Educação como cultivo das capacidades humanas

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O capítulo IX de Democracia e educação chega a dois importantes resultados: a) Rousseau foi o grande reformador pedagógico do século XVIII porque procurou tratar a criança como criança, inserindo a educação infantil no projeto maior de construção da República democrática; b) em reconhecimento a estes avanços e como crítica aos aspectos limitados da teoria rousseauniana do desenvolvimento natural, Dewey expõe a teoria da eficácia social, tomando a simpatia inteligente como seu núcleo constitutivo. Neste mesmo contexto, desenvolve a noção de cultura como conceito abrangente, com a intensão de preservar os aspectos positivos da noção de desenvolvimento natural e eficácia social. Na coluna de hoje me ocupo justamente com sua noção de cultura.

O que Dewey entende por cultura e em que sentido ela engloba tanto o desenvolvimento natural como a simpatia inteligente? Por que o desenvolvimento das capacidades humanas depende desta noção abrangente de cultura? Estas duas questões resumem não só os aspectos mais importantes dos capítulo IX, como também, em certo sentido, da referida obra como um todo. Não é possível compreender a educação como crescimento e como força impulsionadora das capacidades sem problematizar o sentido de cultura. Educação é cultura no mesmo sentido em que democracia é modo cultural de vida, significando, por isso, mais do que sistema político de governo.

Dewey compreende primeiramente a cultura como o oposta à rudeza e imaturidade humana. Daí que etimologicamente a cultura deriva de agricultura, para significar literalmente cultivo, cuidado e trabalho intenso sobre algo mediante certas condições existentes. Assim como o agricultor dedica-se intensamente no cuidado das plantas, o educador cultiva o educando ao mesmo tempo em que também é por ele cultivado. Nesse cultivar e deixar-se cultivar, o importante é que o educador cultiva-se a si mesmo, crescendo como ser humano. Sob este aspecto, cultura como cultivo humano refere-se ao aperfeiçoamento das capacidades humanas, tanto do educador como do educando.

Mas, o que significa trabalhar a rudeza humana? A rudeza não se refere à ausência de tudo, como se o ser humano nascesse em estado completamente bruto. Nenhum ser humano nasce como tábula rasa a ser preenchida pela educação; nenhum ser humano nasce literalmente “pelado”, pois já traz consigo capacidades. Ao defender a ideia das capacidades humanas congénitas, Dewey compreende que o ser humano nasce com elas, mas não como se já as estivesse prontas. Por isso, é tarefa da educação fazê-las crescer. Ora, lapidar a rudeza significa ativar formativamente o desenvolvimento das capacidades humanas originárias.

Compreende-se melhor a metáfora de Dewey da educação como cultivo quando se interpreta sua definição de criança como ser imaturo. O que significa mais precisamente imaturidade? Assim como o estado de rudeza, a imaturidade não significa algo absolutamente vazio. Se o imaturo não é ainda o desenvolvido, também não pode significar a mais completa inatividade. O que diferencia o inatismo absoluto do voluntarismo radical é a qualidade da atividade humana inicial. Não é tão importante saber o grau de maturidade que as capacidades humanas carregam ao nascer. Decisivo é, isto sim, compreender a condição humana como ativa e, também, o desenvolvimento das próprias capacidades humanas como dependentes das diferentes atividades humanas e o modo pedagógico como são cultivadas.

Deste modo, a imaturidade é, como manancial das capacidades, a condição que dá sentido à educação como crescimento. Se o ser humano já nascesse maduro, obviamente não precisaria de educação. De outra parte, a educação como crescimento das capacidades é contínua porque seu desenvolvimento nunca se esgota, mesmo quando a educação quase atinge sua perfeição. Em síntese, educação como crescimento significa a busca pelo constante aperfeiçoamento humano. Precisamente isso é o que caracteriza a passagem progressiva e inesgotável da imaturidade para a maturidade: o poder humano de se aperfeiçoar indefinidamente.

Como cultivo da rudeza, a cultura implica a transformação do desenvolvimento natural em desenvolvimento espiritual. Isso significa dizer que as capacidades humanas não se desenvolvem espontaneamente, por si mesmas, sem a interferência do ambiente. Transformação é um ato de formação humana, cujo núcleo repousa no desenvolvimento das capacidades humanas, físicas e intelectuais. Os agentes educacionais, aliados às pressões sociais possuem papel preponderante nesta transformação. Sem a ação dedicada e cuidadosa do educador, não há transformação possível de seus educandos e do próprio educador.

Embora toda a cultura só ocorre no processo de socialização, identificando-se eticamente com a simpatia inteligente da eficácia social, Dewey não deixa de acentuar sua dimensão individual, que se refere à responsabilidade pessoal na ação. No sentido normativo, a cultura compreende o desenvolvimento completo do Self, ou seja, do si mesmo humano. A completude do Self, como um ideal, representa o que é único no ser humano, sua mais pura singularidade, que o diferencia e, paradoxalmente, o aproxima dos demais. Trata-se da qualidade distintiva de cada um e que só pode ser formada pela presença do outro.

Ora, é justamente esta singularidade do Self constituída pela eficácia social baseada na simpatia inteligente que cimenta a democracia como forma de vida. É tal singularidade que dá sentido ético à democracia, na medida que exige de todos o sentido social de suas ações, oferecendo também a todos “aquela oportunidade para o desenvolvimento das capacidades distintivas”. Ou seja, desenvolvimento das capacidades distintivas, atribuindo-lhes o sentido social da simpatia inteligente é vital, enquanto cimento ético, para a democracia como forma cultural de vida. Na associação estreita destes dois valores repousa o sentido propriamente formativo da democracia. Sua separação implica na destruição da ética inerente ao modo cultural das formas de vida.

Em síntese, cultura já é educação no sentido que educador e educando, em espaços sociais democráticos, podem cultivar livremente suas capacidades humanas. O cultivo exige, como vimos acima, o trabalho cuidadoso de si mesmo e dos outros. Cimentado pela simpatia inteligente, o cultivo das capacidades humanas foca nos aspectos formativos que unem o ser humano, rechaçando tudo aquilo que os distância. Portanto, a cultura da simpatia inteligente transforma-se na principal força espiritual contrária ao individualismo possessivo que também constitui a condição humana e que pode se alastrar perigosamente, tomando conta das relações sociais.

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