É arte? É crime. Isso é o que importa!

Postado por: Dilerman Zanchet

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No final de semana, ao passar e repassar notícias e opiniões, em jornais e revistas virtuais, para poder trazer assuntos atualizados aos amigos leitores (e aos inimigos que, sei, também leem, monitorando o que eu escrevo), deparei-me com um artigo de Luciano Trigo, escrito e publicado no portal G1.

Confesso que li umas três vezes, para estar realmente ciente do que foi publicado pelo blogueiro, que também é jornalista e escritor, especialista em Regulamentação na Ancine.

Luciano define, em seu artigo, com muita propriedade o que é arte, como ela é feita, de que forma é apresentada ao público consumidor e, mais, a quem interessa a discussão: arte ou crime?

Nesta semana, quinta-feira, o colega Clóvis Alves publica em seu artigo, aqui no Portal rdplanalto.com, sua opinião, nada diferente do que é contestado pelas milhões de pessoas que não acreditam em liberdade de ideias, entendimentos e toda esta hipocrisia maldita que assola o país, em uma teimosa e idiota tentativa de confrontar libertinagem com ética, razão, bons costumes e valores morais.

Luciano Trigo diz em seu artigo: “Comecemos assim. Já há várias décadas, arte é o que é designado como arte por um sistema que envolve curadores, instituições, galerias, museus, críticos, jornalistas, agentes do mercado (colecionadores, marchands, leiloeiros) e a própria comunidade artística. É o que se chama arte por designação: se esse “sistema da arte” reconhece algo como obra de arte, então é obra de arte. Pode ser uma fruta podre, um animal amarrado, um brinquedo quebrado, um tubarão embalsamado, uma cama desarrumada. Pode ser também um gesto, uma frase, uma atitude, desde que feitos no espaço adequado, segundo determinado ritual. É arte.

O fim de qualquer hierarquia estética na arte contemporânea é ótimo para o mercado: bom é aquilo que é produzido por determinados artistas eleitos e promovido como arte. Se causar polêmica, melhor ainda. Não estou dizendo que isso é certo ou errado, estou dizendo que é assim que a coisa funciona. Aliás, o sistema se alimenta da indignação que ainda provocam em muita gente determinadas instalações ou performances.

Além de ser um debate obsoleto, questionar o estatuto de obra de arte de qualquer coisa designada como arte pelo sistema só favorece o sistema – que, ao reduzir a arte à dinâmica do espetáculo e do show business, também precisa desesperadamente de atenção e espaço na mídia. Mas esta é outra discussão: para quem tiver interesse, escrevi um livro inteiro sobre o assunto (“A grande feira – Uma reação ao vale-tudo na arte contemporânea”, editora Civilização Brasileira, 2009)”.

O jornalista ainda descreve, em texto que destaca sua opinião, a questão da performance “La Bête”, no MAM-SP, “na qual uma menina aparentando uns seis ou sete anos de idade foi estimulada a tocar no corpo de um adulto nu, deitado no chão de barriga para cima, para deleite de uma plateia de adultos vestidos: o carimbo de “obra de arte” legitima e autoriza qualquer coisa? Tudo é permitido? Ou uma obra de arte pode ser, ao mesmo tempo, artística e criminosa?”

Bem, observo que o local é privado. Dizem os defensores de tal “arte”, que havia um cartaz na porta explicando a “arte” libertinosa e criminosa, e que só entrou no local as pessoas conscientes. Provavelmente conscientes de que veriam uma menina tocar um homem nu. Com o abestalhado aval de sua mãe, também conivente e também promotora de um crime.

Por que crime?

Disse Clóvis Alves, que trabalha diariamente com o tal Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo, que “A legislação brasileira é extremamente protetiva com relação aos direitos das crianças, adolescentes ou vulneráveis, tipificando atos libidinosos de qualquer natureza, que venham a violar ou ameaçar a integridade física, psicológica ou moral de criança ou adolescente. A proteção integral de crianças e adolescentes em seus estágios de desenvolvimento, é uma garantia constitucional (art. 227 da CF/88). O Código Penal Brasileiro, também tipifica os crimes sexuais contra vulneráveis (artigos 217-A, 218, 218-A e 218-B do CP). O grande avanço da proteção à criança e ao adolescente se deu com a Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1.990, que criou o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, o qual trata em vários artigos, da proibição a participação de crianças e adolescentes, em cenas de sexo explícito ou pornográficas (art. 240 do ECA)”.

O assunto, que tomou corpo pelas redes sociais do país inteiro, ganhou ares de luta ferrenha entre a direita e a esquerda brasileira.

Nem diria direita e esquerda. Diria entre os que querem a prevalência da moral, dos conceitos éticos, dos bons costumes, e dos que entendem que arte e liberdade, ou libertinagem, estão a rodo.

O Ministério Público paulista tomou as dores das pessoas de bom senso e mandou fechar a exposição. Tal qual aconteceu em Porto Alegre. Tipificação de crime.

Isso basta.

Em Santo Ângelo, um garoto de nove anos foi proibido pelo Conselho Tutelar, de tocar sua gaita na praça, com um chapéu no chão para que, quem gostasse, desse-lhe alguns trocados. Trabalho escravo. A lei proíbe.

Expor crianças e fazê-las tocar em um corpo nu pode. Tocar gaita para arrecadar alguns “pilas” e comprar outro instrumento, não pode.

Afinal, pergunto: Qual o verdadeiro crime?

Importa discutir se é arte ou não, quando acontece um verdadeiro e flagrado crime?

Arte, nesse sentido, serve para quem?

Não vou questionar, aqui, quem patrocinou tal evento. Não o farei, assim como nada direi sobre Tico Santa Cruz e Felipe Pena. Não perco tempo com tamanha hipocrisia.

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