Uma noite em 1967

Postado por: José Ernani Almeida

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No último dia 21, completou-se 50 anos da grande final do Festival da TV Record de 1967, evento que foi um verdadeiro divisor de água na música brasileira. Ele definiu, na verdade a moderna música popular brasileira. O Brasil vivia a era dos grandes festivais e o de 1967 foi, sem dúvida, o mais rico musicalmente.

Era um período de mudanças. O mundo jovem passava por grande agitação. Os Beatles, Jimmi Hendrix e Janis Joplin quebravam tabus e as novas gerações questionavam o que lhes era servido como moral. She’s Living Home, do disco Sgt. Pepper’s era um marco contra a hipocrisia e a intolerância dos pais ante a nova postura dos filhos. Qualquer patrulhamento seria varrido pelos jovens da época.

Naquela noite que revolucionou a música brasileira se apresentaram os jovens Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Edu Lobo, Sérgio Ricardo, entre outros.

Este último protagonizou um episódio que entrou para a história. Quando o público não o deixou interpretar a canção Beto bom de bola, o compositor tentou encarar a coisa com bom humor, em seguida apelou para a inteligência da plateia, mas nada adiantou: finalmente, perdendo as estribeiras, Sérgio Ricardo gritou: “Vocês ganharam! Vocês são uns animais!”, arrebentou o violão num banquinho e atirou-o ao público, em desespero, antecipando em uma década o que seria um dos atos rebeldes favoritos de bandas punk como os Sex Pistols. Sérgio Ricardo, nacionalista e socialista radical, não sabia que estava fazendo história. Do rock.

Chico Buarque, apoiado pelo MPB-4, cantou a poderosa Roda Viva:”Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu/A gente  estancou de repente/Ou foi o mundo então que cresceu/A gente  quer  ter voz  ativa/No nosso destino mandar/Mas eis que chega a roda viva/E carrega o destino pra lá (...). Canção que entrou para a antologia  da  MPB.

“Na histórica noite de 21 de outubro de 1967, o ar estava elétrico e os ânimos exaltados, no teatro da TV Record. As torcidas gritavam sem parar, aplaudiam seus favoritos e vaiavam os adversários, num clima de  final de  campeonato.

Assim, quando Caetano Veloso entrou no palco para cantar Alegria, Alegria com os Beat Boys, uma banda de rock – e de argentinos –, foi uma gritaria infernal. Traição! Adesão! Oportunismo! Gritavam nacionalistas exaltados: Caetano estava trocando a “música brasileira” pela  “música jovem”.  Na verdade, ele não estava trocando, estava buscando integrar”, conta  Nelson Motta, no livro Noites Tropicais.

A crítica também não viu com bons olhos aquela letra feita de retalhos de jornal (com evidente influência concretista). A poderosa letra modernista de Caetano não falava em alegria em nenhum momento: era sobre liberdade: “Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento, no sol de quase dezembro eu vou”. Caetano que foi vaiado ao começar a cantar sua música foi freneticamente aplaudido ao final da interpretação.  O baiano saiu consagrado do palco. Sua letra caleidoscópica e libertária ganhou o Brasil em pouco tempo.

Gilberto Gil foi outro grande nome daquela histórica noite. Com uma música cinematográfica, com letra e melodia trabalhadas como um filme moderno e dinâmico, com sequências, planos, cortes, montagem: um crime passional no parque de diversões tratado com linguagem fragmentada e moderníssima. Domingo no Parque, abordava o drama de João que amava Juliana, que amava José.

 Ao lado dos Mutantes, Gil, derrubou a barreira do preconceito que os tradicionalistas erguiam contra a linguagem universal para a música brasileira. Gil saiu ovacionado do palco. Ele havia, acompanhado por guitarras, protagonizado uma das manifestações mais significativas da cultura brasileira da época.

Ponteio, de Edú Lobo e Capinam, foi a grande vencedora do festival de 1967. Era uma canção impecável e irresistível, sem ser revolucionária como as canções de Chico, Gil e Caetano, comprovando que um júri, por mais que apregoe modernidade, tem sempre uma tendência conservadora. Está no DNA de nossa gente.

A noite de 21 de outubro de 1967 nunca mais será esquecida. Hoje, quando popular é confundido com vulgar, quando a indigência tomou conta da música brasileira, quando esquecem que o público brasileiro responde de  imediato e com entusiasmo toda a vez que é colocado diante de uma música de boa qualidade, recuperar a  memória  daquele evento, torna-se  imperativo.

 

 


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