Investimento Externo: Não adianta querer igualar as condições de vida dos países sem igualar as medidas que levaram países desenvolvidos ao sucesso (a quinta lição)

Postado por: Marcel Van Hattem

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Não é raro ouvirmos pessoas comparando a situação econômica dos países, de uns mais pobres com outros mais ricos, julgando inadequada que haja diferença. Países que não atingiram o padrão de vida médio dos Estados Unidos costumam se intitular países “em desenvolvimento” e almejam ajuda dos países desenvolvidos. Mises ressalta que a diferença entre as condições de prosperidade de um país para outro não reside na inferioridade pessoal ou ignorância, mas sim na disponibilidade de capital e no montante de capital per capita investido em maior quantidade nos países desenvolvidos.

O maior investimento nos países desenvolvidos faz com que haja mais tecnologia à disposição, o que reflete em maior produtividade dos trabalhadores. Quando afirma-se que cem trabalhadores nos Estados Unidos são capazes de produzir mais calçados do que cem trabalhadores na Índia, isso não significa dizer que os norte-americanos são melhores, mas que possuem ferramentas mais adequadas para uma maior produção. E os trabalhadores indianos sabem disso. Se houvesse mais capital para investimento, sem dúvida teriam interesse em aumentar o número de suas fábricas como também adquirir instrumentos mais modernos e sofisticados.

O fato de os países considerados mais desenvolvidos terem adquirido vantagens em relação aos menos desenvolvidos se dá pelo maior tempo em que iniciaram a poupar. Os primeiros a iniciarem uma poupança, o que permite um futuro investimento, foram os ingleses. Em seguida, tendo percebido a superioridade das condições de vida na Grã-Bretanha, outros países passaram a imitar o modelo de poupar para investir, mas ainda estavam muito atrasados aos pioneiros. Assim, no século XIX, surgiram as condições para o investimento externo, quando os britânicos passaram a investir em outros países para ajuda-los a iniciar o seu desenvolvimento, visto que demoraria muitas décadas para que pudessem igualar o padrão de vida dos ingleses, conquistado há mais de um século.

Assim, capitalistas passaram a investir capital inglês para construir ferrovias nos Estados Unidos, na Argentina, companhias de gás em outras partes da Europa... Ao ponto de sociólogos britânicos criticarem o investimento em outros países. Mises frisa que o capital estrangeiro foi determinante para todos os países, com exceção da Inglaterra. Dessa forma foi possível a instalação de indústrias modernas. Para o economista austríaco, o investimento externo foi o maior acontecimento histórico do século XIX.

Porém, no momento em que uma certa hostilidade ao capital estrangeiro passou de cara feia à legítima expropriação do capital investido, tudo mudou para muitos países. Foi o que aconteceu na Rússia, que havia construído com capital estrangeiro emprestado ao governo a ferrovia que liga a Rússia até o Pacífico. Com a implantação do governo comunista, os russos simplesmente declararam que não pagariam aos franceses os débitos contraídos por seus antecessores czaristas. Outros países seguiram o exemplo russo, passando a ter o investidor estrangeiro como um explorador que deveria ser defenestrado, numa atitude totalmente anticapitalista.

Sobre isso, Mises escreve: “Como podem estes países falar de industrialização, da necessidade de criar novas fábricas, de atingir melhores condições econômicas, de elevação do padrão de vida, de obtenção de padrões salariais mais elevados, de implantar melhores meios de transporte, se adotam uma prática que terá exatamente o efeito oposto?  O que suas políticas fazem efetivamente, quando criam obstáculos ao ingresso do capital estrangeiro, é impedir ou retardar a acumulação interna de capital”

Quem investe em outro país deixará de investir quando há risco de expropriação. Para evitar esses riscos, Mises sugere o estabelecimento de estatutos internacionais que fossem intermediados pela ONU, retirando o investimento externo na jurisdição nacional. Porém a ONU, para Mises, não basta de um local onde se estabelece discussões inócuas. O ponto central é que não é possível se desenvolver como os Estados Unidos sem capital como há nos Estados Unidos.

Sindicalistas querem que haja melhora das condições de vida, melhores salários, o que Mises concorda. Mas não é possível conseguir o que se vê nos países desenvolvidos sem seguir o exemplo dado por eles mesmos! Sobre o que pretendem sindicalistas, Mises afirma:

“Concordo plenamente com a meta final de elevar o padrão de vida em toda parte.  Mas discordo no tocante às medidas a serem adotadas para a consecução deste objetivo.  Que medidas levarão a atingir esta meta? Certamente não é a proteção, nem a interferência governamental, nem o socialismo, ou a violência dos sindicatos (eufemisticamente chamada de barganha coletiva, mas que se constitui, de fato, numa barganha na mira do revólver)”.

No final da década de 50, quando Mises proferiu, na Argentina, as palestras que resultaram no livro “As Seis Lições”, as discussões eram praticamente idênticas às atuais. De lá para cá percebemos que os países que contrariam o modelo capitalista e liberal continuam tendo extremas dificuldades para se desenvolver.

O próximo texto será sobre a sexta e última lição de Mises: Política e Ideias.

 

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