A paixão pela razão

Postado por: Israel Kujawa

Compartilhe

Rene Descartes (1596-1650) tinha uma verdadeira paixão pela razão. Essa paixão tem muito a ver com a época em que ele vivia e com a necessidade de uma nova visão sobre o mundo e sobre a vida, que surgiu na Europa do século XVII. Na idade média as regras estabelecidas pela igreja católica predominavam, todos tinham que acatar e quem ousava discordar sofria punições severas. O cogito cartesiano, expresso pela frase “penso, logo existo”, se tornou muito difundido, simbolizando as bases para uma nova época. A explicação da expressão indica que fazer perguntas, questionar é pensar e para isso se faz necessário existir. É indubitável, portanto, que no questionamento de nossas justificativas para o conhecimento, estamos pensando e se estamos pensando, então existimos. Essa conclusão de Descartes, conhecida de modo claro e distinto, se apresenta com o princípio filosófico e alicerce para as investigações da modernidade.

O método cartesiano se caracteriza pela recusa de todo o tipo de afirmações que podemos, por algum motivo, ter dúvida.  Assim, o objetivo era descobrir um fundamento inquestionável, a partir do qual seria possível justificar todos os conhecimentos sobre a realidade. Desse modo, o poder da razão mostra que os seres humanos não precisam ser marionetes, podem fazer as coisas com uma opinião sensata, decidindo sobre o próprio comportamento. Um pensador contemporâneo, Mario Sérgio Cortella, costuma fazer a seguinte pergunta: “Qual é a tua obra?” Essa provocação é também o nome de um dos seus livros, em que ele defende que as dificuldades apresentadas na vida, entendidas como algo penoso devem ser substituídas pelo conceito de realizar uma obra, com significado. O ponto de partida para essa transformação é a recusa a uma vida banal, fútil, inútil e superficial. Em 2018, completa 30 anos do lançamento do seu livro, “Descartes, a paixão pela razão”, no qual é apresentada a ideia de que podemos duvidar de tudo, menos da certeza de que estamos aqui, pensando, duvidando e existindo.

Os homens dão mais atenção para as palavras e para as imagens do que para as coisas, o que faz com que concordem, muitas vezes, com sentidos que não entendem e nem se preocupam em entender. Somos seres que pensam, podemos exercitar nosso pensamento, por isso não precisamos aceitar como verdadeira qualquer coisa, sem a conhecer evidentemente como tal. Na obra “Discurso do Método”, uma das produções mais populares entre os clássicos da filosofia, com importância comparável às obras de Platão e Aristóteles, temos o conteúdo acessível para leitores não especializados em filosofia, no qual Descartes sintetiza o método para conseguirmos encontrar verdades e adquirir conhecimento sobre nós e sobre o mundo, no qual vivemos.

Por meio do método cartesiano é possível explicitar um conjunto de varáveis inconscientes que justificam crenças inadequadas e falsas. A ideia indicando que os seres humanos, além do corpo, dispõem da mente, são substâncias pensantes, é o ponto de partida para superarmos o engano. Considerando que podemos nos enganar, devemos procurar algo que seja conhecido de modo claro e distinto. Trazendo o caminho proposto por Descartes, para o contexto atual de enganos, impostos pelo mercado e pelas instituições estatais, educacionais e religiosas, é possível reconstruir a base dos nossos pensamentos, buscando ideias “claras e distintas” sobre saúde, política, justiça, economia e comportamento em geral.

 

 

Leia Também Divisão de Acesso: avanços e retrocessos no regulamento Xiii, o Grêmio está em Dubai! Não vamos deixar o Papai Noel roubar a cena O Severino do Grêmio!