Crítica à noção de desenvolvimento natural

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe

Na coluna anterior, dediquei-me em reconstruir alguns aspectos da teoria educacional de Rousseau que Dewey considera como aceitáveis. Destacam-se, entre eles, a exposição rousseauniana do campo educacional como constituído por três vértices: pelos órgãos humanos individuais e suas atividades; o uso que o ser humano faz deles e; por fim, sua interação com a sociedade e com o ambiente. Em síntese, ficou firmado que Dewey considera Rousseau o grande reformador educacional do século XVIII porque atribuiu autonomia ao desenvolvimento natural dos órgãos físicos e intelectuais da criança. Hoje gostaria de me concentrar nas críticas que Dewey formula ao pensamento pedagógico de Rousseau.

A primeira grande objeção consiste em afirmar que Rousseau reduziu a educação ao desenvolvimento natural dos órgãos humanos, dispensando a ação do ambiente social, especialmente, do papel do educador em tal desenvolvimento. Deste modo, Rousseau isola o educando do todo social, dispensando a atuação da sociedade e jogando peso decisivo à natureza, concebendo-a como carro chefe do desenvolvimento das atividades físicas e intelectuais do educando.

A segunda objeção repousa na ideia de que Rousseau, em sintonia com a ideia de natureza, teria atribuído papel exagerado ao poder de desenvolvimento espontâneo dos próprios órgãos, isolando tal desenvolvimento dos fins da educação. Contrariamente a tal ideia, Dewey afirma que as atividades originárias acontecem não segundo um exercício caprichoso e espontâneo, mas sim de acordo com os usos a que se destinam. Como o uso é dado pelo próprio ser humano em sua interação social, então de modo algum há a espontaneidade pressuposta por Rousseau. Ao contrário disso, a educação é resultado de planejamento e intervenção humanos.

O que estas duas objeções contém em si e o que indicam em termos de educação? Escrevendo um século e meio depois de Rousseau e contando com os avanços nas pesquisas educacionais, Dewey compreende a educação como fenômeno eminentemente social, sendo resultante, portanto, da tessitura da vida humana em sociedade. Com isso ele tem presente que a educação sofre pressão social permanente de duas maneiras. Por um lado, ela é força poderosa a favor do melhoramento humano, constituindo-se no modo mais apropriado do próprio aperfeiçoamento infantil. Pela educação, o ser humano busca ser ele mesmo, esforçando-se para tornar-se melhor do que é.

Por outro lado, a educação também é o principal mecanismo ideológico de legitimação do poder instituído. Ela é força ideológica voltada para domínio e subjugação de seres humanos por outros seres humanos. No momento em que escrevia Democracia e educação, como autor arguto, Dewey percebeu o quanto a aliança entre a nascente classe industrial (poder econômico) e o Congresso americano (poder político) fazia uso ideológico da educação para impor seus interesses corporativos. Com isso, mostrava como a educação encontrava-se prisioneira das pressões sociais, de cunho marcadamente econômico e político.  

 A terceira objeção de Dewey é que Rousseau subordinou a educação à ideia de natureza, identificando-a também com a noção de Deus. Portanto, ao defender o desenvolvimento natural e espontâneo das atividades dos órgãos físicos e intelectuais, subordinando-o à natureza identificada com a ideia de Deus, Rousseau teria reduzido a própria educação humana a forças externas, que independem da vontade humana.  No fundo, trata-se de um desenvolvimento espontâneo que não é livre porque depende, para sua execução, de forças poderosas estranhas ao querer humano. Aquilo que é aparentemente espontâneo não passa do desenvolvimento plenamente dirigido, cuja finalidade já estaria definida de antemão.

Contra o determinismo natural ou religioso, Dewey compreende que é o meio social a principal força que dirige o desenvolvimento das atividades humanas, físicas e intelectuais. Por meio de suas forças, as instituições sociais colocam objetivos à educação; por meio de sua organização interna, a escola se transforma no principal mecanismo de desenvolvimento das aptidões humanas e; por fim, por meio de seu preparo intelectual e pedagógico, o professor tem enorme poder de ativar as capacidades de seus alunos. Tudo isso pode ser feito de maneira independente em relação às forças externas, naturais ou divinas.

Para o pedagogo americano, portanto, os poderes naturais ou congénitos, ou seja, todas as capacidades que o ser humano traz ao nascer, proporcionam as forças iniciadoras e limitadoras da educação. Mas, e isso ele pensa objetar contra Rousseau, tais poderes não podem oferecer os fins e os objetivos da educação, pois é o meio social, compreendido amplamente, que possui poder de direcionar as atividades dos órgãos humanos. Este é o argumento decisivo de Dewey, que lhe serve duplamente: para firmar sua própria noção de educação e, ao mesmo tempo, para contrapor-se às ideias pedagógicas de Rousseau. O que isso significa mais precisamente?

Em primeiro lugar está implícito aí a ideia importante, do ponto de vista educacional, aparentemente trivial: são as capacidades humanas que todos trazem ao nascer que devem ser o ponto de partida da educação. Sem tais capacidades, que Dewey nomeia imprecisamente de atividades físicas e intelectuais dos órgãos humanos, não haveria formação humana. Em segundo lugar, se tais capacidades são o ponto de partida, não podem ser de forma alguma o ponto de chagada da educação, ou seja, elas não possuem o poder de determinar o fim do processo formativo. É o meio social, no sentido mais amplo, por intermédio de sua tessitura conflituosa de interesses, que interfere na direção da educação.

 Isso significa dizer que nossas capacidades são tão somente capacidades, uma vez que seu cultivo e aperfeiçoamento dependem da educação. Se não forem acionadas de maneira adequada, formativamente, não se desenvolvem ou podem se desenvolver de modo desviado. Contudo, o que é adequado e correto não pode mais ser determinado por forças poderosas, estranhas à própria sociedade. Dewey acredita, neste contexto, que a democracia como força moral, ou seja, como forma cooperativa e solidárias de vida, é a referência mais adequada e correta para indicar a finalidade do desenvolvimentos das capacidades humanas.

Portanto, todas as objeções dirigidas a Rousseau possuem um alvo em comum: por ter entregue o desenvolvimento das capacidades humanas à natureza, o pedagogo suíço-francês lhes retira poder de autonomia, isolando-as das pressões sociais que impulsionam seu crescimento. Paradoxalmente, Rousseau visa mesmo visando a autonomia do educando, com sua ideia de educação joga-o na mais pura heteronomia. Por isso, conceber educação como desenvolvimento natural das capacidades humanas é contrário da democracia como forma de vida, uma vez que esta exige a interação humana e a busca por vida cooperativa no âmbito das pressões sociais conflitivas.

Leia Também 33º Domingo do Tempo Comum. O Enart, de novo! A importância de ter uma recepcionista/secretária preparada em seu consultório. Feito é melhor que perfeito