Revolução Farroupilha, entre o mito e a história

Postado por: José Ernani Almeida

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Estamos em plena semana Farroupilha em que autoridades e a mídia se esmeram em tecer loas sobre a República Rio-Grandense e seu lema calcado na liberdade, igualdade e humanismo, devidamente cabresteados pelo MTG.  Há muito mais mito do que história.

Spencer Leitman, historiador texano americano, um dos maiores especialistas em Revolução Farroupilha, autor de Raízes Sócio-Econômicas da Guerra dos Farrapos, assevera que “o que faz a luta farrapa diferente  da Guerra Civil e da  Guerra do Texas pela independência foi que no Rio Grande do Sul os derrotados ganharam o controle da narrativa. Historiadores, romancistas e políticos, começando em torno de 1880, iniciaram um esforço para santificar a Farroupilha  baseados  em conceitos de  identidade”.

Assim, com o passar do tempo, notadamente após o surgimento do Movimento Tradicionalista Gaúcho, em 1947, o mito passou a substituir a história. O mito, sabemos, é político. O mito é uma espécie de cola social. A verdade desilude, separa e não pensa nas suas consequências. A história mostra que a Farroupilha não era inicialmente republicana nem jamais foi abolicionista. Há indícios, entretanto, de que alguns de seus líderes possam ter tido, em algum momento, essas inclinações.

São admiráveis na Revolução Farroupilha os lanceiros negros (traídos na infâmia de Porongos), a infantaria, os que lutaram na linha de frente, a peonada. Sempre é recomendável desconfiar dos chefes, dos heróis fabricados. A grande maioria dos frequentadores dos cafés de chaleira, das rondas crioulas, desconhece o que realmente aconteceu  entre  1835 e  1845.

Seu conhecimento se resume ao que foi reconstruído pela narrativa midiática com base no mito. Dominam de forma primária nomes e fatos pontuais, incompletos e perdidos na narrativa mítica.

Sei que muitos ficarão furiosos ao ler que foi uma guerra de fazendeiros, de proprietários, das elites. Portanto, não foi uma guerra do “povo gaúcho”, como alardeia o MTG.

No auge de suas ofensivas, as tropas farroupilhas jamais passaram de seis mil homens em uma demografia oficial de cerca de 400 mil habitantes. Fica evidente que a expressiva maioria estava em armas a favor do Brasil, ou alheia à guerra civil, além daqueles que fugiam da arregimentação obrigatória.

Domingos José de Almeida, na época, tentou escrever um relato sobre a guerra. Recolheu material, mas um grupo contrário o impediu de continuar em seu trabalho: “não querem que eu escreva esta história”, revelou. Domingos foi silenciado, porque conhecia perfeitamente o passado recente e as práticas de seus pares. Censura farrapa?

A verdade é que as comemorações da revolução se transformaram em um evento de mídia. É uma roda-viva: a mídia alimenta os festejos para estar em sintonia com o público tradicionalista, fazendo a festa do mercado ligado a este segmento. É uma megaoperação de apologia ao gauchismo.

Passamos, já há algum tempo, a ter duas revoluções farroupilhas: uma, estudada nas universidades, através de obras  de escritores e historiadores  como Tau Golin, Mário Maestri, Juremir Machado da Silva, Sandra Pesavento, Cyro Martins, Décio Freitas e tantos outros,  menos  heroica e grandiosa, e a outra, comemorada na mídia, nos CTGs e nos acampamentos,  cada vez  mais marcada pelo mito, que  se sobrepõe à  história.

Enquanto escrevia este texto ouvia a canção “Complexo de  épico II” de  Raul Boeira e Márcia Barbosa, dedicada a mim (o que me enche de orgulho), e a Cyro Martins  (in memorian), que faz parte do CD “Cada qual com seu espanto”:

 “Outros cantem vitórias num cego tumulto/vejo o pago cansado de ter que engolir tanto triunfo/ele pulsa encoberto, distante dos palcos de guerra/saturado de lendas, tá pedindo uma trégua (...)

Epopeia... eu tentei, mas  orgulho me falta/ negras lanças, quem fez da bandeira  essa mortalha?/cada página em branco só deixa mais rota a batalha/ não me falte a memória quando os bardos  se calam (...)

Inda agora, porém, sobrevivem os ritos/ se negamos a história, as velhas crenças  petrificam/todo dia um passado inventado  se faz  redivivo/ quem de nós  hoje ganha com esse  éden perdido ?”

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