O sentido formativo da disciplina

Compartilhe

Além de expor o sentido do interesse, Dewey também se ocupa, no capítulo X de Democracia e Educação, com a noção de disciplina. O que ele entende por tal noção e qual o vínculo que estabelece com o interesse? Entre a disciplina e o interesse Dewey coloca a vontade, definindo-a como determinação humana para se alcançar o almejado. Não é a vontade débil, mas sim a vontade forte que põe o ser humano a caminho do fim buscado. Vontade forte consiste na capacidade executora da ação, marcada pela energia e persistência na realização de aspirações.

A capacidade executora é crucial à formação da vontade humana. Quem não sabe dominar sua própria vontade não consegue executar seus planos. O autogoverno tem primeiramente este sentido pragmatista imediato de preparar o ser humano para dar conta do que está à sua frente. Preocupado com esta questão e com seu alcance educacional, Dewey define o ser humano executivo da seguinte maneira: “É aquele que examina seus fins, que torna suas ideias a respeito do resultado de suas ações tão claras e plenas quanto possível”.  Ou seja, colocar permanentemente sob exame seus propósitos, deixando-se orientar por ideias claras é a principal característica do espírito executivo. O que o embasa é a capacidade humana de determinação da sua vontade.

Qual é a dimensão pedagógica da vontade e que papel a disciplina desempenha em relação à ela? Como móbil da ação, a vontade humana torna-se decisiva para a realização humana na medida em que, orientada por interesses, persegue fins determinados. Como não nasce pronta e como não possui autonomia absoluta em relação ao ambiente, ela precisa ser educada. Se a meta é a vida social democrática, trata-se obviamente da formação cooperativa da vontade.  Deste modo, a formação democrática da vontade é uma questão central da teoria educacional de Dewey. Tanto disciplina como interesse estão relacionados com tal questão.

Dewey vê a disciplina, bem nos termos postos pela tradição pedagógica passada, como principal exercício de determinação da vontade. Se o problema é a formação da vontade forte que tenha capacidade executiva, persistente e enérgica, a disciplina desempenha papel importante. Como afirma o pedagogo americano: “uma pessoa preparada para considerar suas ações e para empreende-las deliberadamente, está por isso muito disciplinada”. O preparo exige a capacidade de persistir em um plano de ação inteligentemente escolhido, evitando distrações e falta de foco, os quais são a origem de muitas outras confusões. Preparação tem a ver então com o fortalecimento da vontade, para que não se deixe abater facilmente pelo que encontra no caminho e siga firme em frente, na busca de fins determinados.

Este sentido de disciplina como formação da vontade democrática está muito distante do sentido autoritário de disciplina. Por isso, não se trata de adestrar comportamentos e menos ainda de impor verticalmente interesses que sejam completamente alheios à vontade do sujeito educacional. Formação democrática da vontade exige levar em conta os interesses tanto do professor como do aluno e coloca-los na direção do ensino formativo. A propósito, o ensino só se torna realmente formativo quando os interesses dos envolvidos são levados em conta.

Mas, a ideia de respeitar os interesses dos alunos não é ponto pacífico entre os pedagogos. Tem sido ao longo do tempo matéria de muita controvérsia, provocando até mesmo divisões no campo pedagógico. O que significa mais precisamente respeitar os interesses dos alunos? Esta é uma questão crucial para a teoria educacional de Dewey, considerando a objeção que comumente lhe foi imputada de que teria valorizado excessivamente os interesses dos alunos em menosprezo do papel do professor.

A leitura atenta de Democracia e Educação auxilia de maneira objetiva para enfrentar tal objeção. Primeiro, sua defesa enérgica a favor do aluno deve-se muito ao autoritarismo pedagógico reinante na época. Em segundo lugar, Dewey tinha plena consciência de que o ideal democrático de vida é resultado de um processo longo e inesgotável de formação democrática da vontade humana. Neste sentido, torna-se indispensável a formação de novas gerações, de crianças e alunos, e escola precisa ser pensada como espaço de formação de modos democráticos de vida. Na escola, a criança pode aprender experiências embrionárias de cooperação e solidariedade que se tornam referência para sua vida social adulta, completamente inserida no espaço público ampliado.

O núcleo do esclarecimento da questão de tomar a experiência do aluno como ponto de partida do processo educativo tem um sentido pedagógico específico. O aluno aprende com mais destreza e rapidez e a matéria torna-se mais interessante para ele, se seu mundo experiencial estiver presente desde o início. Ou seja, ele mostrará mais interesse pelo conteúdo, se perceber sua ligação com sua própria experiência de mundo. Antes de Dewey, Herbart, na Alemanha, já havia acentuado muito isso. Depois dele, Paulo Freire, aqui mesmo no Brasil, tomará esta princípio de partir da experiência do educando, como núcleo de sua ideia de educação como prática de liberdade.

Contudo, partir da experiência não significa obviamente permanecer nela. Daí que entra justamente o esforço do professor e da própria escola no sentido de buscar acrescentar algo ao mundo experiencial do aluno. Ora, esta ideia de acrescentar algo precisa ser bem compreendida, pois não significa obviamente querer impor o conteúdo de fora. Formação tem a ver com este encontro recíproco, extremamente difícil, marcado também por rejeições, entre professor e aluno. Ambos possuem seus próprios interesses e expectativas, oferecem algo ao mesmo tempo em que também o recebem.

Em todo caso, seria missão da escola e do professor acrescentar algo de novo ao universo cultural do aluno e este algo novo passa basicamente por aquilo que se chama de conteúdo escolar. Quando a escola e o professor – mas na universidade isso não é de modo algum diferente -  não se prepara adequadamente para oferecer este novo, eles perdem de vista sua missão irrecusável, fazendo muitas outras coisas que não aquilo que é da especificidade de sua natureza, ou seja, tornar pedagogicamente acessível o saber elabora, oferecendo condições culturais para que o mesmo seja recriado.

Leia Também O cão, o trigo e o Fusca Não incide IOF sobre fluxo financeiro em participação em sociedade “Enviados para testemunhar o Evangelho da paz” Solução para o atraso