Semana da Consciência Negra

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No séc. XVII corria pelos engenhos  e senzalas  da  capitania de Pernambuco  a notícia de que, para o lado das  serras, na região dos palmares, havia  um refúgio. Lá, uma nova sociedade  era construída: guerreiros, agricultores, comandantes de guerra, líderes  religiosos e uma linhagem  real que determinava os rumos políticos e militares. Naquela  região, formada por mocambos,  era possível  viver fora do poder dos senhores de engenho e manter vivas  as tradições africanas  recriadas na  América.

Aproveitando-se da desorganização  na produção do açúcar, em função da invasão holandesa  (1630) e, mais tarde, pelas  batalhas de expulsão  dos batavos (1645-1654), foi fácil fugir para a região palmarina, nome que  adveio  da extração dos palmares, como era  feito em Angola.  Os negros não viviam isolados  da sociedade  colonial, mas buscavam  reagir  ao escravismo governando a si próprios.

A fase final de Palmares foi a da morte do líder Zumbi, que havia se rebelado contra o rei  Gana Zumba. Zumbi foi morto em 1695 e os mocambos remanescentes destruídos pelas bandeiras paulistas. Palmares foi um marco de organização social e resistência dos negros durante o Brasil colonial. A data da morte de Zumbi, inspirou o Dia da Consciência Negra, comemorado no  20 de novembro.

A história da sociedade palmarina não foi registrada pelos seus habitantes. O que chegou até nós foram documentos produzidos por representantes da Coroa lusa, e relatos de pessoas que lutaram contra os negros dos mocambos no séc.XVII. Em função disso e de uma interpretação preconceituosa dos primeiros historiadores de Palmares, a sua história foi contada do ponto de vista da destruição.  Era a versão dos vencedores.

Ainda hoje, a história oficial continua ignorando o protagonismo dos negros na construção do nosso Brasil. Muitos episódios, como o dos Lanceiros Negros na Rev. Farroupilha, ficaram por muitos anos relegados ao esquecimento. Trabalhos como “Os Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha”, do historiador Raul Carrion e “Deus é Grande o Mato é Maior”, do historiador Mário Maestri, resgatam a trajetória da comunidade negra na história rio-grandense. O negro nesses estudos não é vítima passiva da História.   

A tragédia dos negros foi uma das mais inomináveis da história. Poucas vezes a humanidade foi capaz de atrocidades com a dimensão  da escravidão moderna. O comércio transatlântico de pessoas, longe de ter sido uma perversão de caráter ocidental, foi uma engrenagem que girou a roda do capitalismo entre os séculos XVI e XIX.

O Brasil manteve esta infâmia por quase 400 anos. Depois disso, não foi criado por aqui uma ambiente exatamente propício à competição livre e à igualdade de condições.  Nasceu o capitalismo da casa-grande. É uma herança que ainda se revela muito presente em nossa sociedade. Juremir Machado da Silva, toca fundo nas  feridas  provocadas pela  escravidão e ainda abertas  em nossa sociedade: “Se hoje a   Justiça  ainda é acusada  de privilegiar  os brancos  ricos, ontem ela  servia  abertamente aos interesses  dos  brancos  proprietários de  escravos.

Se atualmente a polícia é suspeita de discriminar os negros, ontem  ela era o capitão do mato  caçando escravos  fugitivos e  cumprindo o papel de  garantir pela força a ordem da escravidão, a permanência em cativeiro.

Se hoje a mídia é vista como reprodutora da ideologia  conservadora, que legitima  a desigualdade social  (o caso William Waack é  exemplar), ontem a imprensa  era veículo de disseminação  de teorias  racistas  e de ideologias de dominação”

O parlamento foi, durante muito tempo, a caixa de ressonância  sem estática dos interesses das elites escravistas, em que liberais  e conservadores  distinguiam-se  quase  tanto quanto gêmeos  univitelinos. Hoje, o  governo modifica  as  regras  de fiscalização do  trabalho escravo no Brasil, um país  ainda  marcado pela escravidão e envergonhado pela  escravidão  atualmente ampliada. Os brancos somam-se aos negros. Todos eles  extremamente pobres.

O  IBGE acaba  de divulgar um estudo  especial sobre desigualdades no mercado de  trabalho  devido à cor da pele. O resultado não surpreende: pessoas  de pele  preta ou parda  sofrem mais  com o desemprego  do que as demais. E, quando conseguem, via de regra, é para  atuar em atividades  de menor qualificação e  em piores condições.

O  Brasil  insiste  em manter  estas  deformações  que são históricas. Isto é inconcebível. Continuamos com uma intrincada legislação, elaborada para  atender a determinados interesses, e num imaginário  cultural e idelógico, edificado para justificar a manutenção de privilégios. A luta dos  descendentes  de  Zumbi continua e , sem dúvida, ainda  terá  um  longo caminho pela  frente!!

 


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