O país das desigualdades – II

Postado por: José Ernani Almeida

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“SE DOU COMIDA AOS POBRES, TODOS ME CHAMAM DE SANTO. MAS QUANDO PERGUNTO POR QUE SÃO POBRES, ME CHAMAM DE COMUNISTA.” (Dom Hélder Câmara).

 Como estamos em dezembro, época em que a tônica é falar em  fraternidade, confraternização, amor, doçura , entendimento, igualdade, vou retomar  um tema que atormenta  a  grande  maioria  de nossa  gente: os  efeitos da brutal desigualdade.

Esta dura realidade foi escancarada no relatório “A Distância Que Nos Une – Um retrato das desigualdades brasileiras”, divulgado  pela  ONG  Oxfram Brasil, na  última semana  de  novembro.

Para o sociólogo Marcelo Medeiros do IPEA e professor da UnB, “a desigualdade brasileira não tem uma única causa, tampouco uma solução mágica”. Há um conjunto de fatores com influência sobre o fenômeno (...) grande parte da desigualdade é causada não pela diferença entre os pobres e o resto, mas pela diferença entre os ricos e o resto.

Precisamos entender o que faz os ricos serem ricos. De um lado, eles  têm  elevada escolaridade, propriedades e acesso ao capital, o que lhes  confere  melhores oportunidades”. E   há  quem  defenda  o paradigma  da   “meritocracia”  entre nós !!

Do ponto de vista ético e moral, existem outros fatores condenáveis e inaceitáveis.  Os ricos, especialmente os muito ricos, beneficiam-se de um conjunto de privilégios de longa data nas relações com o Estado.

Além dos privilégios históricos, é preciso considerar outro capítulo marcante, a da sonegação de impostos: em 2016 R$ 275 bilhões. No mesmo capítulo podemos incluir as generosas renúncias fiscais que, no ano passado, foram da ordem de R$ 271 bilhões. Faça a soma meu caro leitor!

Em contrapartida o governo temerário congelou investimentos em saúde, educação e segurança por “apenas” 20 anos.  O mesmo governo assevera que o único jeito de cobrir o rombo nas contas públicas  é  reformando  a  Previdência para acabar com “privilégios” de quem ganha até a   “indecente”  soma  de R$ 5 mil mensais,  e  fazer  a turma  trabalhar  até  a  morte.

O cobertor social foi ainda mais encurtado ao longo de 2017, o que agrava o problema da desigualdade. Pela primeira vez em 15 anos, o salário mínimo não teve aumento real.  O reajuste concedido nem sequer repôs integralmente a inflação do ano anterior.  O governo, alegando falta de dinheiro, também suspendeu o reajuste do Bolsa Família  previsto para julho.

Entretanto, perdoou bilhões em dívidas de ruralistas e de grandes instituições bancárias. Já com a MP 795 o governo abre mão de receber R$ 980 bilhões em 23 anos, em isenções às petroleiras. Ulálá!

Conclusão: o problema do Brasil está no INSS, nos trabalhadores que insistem em querer parar de trabalhar antes da morte; no assistencialismo, nas políticas sociais exageradas. Coisa de comunistas!

Na verdade, não estaria na falta de transparência sobre quem paga e quem sonega?  Não estaria na ausência de uma taxação justa sobre as fortunas não só dos políticos, mas dos proprietários da mídia, das grandes companhias, dos grandes latifúndios? A solução não estaria na revelação de como se acumulam fortunas e como se transfere às próximas gerações? Não estaria no aumento da tributação sobre a renda e o patrimônio e na desoneração do consumo?

A FIESP já se manifestou contra a elevação dos impostos sobre a renda e o patrimônio. Pior, conseguiu convencer boa parte da classe média a reagir contra qualquer alteração no modelo, vide a proliferação dos patos de borracha nas manifestações de 2016. Isto é, o PATO cumpriu a sua missão com brilhantismo.

Resta esperar que o “espírito natalino” nos faça pensar em atitudes que, enfim, consigam mudar a nossa triste história da exclusão recorrente.

 

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