O Enem para além do "tema"

Postado por: Amilton Rodrigo de Quadros Martins

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Profe tu viu o tema da redação do Enem?”; “Profe lembrei de ti quando vi o tema da redação!”; “Profe se eu fosse fazer a prova depois da tuas aulas iria muito bem!”; “Claudia viste que legal o tema da redação do Enem!”; “Clau que conquista hein!”

No episódio de hoje, a Professora Cláudia Furlanetto é convidada a apresentar como recebeu o tema da redação do ENEM 2017.

E assim, foram algumas das dezenas de mensagens que recebi no domingo após a divulgação do tema da redação do Enem, que eu ainda não havia acessado e que por este motivo pensei ser algo relacionado a Direitos Humanos das minorias, gênero ou etnias, homofobia... enfim, pois foi o primeiro de muitos anos que não trabalhei com a tradução das provas em função de estar interpretando a Feira do Livro. Logo que pude, fui correndo ver do que se tratava e tive a grata surpresa e alegria quando li: "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil" e no mesmo instante com um misto de euforia e desconfiança (aquela máxima de que quando a esmola é demais até o santo desconfia...) pensei qual seria a motivação do INEP para o intento e também na dificuldade dos candidatos e candidatas em desenvolverem algo a respeito nos seus escritos.

Assim, não fiquei surpresa em ver as reclamações, as críticas e a salada de frutas que imagino terem escrito, mas como esperar o contrário se pensarmos por exemplo: Qual escola regular tem em seu quadro de profissionais um professor ou professora surda? Qual instituição de ensino superior oferta mais que 4 créditos de Libras aos futuros professores? Talvez a resposta destes seja a forma como o tema é, quando é, tratado nas escolas. Um tema tabu (surdo-mudo, doente, deficiente) da incapacidade.

Então como vamos cobrar dos alunos algo que não sabemos ou não lhes ensinamos? Falar de pessoas surdas como pertencentes a uma minoria linguística e cultural é algo quase surreal na perspectiva de que nunca os viram, nossa mídia não mostra isto, do jeito que são.

Vivemos num país que tem um Instituto Nacional de Educação de Surdos, fundado por Dom Pedro II há 160 anos com professores surdos trabalhando desde sempre. Vivemos num país onde as Comunidades Surdas, com muito sofrimento, conquistaram avanços fantásticos como os cursos de formação superior de Letras-Libras e que em 2002, fez a Língua Brasileira de Sinais - Libras a segunda língua deste país.

Entretanto, na contramão das conquistas este mesmo país nos ensina desde pequenos, na escola, o inglês ou outra língua estrangeira como segunda língua, ou seja, aprendemos a língua de um outro país, mas não temos a menor ideia da NOSSA segunda língua. Compreende a dimensão?

Eu, como tradutora de libras e professora da disciplina de Libras com ênfase em Direitos Humanos da IMED, que mesmo não tendo cursos de licenciatura, oferta a disciplina a todos seus cursos, sempre trago para minhas aulas a figura do sujeito/cidadão/capaz com surdez e me recuso a seguir o “mimimi” do coitadismo ou mesmo usá-los como referência a uma tragédia de ser.

Nas nossas aulas tratamos de conhecer e reconhecer as diferenças dentro das suas especificidades e quem quiser ser eficiente na sua caminhada que dê jeito de aprender, no mínimo, a segunda língua de seu país, pois, caso contrário a deficiência ficará por conta de cada um, quando se deparem em seus espaços de trabalho com cliente, pacientes ou colegas surdos.

Nesta perspectiva arrisco a falar que após esta grata surpresa, para nós militantes da área, este tema deverá sair da invisibilidade para ocupar espaços que por muito tempo esteve embaixo dos tapetes. Vamos lá, parabéns à Comunidade Surda pela conquista, mas minha dúvida permanece: o que será que podemos esperar após ENEM?!

Professor Amilton Rodrigo de Quadros Martins

Líder InovaEdu – Laboratório de Ciência e Inovação para a Educação

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