Novo espírito humano: crítica ao modelo idealista

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A ação humana com sentido é aquela que possui um propósito, ou seja, que é intencionada. O interesse representa a força que impulsiona tal propósito, sendo o elo de ligação dos seres humanos entre si e deles com o ambiente. Esta noção de interesse conduz Dewey a pensar a condição humana, a inteligência humana e a própria noção de espírito humano de maneira inteiramente nova, diferente da noção tradicional de espírito. Portanto, a teoria Deweyana do interesse conduz à crítica do modelo idealista de espírito; tal crítica torna-se indispensável para compreender a própria teoria deweyana de educação. De outra parte, a nova noção de espírito é a base para se compreender também a imbricação entre condição humana, propensão humana à educabilidade e democracia como modo de vida.

Vejamos, primeiro, em que consiste, resumidamente, de acordo com Dewey, a concepção idealista de espírito. Seu princípio filosófico básico consiste em colocar o espírito acima do mundo das coisas e dos fatos que se pretende conhecer. O idealismo significa, nesta versão mais rudimentar, a total independização das ideias em relação ao mundo. Em sua versão radical, defende que as ideias só possuem sentido na medida em que se mantêm independentes dos objetos e dos acontecimentos humanos. Elas são forças poderosas exteriores ao mundo que, movidas pelo espírito, dinamizam o mundo, dando sentido a ele. Mas, o pré-requisito básico, para que as ideias possam funcionar desta maneira, é sua independência total em relação ao mundo.

Esta compreensão filosófica geral do espírito humano possui muitas implicações tanto cognitivas, no sentido epistemológico mais amplo, como educativas, no sentido específico de aprendizagem. Primeiro, sobre o conhecimento: ele é compreendido como uma aplicação externa de existências mentais às coisas a serem conhecidas. Nesta perspectiva, conhecimento é um ato puramente intelectivo, movido por ideias, que trata da experiência sensível dirigida pelo olhar externo e superior a ela.  O espírito se autoconcebe aos moldes de uma imagem especular que refletindo-se a si mesma domina, subsumindo, tudo o que está a sua volta. Por proceder assim, o espírito especulativo torna-se incapaz de compreender o aspecto vivo e dinâmico da própria experiência humana.

Do ponto de vista educativo, a matéria de estudo, ou seja, o conteúdo que constitui as mais diferentes disciplinas, como história, biologia e física, são transformadas em ideias. A mesma superioridade das ideias em relação ao mundo, da atividade especulativa do espírito em relação à experiência sensível, traduz-se na superioridade da matéria do ensino em relação ao próprio sujeito educacional. O fetiche torna-se aqui claro: a matéria, que é o objeto do ensino, transforma-se em sujeito e o próprio sujeito educacional é reduzido à condição de instrumento, ou seja, à coisa, para que a matéria do ensino possa ser ditada.

 A transformação em fetiche da matéria de ensino gera grande efeito destrutivo à formação humana, especificando-se concretamente na relação pedagógica entre professor e aluno. Deste modo, a tarefa do professor é precisamente transformar o conteúdo de sua disciplina em ideia, ou seja, em entidade mental, e transmiti-la aos alunos, os quais, por sua vez, possuem o papel de assimila-la de maneira passiva. A transformação do conteúdo em entidade metal isolada da realidade, tornando-a distante da experiência sensível do aluno, é o que torna possível o processo educativo baseado no mecanismo transmissão-assimilação da matéria de ensino.

Este é então o núcleo do modelo idealista de educação. Com ele se perde – e este é o limite mais expressivo de tal concepção – a noção de educação como transformação. O mecanismo transmissão-assimilação, por basear-se na lógica do observador distante que transforma a matéria de ensino em entidade mental isolada, impede que professor e aluno se coloquem na situação pedagógica e se concebam como sujeitos que necessitam do reconhecimento recíproco.

Dewey contrapõe-se criticamente a este modelo. Segundo ele, “os fatos do interesse” mostram o misticismo e o caráter equivocado de tal modelo filosófico-educacional. Em que sentido? Primeiramente, porque o próprio espírito é compreendido de outra maneira, como algo que vai além do jargão idealista. Assim se expressa o pedagogo americano: “O espírito aparece na experiência como capacidade para responder aos estímulos presentes sobre a base de antecipação das futuras consequências possíveis, com o propósito de controla-las”. Vários aspectos desta passagem precisam ser interpretados.

O primeiro aspecto a ser considerado é que espírito e experiência não são tomados simplesmente como sinônimos. Embora o sentido destas duas expressões não esteja devidamente esclarecido, supõe-se ao menos que o espírito é uma expressão mais ampla, que engloba todas as capacidades humanas ou, mais precisamente, que ele é a fonte de onde todas elas brotam. Já a experiência, por seu turno, significa o modo pelo qual o espírito transforma-se em capacidade. Pela experiência o espírito deixa-se transformar em uma capacidade prática, tanto no sentido moral como estritamente operacional. A experiência torna-se então o órgão executor do espírito.

Aqui reside precisamente o núcleo da crítica ao modelo idealista: o espírito, transformando-se em capacidade, responde aos estímulos que o sujeito sofre por meio de sua interação com o ambiente, com os outros seres humanos e consigo mesmo. Para poder responder a tais estímulos, o espírito vê-se obrigado a se transformar em uma capacidade executiva, evidentemente não mais só meditativa, no sentido especulativo. Ora, é como capacidade executiva que ele pode empreender um duplo exercício, indispensável à coordenação da ação humana, a saber, de antecipação e, por conseguinte, de possibilidade de maior controle das consequências resultantes do plano de ação.

Em outra passagem, Dewey define o espírito da seguinte maneira: “Esta previsão e esta inspeção com referência ao que se prevê constitui o espírito. A ação que não implica tal antecipação dos resultados e tal exame dos meios e dos obstáculos torna-se um objeto de hábito ou simplesmente uma ação cega”. Confirma-se aqui, novamente, a definição de espírito como capacidade humana de previsão e exame do que se prevê. Isso exige dele, imediatamente, a capacidade agente, pois prever e examinar são exercícios de refinamento do espírito que só acontecem na ação, ou seja, que só se dão no âmbito da experiência humana.

Podemos resumir, então, como resultado de nossa investigação do texto de Dewey, que o espírito humano é a capacidade executiva que torna possível a previsão e controle das consequências que emergem da ação planejada. Deste modo, o plano antecede a ação e, ao mesmo tempo, modifica-se pelas consequências que dela resultam. Este caráter executivo e dinâmico do espírito diferencia-se profundamente daquele caráter inerte e vertical próprio ao modelo idealista. O que impulsiona tal dinamismo e horizontalidade é em última instância o próprio interesse humano. Sem levar em consideração tal interesse e o modo como ele ocorre concretamente no âmbito da experiência humana, o espírito permanece na esfera meramente especulativa.

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