O desenvolvimento natural: a contribuição de Jean-Jacques Rousseau

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Dewey considera, no capítulo XIX de Democracia e educação, a noção de desenvolvimento natural como núcleo da teoria educacional que defende o desenvolvimento das capacidades humanas de maneira espontânea, sem a interferência direta da sociedade e do próprio educador. O pensador francês Jean-Jacques Rousseau é tomado por ele como modelo paradigmático de tal teoria. Para quem conhece minimamente o pensamento de Rousseau, não é muito difícil perceber o quanto é heterodoxa a leitura deweyana.

Embora parte do que ele afirma sobre Rousseau corresponde às suas ideias pedagógicas, também muito do que diz constitui-se em uma “violência hermenêutica”, pois atribui conteúdo pedagógico que não corresponde propriamente à teoria educacional rousseauniana. Na coluna de hoje gostaria de reter apenas o que é plausível e aceitável de sua interpretação, reservando a crítica para colunas posteriores. Farei este duplo exercício com a finalidade de reter o que é indispensável à educação considerando à ótica do desenvolvimento das capacidades humanas individuais.

Como grande teórico da educação, Dewey notabiliza-se pela maneira genial que dialoga com outros grandes teóricos, da tradição intelectual passada e de sua própria época. Algo diferente não ocorre ao tratar do pensamento de Rousseau, revelando, com isso, sua capacidade de retenção do que é essencial e vertendo-o criativamente para suas preocupações educacionais, próprias ao início do século XX. Neste caso, as distorções que comete sobre as ideias de Rousseau também são contrabalançadas pela sua capacidade de colocar em evidência aspectos nucleares de seu pensamento pedagógico. Este procedimento de Dewey parece ser a síndrome do grande pensador, que movido pela força de suas próprias ideias, apressa-se em retirar de outros pensadores somente aquilo que lhe interessa.

Rousseau surge aos olhos de Dewey como o grande reformador do século XVIII, que opondo-se ao artificialismo dos métodos educacionais escolásticos, dominantes na Europa daquele século, propõe recorrer à natureza como norma. O apego ao desenvolvimento espontâneo e natural do ser humano, no caso do educando, é feito por Rousseau com o intuito de tirar do educador aquele poder absoluto de condução do processo pedagógico que era atribuído pela pedagogia memorizadora, baseada no método escolástico. Compreende-se também, do ponto de vista político, que o realce do desenvolvimento natural das capacidades humanas tem como objetivo retirar da nobreza sua ideia enganosa de, por se considerar casta social privilegiada, possuir condição superior inquestionável sobre os demais seres humanos.

Deste modo, dizer que todos tem igualmente capacidades, que tais capacidades possuem condições de se desenvolverem naturalmente, é uma forma de resistência contra a ideia de superioridade de uns sobre os outros. Também é resistência contra a ideia de que somente alguns são responsáveis pelo desenvolvimento das capacidades dos outros, como querem e quando querem. Dewey retém aqui, ao atribuir sentido positivo à ideia do desenvolvimento natural das capacidades humanas, o valor democrático e republicano inerente à concepção pedagógica rousseauniana.

Que todos possuem capacidades e condições de desenvolverem mais umas e talvez menos outras é, em todo caso, uma ideia educacional de longo alcance que se contrapõe às tentativas de exclusão social e educacional. A atualidade deste pensamento está na base de políticas públicas de inclusão educacional dos educandos que possuem limitação em alguma de suas capacidades. Ao conceber que capacidades são inerentes à condição humana, independentemente de grupo social, religião, gênero ou raça, Rousseau permite trazer para o campo educacional um pensamento de longo alcance ético e político, reivindicando o direito de tratamento igual para todo o ser humano.

Dewey procura interpretar a teoria educacional de Rousseau, concentrando-se na citação e comentário de uma longa passagem extraída do Emílio, a qual figura certamente entre as mais importantes da obra. Rousseau diz, em síntese, na referida passagem, que recebemos a educação de três fontes distintas, da natureza, dos homens e das coisas. À natureza compete o desenvolvimento espontâneo de nossos órgãos e capacidades; aos seres humanos, a determinação quanto ao uso a ser feito de tal desenvolvimento; enfim, à educação pelas coisas compete a aquisição da experiência pessoal dos objetos que nos cercam.

Para Dewey, a passagem contém três fatores principais do desenvolvimento educativo humano: a) a estrutura inata de nossos órgãos corporais e suas atividades funcionais; b) o uso que fazemos destes órgãos mediante a influência de outras pessoas e; c) por fim, a interação direta dos seres humanos com o ambiente. Deste modo, com sua teoria Rousseau abarcou todo o campo educacional, desde a estrutura psíquica individual até sua interação social com outros seres humanos e com o ambiente mais amplo. Depois dele, não é mais possível falar com sentido de educação sem levar em consideração as capacidades do sujeito, as pressões sociais e o amplo ambiente.

No contexto dos três fatores do desenvolvimento educativo Dewey afirma ainda duas ideias gerais que são constitutivas da própria teoria educacional do Emílio: a) o desenvolvimento adequado das capacidades do sujeito depende da constância e cooperação dos três fatores acima indicados; b) a atividade congénita dos órgãos é a base para conceber sua consonância. Isso significa dizer que a cooperação constante entre as capacidades de nossos órgãos e o uso que fazemos delas, incluindo a interação que proporcionamos entre elas com o ambiente constitui o campo de problemas do processo educativo.

Isso dá uma ideia geral de educação que implica no desenvolvimento entrelaçado de todas as capacidades humanas e de sua interação com o ambiente na qual está inserida. A capacidade da fala, por exemplo, não ocorre sem o desenvolvimento da audição e ambas só conseguem progredir na medida em que forem exercitadas permanentemente, sabendo aproveitar as possibilidades que as condições existentes proporcionam. Ora, compete à educação potencializar as possibilidades existentes no ambiente e coloca-las à disposição do próprio educando que está aprendendo a falar.  

Em síntese, o grande avanço de Rousseau como reformador pedagógico do século XVIII consiste, segundo Dewey, em ter percebido que as estruturas e atividades dos órgãos corporais e intelectuais do ser humano, suas capacidades, oferecem as condições de ensino do uso de tais órgãos. Sendo assim, passa a ser tarefa principal da educação investigar que estruturas são estas e como elas se tornam ativas. A educação também precisa criar os cenários pedagógicos adequados para que os órgãos sejam exercitados de maneira adequada.

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