O sentido pedagógico do interesse

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe

Na coluna da semana passada minha reconstrução do texto de Dewey chegou ao seguinte resultado: o interesse caracteriza a condição humana participante que impede que o ser humano torne-se indiferente diante das coisas e de si mesmo. Neste sentido, o interesse é o estado humano de afetação, que o põe sempre em movimento, na busca de ser si mesmo. Sem interesse não há educação e menos ainda formação do Self.

Hoje vou me concentrar inicialmente nos três sentidos que Dewey resgata do uso ordinário da palavra interesse. Ao fazer isso, ou seja, ao estar atento para o emprego comum das palavras, ele mostra-se um filósofo cuidadoso, que desenvolve suas ideias colado ao que acontece em seu tempo, com o emprego que os seres humanos fazem das palavras e o sentido que lhes atribuem.

O primeiro sentido da noção de interesse, que de certo modo já apareceu anteriormente, refere-se ao estado total do desenvolvimento humano ativo. Ou seja, ele caracteriza a condição ativa do ser humano e, por isso, torna-se indispensável para compreender a sociabilidade humana e a propensão humana para a formação. Tal condição é o que impulsiona o ser humano a ocupar-se com algo e a definir, por exemplo, sua própria carreira profissional. Sendo assim, visto pela ótica profissional, o interesse pode se referir a uma empresa ou negócio. Faz sentido dizer então que este ou aquele é um “homem de negócios” ou que é dono desta ou daquela empresa.

O segundo sentido limita a noção de interesse aos resultados objetivos que se preveem e se desejam. Interesse refere-se aqui diretamente à finalidade da ação: quando se faz algo, pretende-se chegar a algum lugar e o interesse sinaliza esta luz lá na frente, que funciona como bússola à própria ação. Por sinalizar tal luz, move o sujeito para esta direção, atraindo-o e, por conseguinte, afetando seu modo de ação. É como a mariposa que se deixa seguir cegamente na direção da luz, concentrando todos seus esforços para atingir tal finalidade. Contudo, a diferença humana é que não se trata só de um movimento instintivo, mas de uma ação racional, ou seja, com plano prévio possível inclusive de ser revisto.

Por fim, o terceiro sentido de interesse engloba aquilo que Dewey denomina de inclinação pessoal emotiva. Ou seja, este sentido caracteriza a atitude pessoal do ser humano: “estar interessado é estar absorvido, atraído e envolvido com alguma coisa”. Por isso que estar interessado é o mesmo que estar alerta, cuidadoso e atento. Se prestarmos bem atenção para estes conceitos, todos eles definem a condição humana propriamente pedagógica, mostrando sua propensão à educabilidade. Em que sentido?

Estar alerta significa o esforço para compreender o que está acontecendo a sua volta. No manuseio do automóvel, por exemplo, piscas em alerta representa situação de perigo ou, pelo menos, que algo fugiu do controle. Metaforicamente, o estado de alerta caracteriza, para o ser humano, um sinal saliente de que algo fugiu da normalidade. Ligar o sinal de alerta significa metaforicamente parar com mais segurança para poder ver a situação ou problema de outra perspectiva, sem tanta pressa e sem o mecanicismo que caracteriza o andar sem os piscas ligados.

A atenção é tomada de modo geral como categoria pedagógica central, não só por Dewey como também por muitos outros pedagogos. Está diretamente vinculada à capacidade humana da concentração, ou seja, de poder seguir algo ou alguém desligando-se de outras coisas. Se o ser humano não fosse capaz de fazer isso, teria que receber tudo ao mesmo tempo, simplesmente caindo no mundo caótico das percepções sensíveis. A atenção torna-se assim uma categoria pedagógica importante porque é ela que assegura outras capacidades pedagógicas, como memória e assimilação.

A atenção pode ser tomada, neste sentido, como capacidade eminentemente cognitiva, que torna possível a aprendizagem, pois sem ela o sujeito educacional não poderia prender-se ao que está sendo tratado. O aluno não poderia acompanhar o raciocínio do professor, estando somente de corpo presente, com a alma divagando em outro lugar. O professor desatento, por sua vez, torna-se insensível às preocupações dos alunos, além de tratar de maneira inadequada o conteúdo. Para que o conteúdo possa ser compreendido e faça diferença no modo de vida tanto do professor como do aluno, faz-se necessário a atenção.

Por último, o cuidado é muito mais do que uma inclinação emotiva. É uma capacidade humana ético-pedagógica de primeira grandeza. Significa, por isso, o principal estado humano de afecção, que possibilita o laço afetuoso entre os seres humanos. A capacidade do cuidado é o que torna o ser humano apto para muitos sentimentos propriamente humanos, como a simpatia, o respeito e a solidariedade. Porque temos condições emocionais de adotar a postura do cuidado é que nos sentimos impelidos a ver o outro do mesmo modo com gostaríamos que nos visse. Deste modo, o cuidado é a condição humana sensível por excelência que potencializa a todos a serem humanos e, por isso, impede o ser humano a se tronar simplesmente uma coisa.

Tenho que admitir que ao falar destas três noções, estar alerta, atenção e cuidado, avancei muito além do texto de Dewey. Não tenho certeza de que ele estaria de acordo com isso. De qualquer sorte, dado a profundidade de seu pensamento, seus conceitos nos inspiram a ir além. Neste aspecto repousa justamente a grande do clássico: exige muito esforço de compreensão, muito sofrimento de leitura, mas, ao mesmo tempo, abre infinitas possibilidades de pensamento.

Contudo, do ponto de vista pedagógico, Dewey coloca o interesse como o ele de ligação entre o desenvolvimento das capacidades humanas específicas e os objetos de ação que provocam tal desenvolvimento. Como o desenvolvimento implica atividades humanas e como estas são impulsionadas por objetos de ação, então o interesse representa a síntese entre ambos: por meio de objetos de ação ele mobiliza atividades visando o desenvolvimento das capacidades humanas.  O que está em jogo, como se pode observar, é o desenvolvimento das capacidades humanas. Sem a condição humana ativa tais capacidades não se desenvolvem e o interesse é, neste sentido, a condição ativa por excelência. Por isso, o interesse simboliza pedagogicamente o esforço empreendido pelo ser humano para colocar em movimento suas capacidades.

Dewey procura dar concretude para este sentido pedagógico geral do interesse pensando-o no âmbito da relação entre aluno e professor. Busca auxílio na própria etimologia da palavra interesse, definindo-o como aquilo que está entre o que conecta duas coisas distintas, que de outro modo permaneceriam distantes. Ao compreender a educação como crescimento – e este é o núcleo de sua definição de educação -, Dewey concebe um espaço livre que deve ser preenchido entre o estado imaturo inicial do educando e seu período de amadurecimento mais pleno. No âmbito da aprendizagem, o estado inicial é representado pelas capacidades presentes dos alunos; a finalidade do professor representa o limite remoto. Entre estes dois estados distantes e desconexos entre si colocam-se os meios, os atos que precisam ser realizados, as dificuldades que precisam ser vencidas e os procedimentos que precisam ser aplicados.

Mas, o que o interesse tem a ver com isso? O interesse engloba tudo, desde a posição inicial do aluno, até a finalidade e o papel do professor e os meios a serem empregados. Permeando estes três aspectos do processo formativo, o interesse canaliza a força que impele o aluno a sair de sua condição inicial, exigindo também do professor a escolha de meios pedagógicos adequados para orientar o aluno até a finalidade desejada. No entanto, ao orientar-se pela dimensão formativa do interesse, o professor também deve estar disposto a modificar sua própria finalidade pedagógica, tendo de reconstruir seu ponto de vista em respeito aos interesses do próprio aluno.

Leia Também A segurança pública começa com justiça social! O Fusca da Chevrolet Nomofobia (vício em celular) O retorno da alfaiataria no office look