Os 150 anos de O Capital

Postado por: José Ernani Almeida

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Passados 150 anos da publicação do primeiro livro (1867), de um total de três, O Capital, continua sendo um referencial como obra científica de inegável importância. Criticado, temido, elogiado, queimado, ainda hoje, ele é muito potente, capaz de influenciar ideias e ações.

Ao contrário dos economistas burgueses, que viam no mercado um sistema autorregulado, capaz de alcançar o equilíbrio sem qualquer interferência externa, como a “mão invisível” de Adam Smith e  a “Lei” de  Jean-Baptiste Say, segundo a qual a produção cria a sua própria demanda, e dos socialistas utópicos, que, na sua visão, se contentavam em denunciar a miséria operária sem propor nenhum estudo realmente científico dos processos econômicos que seriam responsáveis por ela, Marx, partiu da análise das contradições lógicas internas do sistema  capitalista.

Esta obra ficaria inacabada: Marx faleceu em 1883 sem ter terminado os dois tomos subsequentes. Eles foram publicados postumamente por seu amigo Friedrich Engels, a partir de anotações que ele deixou.

Quando Marx publicou, em 1867, o primeiro tomo de  O Capital, a  Europa  não discutia mais se a agricultura poderia alimentar uma população crescente ou se o preço da terra aumentaria até chegar ao céu, mas  sobretudo de entender a dinâmica de um capitalismo industrial a pleno vapor.

A miséria do proletariado industrial era, na época, o fato marcante. Os operários, a despeito do crescimento industrial, se amontoavam em cortiços. Isto se devia talvez em função do próprio crescimento, e em razão do massivo êxodo rural fruto do aumento populacional e da produtividade agrícola. Jornadas de trabalho exaustivas e salários baixos, faziam parte da dura realidade do proletariado urbano.

“Foi nesse contexto que se desenvolveram os primeiros movimentos socialistas e comunistas. O questionamento era: De que serve o desenvolvimento industrial, de que servem todas essas inovações tecnológicas, todo esse esforço, todos esses deslocamentos  populacionais, se, ao  cabo de meio século  de crescimento  da indústria, a situação das massas continua tão miserável quanto antes e se tudo que o Estado pode fazer é proibir que crianças  trabalhem nas fábricas?”. É o que  assevera  Thomas  Piketty.  (O Capital no séc. XXI)

As pessoas, às vésperas da “Primavera dos Povos”, em 1848, se perguntavam: o que temos a dizer sobre a evolução, no longo prazo, de um sistema como esse? No Manifesto Comunista, Marx, alertou; “um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo”, ao mesmo tempo em que fez a célebre previsão revolucionária: “O desenvolvimento da indústria moderna, portanto, enfraquece o próprio terreno em que a burguesia assentou a produção e a apropriação de seus produtos. Assim, a burguesia produz, sobretudo, seus próprios coveiros. Sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis”. A profecia não se confirmou.

No final do século XIX, os salários começaram a aumentar e houve a melhoria do poder de compra dos trabalhadores, ainda que a desigualdade extrema tenha persistido e, em certos aspectos, crescido até a Primeira Guerra Mundial. A revolução comunista acabou acontecendo. Eclodiu no país mais atrasado da Europa, a Rússia, onde a revolução industrial mal havia começado.

Como os autores que o antecederam Marx rejeitou as hipóteses de que o progresso tecnológico pudesse ser duradouro e de que a produtividade fosse capaz de crescer de modo contínuo. Para Piketty, faltou-lhe dados estatísticos para refinar suas previsões.

Apesar destas deficiências O Capital teve o mérito de explicar o funcionamento do capitalismo. Como fazer a história sem conhecer o seu motor? O Capital mostrou qual o motor das sociedades onde o capital é dominante.

Ele explica alguns fenômenos chaves da dinâmica das nossas sociedades, como a própria essência da dominação capitalista – a sua reconhecida capacidade de geração de riqueza –, e a irracionalidade que lhe acompanha – isto é, a sua capacidade de destruir tanto a riqueza criada  como  os meios para sua  criação.

A critica contundente de Marx não é dirigida aos capitalistas que, via de regra, têm no bolso a parte mais sensível do corpo, mas  aos  economistas, que se dizem sem ideologia, sem lado, e que não explicam de onde vem o lucro, as crises ou a criminosa concentração de renda. A verdade é que O Capital, passados 150 anos de sua publicação, continua sendo uma obra indispensável.

A concentração de renda na maioria dos países capitalistas, onde a metade mais pobre da população não possui quase nada:  os  50% mais pobres  em patrimônio  detêm sempre menos  10%  da riqueza nacional, e geralmente menos de 5% .Nos EUA, a pesquisa mais recente  organizada pelo  Federal Reserve, revela que o décimo superior possui 72% da riqueza americana, e a metade  inferior  da distribuição, apenas 2% (!!!).

A crise de 2008, os protestos globais, o aumento da jornada de trabalho, a retirada de direitos trabalhistas, fazem recordar as tenebrosas descrições que Marx fazia das fábricas inglesas. Assim, O Capital, volta a ter uma atualidade assustadora. 

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