educação tem justamente esta temática como pano de fundo de sua reflexão. Dewey toma como representativo da tensão entre o desenvolvimento individual e o desenvolvimento social duas teorias educacionais opostas, denominando uma de desenvolvimento natural e a outra de eficácia social. Como o tratamento que oferece a estas duas teorias pode ser elucidativo à investigação da tesão entre o individual e o social, visando à formação equilibrada do ser humano, precisamos seguir de perto, nas próximas colunas, o que o pedagogo americano teoriza a este respeito.

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