O país das desigualdades

Compartilhe

“... QUE É MUITO DIFÍCIL VOCÊ VENCER A INJUSTIÇA SECULAR QUE DILACERA O BRASIL EM DOIS PAÍSES DISTINTOS: O PAÍS DOS  PRIVILEGIADOS  E O PAÍS  DOS  DESPOSSUÍDOS”.  Ariano Suassuna.

Todo o bom cristão sabe que os homens são iguais por sua natureza por que todos são portadores da mesma essência. Ideias velhas nos legaram o tema da corrupção dos tolos, só da política, como nosso grande problema nacional.  Na corrupção real, no entanto, o problema central – sustentado por outras forças – é a manutenção secular de uma sociedade desigual, que impossibilita o resgate do  Brasil  esquecido e humilhado.

A ONG Oxfam Brasil, acaba de publicar um relatório (A Distância Que Nos Une - Um retrato das desigualdades brasileiras). O estudo revela que apenas 5% da população, os mais ricos, recebe mensalmente o mesmo que os demais 95%. Ufa! A desigualdade patrimonial é igualmente escandalosa. Seis brasileiros concentram a mesma riqueza que a metade mais pobre da sociedade.

Juntos, estes seis bilionários, possuem uma fortuna estimada em 88,8 bilhões de dólares (283 bilhões de reais), o equivalente à soma de todos os bens de 100 milhões de brasileiros. Saiba meu caro leitor, que não é por acaso, que o Brasil dono da nona maior economia do mundo, ocupa a décima colocação no ranking da desigualdade da ONU, empatado  com a  Suazilândia, a menor  nação da  África!!!!

O relatório da Oxfam assevera que: “a elevação da renda  dos mais pobres não tem sido suficiente  para reduzir  de maneira mais drástica  as desigualdades  brasileiras, visto  que existe  ainda  grande  assimetria  na apropriação do crescimento econômico total”, ao destacar que a concentração  de renda  do 1% mais rico manteve-se estável  nos últimos  15  anos,   no patamar  de  22% a  25%.

Já, o instituto World Wealth and Income Database, dirigido por  Thomas  Piketty, autor do best  seller  O  Capital no Século  21, também aponta  a  estabilidade da concentração de renda na porção favorecida da população brasileira. Quando se observa o topo do topo, isto é, o 0,1% mais rico, percebe-se uma variação maior. Esse grupo controlava 11%  da renda nacional  em 2001,aumentou  a participação  para mais de  16%  em 2007,  e depois  viu a fatia recuar para 14%, com pequenas  oscilações  nos anos seguintes.

Em 2014, o Brasil parecia disposto a reduzir as desigualdades infames. Naquele ano a FAO, celebrou, em seu relatório de segurança  alimentar, a exclusão do país  do mapa da fome. A verdade, é que apesar do inegável avanço social – entre 2003 e 2014, 29 milhões de cidadãos saíram da condição pobreza –, a redução das disparidades de renda e patrimônio  foi  muito tímida.

Agora, infelizmente, voltamos ao caminho da desigualdade absurda. Os segmentos superiores continuam com seus privilégios, o que lembra a França do séc. XVIII, em que primeiro e segundo estados estavam isentos de obrigações, como pagar impostos. Exemplos: “A posse de jatos, helicópteros, iates e lanchas não paga nenhum tributo. Veículos terrestres, como o meu e o seu carro, requerem o pagamento de IPVA”!

Os grandes proprietários rurais também possuem suas benesses: “somos um país com uma porção de terra cultivada de cerca de 300 milhões  de hectares, 35%  de todo o território  nacional. O   valor  arrecadado     com o imposto Territorial  Rural  (ITR)  representa  menos  de  0,06%  do total arrecadado  pelo  país”.  O rombo está em torno de 30 bilhões. Fantástico !!!  E tem mais. Apenas 9% dos estabelecimentos acessam a 70% de todos os recursos destinados à produção agropecuária. Isto é, há o ruralista do alto clero!

Um dos pilares da abissal desigualdade no Brasil é o regressivo sistema de tributação, “amigo dos super-ricos”. A carga tributária, algo em torno de 33% do PIB, é mal distribuída, de modo que os pobres e a classe média pagam mais impostos, proporcionalmente, do que os mais ricos. Isto sem contar com a sonegação fiscal.

Nossas mazelas persistem. As mulheres ainda percebem 62% do que os homens ganham.  Os negros, da mesma forma, recebem meros 57% na confrontação com os brancos.  Para a Oxfam, a equiparação entre homens e mulheres só ocorrerá em 2047. Já os negros, por sua vez, terão que esperar até 2089. Isto é, dois séculos e um ano depois da abolição da escravidão, se a tendência mantida nos últimos 20 anos persistir.

Uma sociedade justa é uma sociedade que harmoniza eficientemente as  exigências da hierarquia e da igualdade, numa ordem que tende para ao bem comum.  Não é, infelizmente, o nosso caso.

Nossa sociedade é fruto de um pacto dos donos do poder para perpetuar um modelo social cruel forjado na escravidão. A brutal desigualdade de renda continua a ser o traço que nos caracteriza. O Brasil, como disse  muito bem Darcy Ribeiro, “último país  a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe  dominante  enferma de  desigualdade, de descaso”.

 

 

 

Leia Também 4º Domingo da Páscoa. A quem interessa a não vinda da Havan? Óleo de cozinha usado. O que fazer? Unidade no essencial