Sir Paul MacCartney

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Pela segunda vez – a primeira fora em novembro de 2010 –, tive o privilégio, nesta sexta-feira, de ficar diante de um homem que é um verdadeiro mito, Paul MacCartney. Esta lenda viva do rock ‘n’roll teve um papel histórico na consolidação do gênero e sua transformação num business lucrativo.

Paul foi um dos inventores do pop. Por meio século acompanhei sua carreira e curti suas canções que tocaram corações de milhões pelo mundo inteiro. Ao lado de seus parceiros do famoso quarteto, ajudou a moldar a música que você, meu caro leitor, ouve hoje nas diversas plataformas que a maravilha da internet propicia, além do rádio, obviamente.

Quando ele iniciou o show, cantando “It’s been a hard day’s night, and  i’ve been working like a dog...” lembrei-me de meus primeiros tempos  como radialista. Chorei durante “A Hard Day’s Night” todinha. Não era para menos. Ao meu lado garotos e garotas cantavam juntos. O show foi um encontro de gerações. Em muitos casos, lado a lado, pais e filhos. Lá estavam sessentões, como eu, crianças e jovens emocionados ao ouvir canções antológicas – verdadeiros patrimônios culturais da humanidade.

A cada canção uma torrente de emoção desceu sobre o estádio fazendo com que 50 mil fãs se deixassem levar pela leveza e suavidade do ex-beatle, que aos 75 anos, esbanjou vitalidade e empatia. Elegantemente vestido e interagindo com a plateia, falando em português, recheado de sotaque britânico, encantou ainda mais a todos. 

Algumas canções foram escritas há mais de 50 anos, mas continuam exercendo um fascínio inigualável sobre velhos e novos fãs. Quando Paul, ao piano, cantou “Hey Jude, don’t make it bad, take a sad song and make it better...”, foi outro momento de êxtase e forte emoção. As lágrimas voltaram. Ali estava um gigante forjado no talento musical. Um dos gênios da música pop.

A  canção, feita para o filho do parceiro Lennon, Julian, me fez lembrar que ele, a lado de John, George e Ringo, ditou grande parte do  comportamento e da moda dos anos 60. Eles assombravam o mundo com o cabelo comprido e o iê-iê-iê contagiante, levando o rock ‘n’roll a um patamar nunca imaginado pelos pioneiros do estilo.

“Na Inglaterra daquele início da década de 1960, o nome da banda transformou-se em uma espécie de vírus verbal, que era disseminado por adolescentes aos berros e por manchetes chamativas, a que nenhum estrato da sociedade ficou imune. Políticos o usavam para ganhar mais visibilidade em seus discursos, psicanalistas o invocavam para dar sustentação a teses sobre histeria e a sugestionabilidade das massas, vigários o ligavam sutilmente às Escrituras  para estimular as congregações aos domingos.” É o que conta Philip Norman, no livro   Paul MacCartney, a Biografia.

 Enfim, a música pop lançava a sombra de suas origens operárias sobre a classe média, a aristocracia, e no final até mesmo a Família Real foi contaminada.

Minha geração, infelizmente, não pode vê-los ao vivo. Paul supre esta frustração. No palco ao piano, no baixo, ao violão demonstrou toda a genialidade de um artista multinstrumentista e refinado, que toca com uma leveza  extraordinária.

Em uma época em que a música é orientada para a venda e não para a qualidade, ouvir a música de MacCartney foi um lenitivo. Quando, ao violão, ele começou a cantar “yesterday, all my troubles seemed so far away..”, lembrei-me que ela foi escrita  em 1963 e,  se transformou na  música mais gravada e ouvida até hoje. Ela continua encantando e emocionando.

Neste show Paul celebrou, como nunca antes havia feito, seu passado glorioso. Cerca de 70% das músicas do show foram dos Beatles. Algumas ele nunca havia trazido para o palco.  Foi uma extraordinária celebração.

No bis, Paul voltou com as bandeiras da Grã-Bretanha, do Brasil e do LGBT. Foi o momento da celebração da diversidade, seja ela de crença, musical, de orientação sexual ou de opinião, em um mundo que assiste, espantado, o crescimento da intolerância e do conservadorismo.

Paul também manifestou-se pelos direitos humanos, ao terminar de  cantar Black Bird, música de 1968, que é uma metáfora aos conflitos  raciais  e direitos  civis  na América, notadamente quando à situação das mulheres  negras na década de  1960.

Lembrei-me, ao final do show, dos versos daquela canção do inesquecível Belchior: “você diz que depois deles não apareceu mais ninguém (...) mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”.  Aqui é realmente o caso de amar o passado e, também simplesmente reconhecer, que a música dos Beatles e a de Paul se renovam constantemente.

Em um tempo em que a felicidade e a “qualidade” oferecida pela indústria cultural, está ao alcance do cartão de crédito, ou dada de graça em rádios  e tevês, a autêntica qualidade, o talento, o carisma, e a inspiração,  continuam indispensáveis.  Paul MacCartney nos mostrou isto mais uma vez!

 

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