A eficácia social como simpatia inteligente

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Segundo Dewey, Rousseau desenvolve suas ideias pedagógicas baseando-se no princípio filosófico de que a natureza é boa e a sociedade corrompe o ser humano. Considerando isso, ele aposta no desenvolvimento natural das capacidades do educando, buscando isolar o educando do convívio social. Para contrabalançar esta ideia de desenvolvimento natural, Dewey expõe outra concepção de educação, baseada na eficácia social. Com este tema me ocuparei na coluna de hoje.

O que o pedagogo entende por eficácia social? Tal ideia nasce no âmbito das teorias educacionais como reação aos aspectos limitados subjacentes à noção do desenvolvimento natural. Contudo, tal reação corre o risco de cair no outro extremo e subordinar opressivamente o desenvolvimento do educando às regras sociais. O risco da eficácia social é a habituação do sujeito ao controle social e quando isso ocorre, tal ideia pode se tornar mais destrutiva ao processo pedagógico do que os aspectos limitantes da teoria do desenvolvimento natural.

A teoria da eficiência social chama a atenção, em todo caso, para a necessidade de se observar as atividades e aquisições da vida associada, pois é no contexto das relações sociais que os poderes e capacidades humanas se desenvolvem e ganham sentido. A eficácia está diretamente vinculada ao desenvolvimento social das capacidades humanas; seu sucesso ou fracasso depende de tal entrelaçamento. O problema preocupante é quando a eficácia é tomada exclusivamente como forma de controle social, pois neste sentido ela bloqueia em vez de proporcionar o desenvolvimento das capacidades.

O tratamento deste problema é decisivo para a ideia democrática de educação. Quanto mais coercitivo e autoritário for o contexto social, menos chance a educação possui de provocar o desenvolvimento das capacidades físicas e intelectuais do educando, nas mais diferentes direções. Na contramão disso, a educação precisa do espaço social livre que proporcione as melhores condições para o florescimento das capacidades humanas. A existência de tal espaço é importante para que o educando encontre-se a si mesmo e possa definir construtivamente os destinos de sua vida.

Considerando este desvio autoritário e controlador que a teoria da eficácia social pode assumir, tornando-se destrutiva à formação humana, Dewey preocupa-se com sua dimensão positiva. Ele a resume nos seguintes termos: “A doutrina é acertada quando reconhecemos que a eficácia social se alcança, não pela coerção negativa, senão pelo uso positivo das capacidades individuais congénitas em ocupações que tem um sentido social”. Com esta afirmação fica descartada, primeiramente, qualquer forma de coerção negativa, uma vez que não é formativa. Ou seja, pressupõe-se que o educando aprende pela socialização e não, por exemplo, pela força do castigo físico. Em segundo lugar, a eficácia social formativa repousa no uso positivo que a educação consegue dar às capacidades individuais e tal uso depende fundamentalmente de atribuir-lhes sentido social.

Portanto, contrariamente à ideia do desenvolvimento natural, temos aqui, de acordo com a teoria da eficácia social, outra noção de educação. Nela se destaca, em primeiro lugar, o aprendizado pelo uso: sem que as capacidades sejam devidamente acionadas na experiência, não se desenvolvem a contento. Em segundo lugar, não é suficiente fazer qualquer uso delas; faz necessário emprega-las bem. Qual é o critério de seu bom emprego? Dewey afirma, na passagem acima citada, que as ocupações devem ter sentido social. Em síntese, o exercício das capacidades humanas com sentido social é o núcleo da ideia de educação baseada na eficácia social.

Com isso podemos ver que a noção de eficácia social está distante de possuir sentido utilitarista imediato, visando atender somente a interesses corporativos egoístas. Ao contrário, educação como eficácia social, vinculada ao exercício das capacidades humanas, possui sentido ético definido. Dewey o vincula duplamente, à competência industrial e à boa cidadania. O que significa cada uma delas e como contribuem para o aperfeiçoamento das capacidades humanas?

A competência industrial refere-se ao modo como o ser humano consegue a subsistência de si mesmo e de seus descendentes. Tal modo exerce profunda influência nas relações que os seres humanos mantém entre si, definindo também a própria maneira de vida que constroem em suas relações. Dependendo da finalidade e do contexto, a competência industrial pode tornar-se altamente formativa, propiciando a base material para o desenvolvimento cultural e espiritual dos seres humanos. Também pode, em contexto de competição individualista e agressiva, tornar-se deformativa, embrutecendo a vida do trabalhador.

Neste sentido, a mudança da sociedade oligárquica para a democrática cria melhores condições para que a própria educação esteja a serviço da produção e distribuição justa da riqueza. Contudo, persiste sempre o perigo de que a sociedade continue acumulando riqueza nas mãos de poucos e que a escolha das profissões siga tão somente o critério da rentabilidade econômica. Quando isso ocorre, a educação deixa de desempenhar sua dimensão propriamente formativa, no sentido ético da expressão, porque em contextos sócias economicistas, o desenvolvimento das capacidades humanas tem menos possibilidade de assumir sentido social.

De outra parte, sociedades democráticas são capazes também de oferecer maior liberdade para que os seres humanos possam fazer suas escolhas profissionais mais acertadas e que atribuam sentido social ao exercício de suas profissões. Mas, tal princípio é violado quando, por exemplo, se procura forçar a adaptação de jovens a determinadas profissões, sem lhes permitir a possibilidade de escolha. Agindo-se assim, se desconsidera as capacidades originárias cultivadas em nome do critério da rentabilidade econômica ou do status social.

A boa cidadania ou a eficácia cívica, por sua vez, dá sentido ético-político para a noção de educação compreendida como desenvolvimento das capacidades humanas. Ela torna-se diretriz da formação profissional, impedindo que a escolha vocacional siga apenas o critério da rentabilidade econômica. É a boa cidadania que também impede o adestramento das capacidades humanas em nome de interesses econômicos e políticos dominadores e autoritários. Sua meta são relações democráticas entre os seres humanos, que impeçam a subjugação de uns sobre os outros.

Dewey considera a simpatia inteligente como núcleo da boa cidadania. Como algo desejável, ela é mais do que mero sentimento, “é uma imaginação cultivada para o que os seres humanos possuem em comum e uma rebelião contra tudo o que de maneira desnecessária os divide”. Portanto, a simpatia inteligente é o cimento moral da eficácia social, cultivando o que une e aproxima os seres humanos entre si. Como cimento moral, ela fortalece a solidariedade entre os seres humanos, afastando tudo aquilo que os separa e põe uns contra os outros. Neste sentido, a eficácia social baseada na simpatia inteligente é a base moral da democracia como forma de vida e organização social.

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