As inovações pedagógicas de Rousseau

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O reconhecimento que Dewey faz às ideias pedagógicas de Rousseau e que procurei resumir na coluna anterior são ainda mais aprofundados pelo próprio pedagogo americano. Rousseau torna-se o grande reformador do século XVIII porque inventa uma noção inteiramente nova de infância e de educação da criança. Com isso, ele abre espaço para pedagogos como Pestalozzi, Froebel, Piaget e o próprio Dewey. Sem as ideias pedagógicas rousseaunianas, a educação infantil não teria avançado tanto como foi capaz de fazê-lo.

Neste sentido, Dewey aprofunda os “aspectos verdadeiros” que, segundo ele, a ideia educacional rousseauniana contém do desenvolvimento natural das capacidades humanas, sobretudo, quando tal desenvolvimento é dirigido à infância, ou seja, à educação da criança. Contra o diretivismo adulto que imperava na educação das crianças, Rousseau pensa a educação delas de maneira diferente. Neste contexto, o pedagogo americano indica quatro outras grandes ideias que estão vinculadas, de certa forma, com o que já foi exposto na coluna anterior.

Ao focar no desenvolvimento natural como fim da educação – esta é a primeira grande ideia -, Rousseau chama a atenção sobre o papel dos órgãos corporais e a importância de refletir sobre a saúde e o vigor físico, como aspecto constitutivo de uma boa educação. Esta ideia possui dupla significação: primeiro, porque indica que um organismo doente não possui condições de aprendizagem; segundo, decorrente do primeiro, o corpo sadio, com os órgãos físicos saudáveis e devidamente exercitados, é condição para o desenvolvimento das atividades intelectuais. Portanto, Rousseau insere-se na longa tradição que apregoa “corpo saudável, mente sã”.

O efeito pedagógico desta primeira grande ideia é que ela abre os olhos de pais e professores para a importância de tomarem a saúde como finalidade. Eles precisam se preocupar com o fortalecimento do corpo e o refinamento dos sentidos das crianças, antes de se concentrarem exclusivamente à educação intelectual e verbalista. A criança precisa ser tratada como criança e isso só pode ser feito quando a educação considerar inicialmente suas atividades motoras e o amplo exercício de seus sentidos.

Uma vez que a ideia de natureza, embora vaga e metafórica, for tomada neste sentido pedagógico mais preciso, de educação do corpo e dos sentidos, ela expressa eficácia educativa. Ou seja, mostra que a educação não é um sonho ideal que se realiza somente com o desenvolvimento das capacidades espirituais, impulsionada por forças externas e estranhas à própria educação. Ela é algo bem concreto, que está diretamente associada ao modo como os sujeitos educacionais organizam sua vida cotidiana, estabelecendo adequadamente seus costumes e rotinas. Portanto, a primeira grande ideia pedagógica de Rousseau tira a educação do ambiente puramente intelectual que a metodologia escolástica a havia colocado.

A segunda grande ideia pedagógica de Rousseau, vinculada à primeira, diz que o desenvolvimento natural se traduz no respeito pela mobilidade física. Esta ideia está de acordo com a convicção pedagógica de que a criança aprende inicialmente não pelo ato de memorização do conteúdo transmitido verbalmente pelo educador adulto, mas sim pelos movimentos corporais e pelo exercício dos sentidos. O primeiro elo de ligação da criança com o mundo e consigo mesma não é um ato puramente intelectual (não é pela razão), mas sim pelo que toca, vê, escuta e sente. Por isso, segundo Dewey, quando Rousseau afirma que a “intensão da natureza é fortalecer o corpo antes de exercitar o espírito”, ele está afirmando uma grande verdade em matéria de educação. A educação infantil começa pelos sentidos e segue daí para o aperfeiçoamento progressivo das capacidades intelectuais.

A terceira ideia pedagógica de grande alcance consiste em afirmar que a finalidade geral da educação reside em atender as diferenças individuais existentes entre as crianças. Se a segunda ideia diz que o ponto de partida são os sentidos das crianças e seu exercício adequado, a terceira afirma que as crianças não são iguais e homogêneas entre si. Ou seja, nem todas nascem com as mesmas capacidades e nem são desenvolvidas da mesma maneira, em todas as crianças. Esta multiplicidade e variedade das capacidades humanas só é possível pela condição plástica do ser humano.

Isso significa, do ponto de vista pedagógico, que o educador precisa conhecer da melhor forma possível a individualidade de seus educandos e ter o faro aguçado para perceber qual é a maneira mais apropriada para acionar o desenvolvimento de suas capacidades. Contudo, a riqueza da plasticidade humana, que possibilita a própria multiplicidade de suas capacidades, também representa, em certo sentido, a “tragédia” do educador. Além de não possuir poder absoluto sobre o educando, não possui certeza segura sobre os resultados de sua educação, mesmo que suas intensões sejam as melhores possíveis.

Por fim, a quarta grande ideia expõe que o fim de seguir a natureza está relacionado com a observação sobre a origem, o aumento e a diminuição das preferências e dos interesses dos envolvidos no processo educativo. Que relevância pedagógica possui esta ideia? Como as capacidades brotam e florescem irregularmente, não seguindo caminho retilíneo algum, este fato acentua a importância de se começar da melhor maneira possível a educação das crianças. Neste sentido, Rousseau estava consciente, segundo Dewey, que os primeiros alvoreceres das capacidades humanas são especialmente valiosos. Esta foi a razão que o levou a dedicar atenção especial para a educação infantil.

Neste contexto, baseando-se nesta quarta ideia pedagógica de Rousseau, Dewey formula a seguinte tese: “O modo de tratar as tendências da primeira infância fixa, mais do que podemos acreditar, as disposições naturais e condicionam o giro que tomam os poderes que se revelam depois”. Ou seja, a atenção concentrada na educação infantil possui, segunda esta passagem, uma dupla significação: permite observar adequadamente as disposições naturais de cada educando, ao mesmo tempo em que interfere na mudança que tais disposições assumem posteriormente. O fato decisivo é que esta dupla significação repousa em uma questão de natureza eminentemente pedagógica, isto é, refere-se ao “modo de tratar” as capacidades inerentes à primeira infância.

A questão pedagógica que está em jogo aqui refere-se à crítica à pedagogia conservadora da época e a necessidade de pensar a educação de maneira inteiramente nova. Até então, os adultos procuram simplesmente impor seus hábitos e costumes às crianças, desrespeitando sua condição inicial e o modo como suas capacidades físicas e intelectuais se apresentavam. Trata-se agora, e isto foi precisamente o que fez Rousseau, aos olhos de Dewey, de partir das condições da criança, considerando a multiplicidade de suas capacidades e as diferenças e singularidades que elas próprias apresentam entre si. Foi justamente esta guinada que colocou Rousseau na posição de grande reformador da pedagogia do século XVIII.

Estas quatro grandes ideias pedagógicas que constituem o núcleo da teoria educacional visam impulsionar o desenvolvimento das capacidades humanas. Se a educação tem por meta promover o crescimento integral das capacidades corporais e intelectuais da criança (educando), ela só consegue fazê-lo adequadamente na medida em que começar, na educação da criança, pelo fortalecimento do corpo e pelo exercício dos sentidos. Em segundo lugar, o crescimento das capacidades humanas como finalidade da educação só pode ser alcançado na medida em que cada educando for respeitado em sua individualidade, sendo propiciado a ele um ambiente pedagógico e social propício. 

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