O interesse como postura participante

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Uma das origens da noção de interesse em Dewey provém do pedagogo alemão Johann Herbart. Para Herbart, e isto ele expõe ainda na primeira parte de sua grande obra intitulada Pedagogia Geral, o interesse é uma ampla capacidade humana, constituída pela síntese entre emoção e razão. Enquanto emoção, o interesse vincula-se diretamente à vontade, impelindo o ser humano à ação. Por isso que o interesse às vezes está muito próximo ao desejo, embora Herbart sempre faz questão de distanciá-lo de qualquer sentido psicologista estrito.

De outra parte, é justamente pela sua dimensão racional que o interesse distancia-se do desejo, compreendido como mero impulso instintivo da ação. É o vínculo do interesse com a razão que permite que a vontade receba direção consciente, tornando-se vontade ética. O interesse é a força moral que impulsiona a ação na direção das virtudes éticas, impelindo o ser humano a orientar-se por valores como simpatia e justiça. Deste modo, é na dimensão ética que repousa todo o aspecto formativo do interesse.

Mas, em que sentido a teoria herbartiana do interesse influência John Dewey? Ele retém esta noção de interesse como impulso ético à ação para colocá-la na base de sua ideia de participação como aspecto constitutivo da condição humana. Ou seja, são interesses que levam o ser humano a tomar parte da vida social e isso ocorre na mesma medida em que os próprios interesses humanos formam-se pela convivência social. Ora, é a condição participante interessada que está na base da democracia como forma de vida.

Para esclarecer a noção de interesse, Dewey toma como referência duas atitudes humanas diferentes, a atitude do mero espectador, que olha de fora e de maneira distanciada os acontecimentos e a atitude do participante, que desde o início está envolvido com o que acontece. Vejamos, com mais vagar, o que caracteriza cada uma destas duas posturas e no que elas se diferenciam.

Para esclarecer a atitude do observador distante, desinteressado, Dewey toma como exemplo o prisioneiro que olha a chuva pela janela de sua sela: tudo é igual para ele, mantendo-se completamente indiferente ao acontecimento. Manter-se indiferente talvez seja a postura mais fria do ser humano, pois, por não sentir emoção, torna-se incapaz de se entregar ao acontecimento. Sem emoção e entrega, não há sentimento ético e, neste contexto, o outro ser humano não lhe faz a menor diferença. Ao assumir a condição de indiferença, o ser humano decaí, embrutecendo seu modo de vida.

A postura do participante é oposta ao observador distante. Buscando ligar-se profundamente ao que acontece, faz de tudo para influenciar na direção dos acontecimentos. Portanto, querer mudar o curso dos acontecimentos e de sua própria vida é uma característica básica do observador participante. Preocupa-se com as coisas, envolve-se com os acontecimentos e, com isso, transforma-se a si mesmo e aos outros. Como o próprio Dewey afirma, a atitude do participante caracteriza-se duplamente, pela solicitude e pela ansiedade atenta, proporcionando-lhe a condição de poder antecipar-se minimamente aos acontecimentos.

 Na discussão sobre o interesse, Dewey emprega a expressão afecção, a qual define tanto a condição humana como aquilo que é próprio da educação. Deste modo, interesse é o estado humano de afetação que o impede de se tornar indiferente sobre as coisas, os outros e a ele mesmo. Se olharmos mais de perto, estar afetado é o impulso inicial que impele o ser humano para a educação. Ele sente-se incompleto, vê que lhe falta algo e dirige-se ao que está a sua volta para buscar completar-se naquilo que lhe falta. Esta força de dirigir-se ao outro é o sentido ético do interesse como afetação.

Na sequência, depois de ter esclarecido as duas atitudes humanas mais usais, a do observador distante e a do participante, Dewey insere-as em sua tese filosófico-pedagógica de fundo: tudo o que o sujeito é ou deixa de ser depende de sua interação com o ambiente. Portanto, ninguém se forma sozinho, isolado. Como ele afirma: “As atividades da vida florescem e fracassam só em conexão com as mudanças do ambiente”. Disso decorre, do ponto de vista filosófico, que a realização humana depende da melhor conexão estabelecida com o mundo. Então, como interagir de maneira apropriada com o ambiente torna-se uma questão importante para a realização humana. De outra parte, o fracasso resulta da conexão precipitada, feita de maneira errada; evitar tal tipo de conexão coloca-se como exigência para um modo de vida que almeja ser bem sucedido.

Alcançar a interação apropriada, baseada na conexão correta torna-se, do ponto de vista pedagógico, uma das principais metas da educação. Deste modo, a educação refere-se ao modo de estabelecer a conexão adequada com o ambiente; quanto mais ela souber preparar tal conexão, mais eficiente ela se torna. Contudo, preparação e eficiência assumem sentido diferente, dependendo da perspectiva e finalidade que lhes são atribuídas. Educação como preparação orientada pela atitude participante (ética) considera o ser humano pela ótica da integralidade.

Qual é a ideia de interesse que resulta da tese deweyana de que o sujeito constrói-se a partir de sua interação com o ambiente? No contexto desta sua filosofia social Dewey define interesse como marca do comprometimento recíproco entre o si mesmo (Self) e o mundo. É justamente este comprometimento que torna possível a formação do sujeito. Por exemplo, se lhe houvesse um mundo exterior extremamente agressivo, ele seria imediatamente destruído. É o caso da revolta da natureza: tempestade, fogo, frio ou seca provocam destruição dos organismos vivos e, por conseguinte, também da vida humana.

Porém, quando a natureza conspira a favor da vida, o ser humano floresce e há o ambiente propício para a cultura e, com ela, à educação. O emprego da expressão “comprometimento recíproco” mostra certo otimismo de Dewey no sentido de que há disposição do sujeito e condições do ambiente para o encontro construtivo. Neste contexto, a própria formação humana depende de um acordo mínimo entre sujeito e meio. Condições ambientais podem se tornar favoráveis à formação humana desde que os seres humanos saibam aproveitá-las adequadamente.

Em síntese, Dewey faz uma introdução geral da noção de interesse nos parágrafos iniciais do capítulo X de Democracia e educação que resumimos em dois aspectos principais: a) o interesse está associado primeiramente à condição ativa do sujeito, tornando-o um ser participante; b) o interesse constitui a interação recíproca entre sujeito e ambiente. Portanto, por ser sujeito ativo e por interagir constantemente com o mundo, o ser humano possui a possibilidade de se educar, porque as coisas lhe afetam de alguma maneira. Na condição de sujeito participante, deixa para trás a indiferença, sentindo-se envolvido pelos acontecimentos.

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