Uma breve história do trigo

Postado por: José Ernani Almeida

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Estamos em plena fase da colheita do trigo. O fato inspirou-me a procurar dados sobre a história deste magnífico cereal. A relação do homem com o trigo é antiga e notável. O historiador Yuval Noah Harari, no best-seller “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, assevera que “as plantas domesticaram o Homo sapiens, e não o contrário”.

Falando sobre a Revolução Agrícola, Harari diz: “há dez mil anos, o trigo era apenas uma gramínea silvestre, uma de muitas, confinada a uma pequena região do Oriente Médio. De repente, em apenas alguns milênios, estava crescendo  no mundo inteiro. De acordo com  os critérios evolutivos  elementares de sobrevivência  e reprodução, o trigo  se tornou uma das plantas mais prósperas da história  do planeta”.

Ao viajar por nossa região ficamos extasiados diante da imensidão da área destinada ao trigo. São centenas de quilômetros sem encontrar nenhuma outra planta. Entre nós, ele começou a ser cultivado pelos imigrantes açorianos no séc. XVIII. Hoje, em termos globais, o trigo cobre cerca de  2,5 milhões de quilômetros quadrados, quase  dez  vezes  o tamanho da Grã-Bretanha.

Harari questiona em seu livro como essas gramíneas passaram de insignificantes a onipresentes e revela o que se passou: “O trigo fez isso manipulando o Homo sapiens a seu bel-prazer. Esse primata vivia uma vida confortável como caçador-coletor até por volta de 10 mil anos  atrás, quando  começou a dedicar cada vez mais esforços  ao cultivo do trigo. Em poucos milênios, os humanos de muitas partes do mundo estavam fazendo não muito mais do que cuidar de plantas  de trigo  do amanhecer  ao entardecer.”

O trigo demandou muito trabalho. Não se adaptava a terrenos com pedras e rochas.  Os sapiens foram obrigados a limpar  os campos. Trabalho duro. Também não gostava de dividir espaço, água e nutrientes com outras plantas. Homens e mulheres, sob o sol escaldante, dedicaram exaustivas jornadas para acabar com as ervas daninhas. Também foi preciso ficar de  olho  em vermes e pragas, além, de  coelhos e  nuvens de gafanhotos.

Para dar água ao trigo os humanos tiveram que cavar canais de irrigação  ou buscar água  em pesados baldes de locais  distantes.  Para nutrir o solo em que ele crescia, fezes de animais foram coletadas.  Harari revela que o corpo do Homo sapiens não estava apto para tais tarefas. Estudos revelam que a transição para a agricultura provocou uma série de males, como deslocamento de disco, artrite e hérnia.

As novas tarefas demandavam tanto tempo que as pessoas eram forçadas a se instalar de forma permanente ao lado de seus campos de trigo. Isso determinou uma mudança completa em seu estilo de vida. Nós não domesticamos o trigo; o trigo nos domesticou. A palavra “domesticar” vem do latim domus, que significa casa. Quem é que estava em uma casa?  Não o trigo.  Os sapiens, assevera Harari.

O trigo não deu às pessoas segurança econômica. Tampouco podia oferecer segurança contra a violência humana.  Os agricultores tinham mais posse e necessitavam de terra para plantar. Estes primeiros  agricultores eram tão violentos quanto seus ancestrais caçadores-coletores e, a perda de pasto  para os  vizinhos inimigos significava, em muitos casos, a diferença  entre a subsistência e a fome. Assim, os acordos eram difíceis.

Então, o que o trigo ofereceu aos agricultores?  O historiador israelense esclarece que “não ofereceu nada para as pessoas enquanto indivíduos, mas concedeu algo ao Homo sapiens enquanto espécie. O cultivo do trigo proporcionou muito mais alimentos por unidade de território e, com isso, permitiu que o Homo sapiens se multiplicasse exponencialmente”.

Quando as pessoas se alimentavam coletando plantas silvestres e caçando animais  selvagens, uma área  como a do oásis  de  Jericó, na  Palestina, podia sustentar no máximo um bando nômade de cerca de cem indivíduos  relativamente  saudáveis e bem nutridos (13000 a.C.) Por volta de  8500 a.C., revela  Harari, “quando as plantas  silvestres deram lugar aos campos  de trigo, o oásis  sustentava uma aldeia grande  mas  abarrotada de mil pessoas que padeciam  muito mais de doenças e má nutrição”.

Esta, segundo o historiador, é a essência da Revolução Agrícola: “a capacidade de manter mais pessoas em condições piores”. Portanto, meu caro leitor, ao passar diante de uma das grandes lavouras de trigo que fazem parte da nossa paisagem, lembre-se do gigantesco trabalho de agricultores e agrônomos  para cultivá-lo, ao longo de séculos e, que este  cereal teve uma fundamental influência no desenvolvimento do Homo sapiens.

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