A Revolução Russa deve ser estudada, não repudiada

Postado por: José Ernani Almeida

Compartilhe

"A HISTÓRIA PERTENCE AOS QUE A PROLOGAM, NÃO AOS QUE A SEQUESTRAM”.  (Vázquez  Montalbán)

Nossa colenda Câmara de Vereadores vem se notabilizando pelo reacionarismo.  Depois da moção de um vereador pedindo a proibição do livro Queermuseu, na Biblioteca Pública Municipal, da manifestação de outro edil, se dizendo espantado com  “a imoralidade”  da  escultura  “O Jacaré”, no pátio do  Museu Histórico Regional,  agora surge mais uma moção que revela um profundo conservadorismo cultural:  de repúdio  à  Revolução  Russa de  1917 e em solidariedade às  vítimas do comunismo.

O autor da moção, deve desconhecer que a demonização da fase histórica  iniciada com a Revolução Bolchevique impede a compreensão da  democracia contemporânea que se funda no princípio da atribuição de direitos  inalienáveis  a todos os indivíduos, independentemente  da raça, da  renda e do gênero.

Isto é, pressupõe a superação das três grandes discriminações que eram latentes e exuberantes às vésperas de outubro de 1917: racial, censitária  e  sexual.

Desconhece o ilustre edil que os liberais russos da época enganaram-se a si próprios sobre o estado de espírito da maioria do povo. Um povo que rejeitava a 1ª Guerra Mundial, da qual quase dois milhões de seus soldados já haviam desertado.

Os liberais também contrariaram os camponeses não lhes entregando as terras dos latifundiários gratuitamente, como há muito exigiam. Dos 100 milhões de camponeses russos, três milhões detinham praticamente todas as terras. Como nacionalistas, os liberais também se opuseram à autodeterminação reivindicada pelas minorias nacionais.

Em todos os sentidos os liberais agiram de forma equivocada.  E quando o povo foi às ruas pacificamente, em 1905, como foi recebido? À bala, no histórico e triste episódio que ficou conhecido como Domingo Sangrento.

Repudiar a Revolução Russa atesta o desconhecimento do que ela representou. Uma grande ruptura social e política, sem precedentes, possibilitando, apesar das mais variadas pressões externas, a superação de um atraso até então secular do povo  russo.

Ao contrário do que aconteceu com a Rev. Francesa, a burguesia russa não assumiu o poder. Este ficou com os líderes do proletariado, que comandaram o processo revolucionário, forçando uma ruptura social e política inédita, cujos desdobramentos se refletiram internacionalmente.

 Como todo o processo de ruptura houve violência, muita violência, o que é condenável. Como os jacobinos franceses, os bolcheviques foram impiedosos.

A Rev. Russa não deve ser repudiada, mas estudada. Foi uma revolução popular e de massas, de base camponesa, que conheceu o êxito surpreendente em um país sem base industrial, que mudou o curso da História, para melhor, e suas conquistas permanecem atuais, muitas  incorporadas  pelo patrimônio político da humanidade.

Poupou-nos do totalitarismo nazifascista, ao derrotar a Alemanha e, até mesmo, graças ao esforço militar, científico e tecnológico desenvolvido, mesmo com o prejuízo da  qualidade de vida de seu povo, possibilitou  a paridade  nuclear  que evitou, e tem evitado até os dias atuais a morte planetária, com a qual  Guerra Fria ameaçava  destruir  a  terra.

Ao propor uma moção de tal ordem, seria aconselhável lembrar de um dos ícones do neoliberalismo e  da  ideologia  hoje dominante, Ludwig von Mises.

Para ele quando Inglaterra e o Ocidente desencadearam a Guerra do Ópio, não estavam fazendo mais do que  seguir  sua  “gloriosa  vocação  de inserir os povos  atrasados  no âmbito da  civilização. Povos que deveriam ser  tratados  como “bichos nocivos”, assim como os elementos “antissociais” de todo o tipo  que vivem no interior  do Ocidente, as  “populações selvagens” das  colônias.

Algo sinistro, segundo o professor de História da Filosofia Domenico Losurdo, no livro Guerra e Revolução: “Soa como justificativa indireta  para o aniquilamento de povos inteiros, aos quais se nega  até mesmo a dignidade humana”.

Creio que estes também merecem uma moção de solidariedade! A Revolução de 1917, ao contrário da pregação de Von Mises, forneceu  uma contribuição  decisiva  para  a superação da discriminação  racial e do colonialismo.

Portanto, é preciso muito cuidado ao propor moção desta ordem. Ela revela uma visão estreita e tendenciosa. Vamos criar um tribunal da História? Parece ainda precoce fazer o julgamento dessa  Revolução que representou para o mundo a promessa de uma sociedade sem classes e nos legou  um modelo de  Estado autoritário e burocrático.

Por outro lado, a interrupção da experiência do “socialismo real”, nos legou a ascensão de um capitalismo selvagem. Espécie de outro lado da mesma moeda, representado por uma catástrofe geopolítica com a consolidação da hegemonia econômica, militar, política e cultural de uma única potência, guerreira e imperialista. 

Leia Também Divisão de Acesso: avanços e retrocessos no regulamento Xiii, o Grêmio está em Dubai! Não vamos deixar o Papai Noel roubar a cena O Severino do Grêmio!