Educação como cultivo disciplinar do espírito humano

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A crítica que Dewey exercita contra o modelo idealista de espírito torna-se duplamente instrutiva: primeiro, para visualizar seu distanciamento intelectual em relação à educação tradicional e aos seu respectivos métodos; em segundo lugar, para compreender sua própria definição de educação como cultivo do espírito humano. Embora estes dois temas já apareçam de maneira diluída nas colunas anteriores, gostaria de me concentrar hoje mais detidamente sobre eles.

Quais são pontualmente as críticas que Dewey faz à educação tradicional (olde Education)?  Antes de tudo, a educação tradicional – e este é seu principal limite – compreende equivocadamente o cultivo do espirito humano, ao ignorar a importância do movimento das coisas para os resultados futuros, nos quais participa o sujeito educacional e na direção dos quais se orientam observação, imaginação e memória. Levar em consideração o movimento das coisas é uma postura decisiva para, por um lado, tirar o espírito de sua posição meramente especulativa e, por outro, para jogá-lo no mundo prático, ou seja, no próprio âmbito da experiência humana.

De outra parte, pensar em futuros resultados, embora não se possa prevê-los com exatidão, tem a ver com a capacidade humana de antecipação diante de possíveis consequências que determinado plano de ação pode gerar. Pensar em possíveis resultados futuros refere-se também à própria finalidade da ação, aos seus objetivos e à maneira mais adequada de alcança-los. A relação entre ação e sua finalidade torna-se indispensável, deste modo, para pensar o papel que as capacidades de observação, imaginação e memória desempenham no cultivo do espírito humano.

Segundo Dewey, o limite da educação tradicional acima indicado seguiu, na prática histórica, dois caminhos distintos. O primeiro caminho conduziu à encoberta e proteção dos estudos e métodos tradicionais de ensino em relação à crítica inteligente e às revisões necessárias. Fechados em si mesmos, tais estudos e métodos imunizaram-se frente à crítica, colocando sua doutrina fora do alcance de qualquer questionamento. A ausência de crítica levou a educação tradicional a formar alunos sem capacidade inteligente e sem condições de se determinarem por si mesmos.

O mais preocupante disso, segundo o referido autor, é que a educação tradicional atribui a responsabilidade pelo fracasso escolar exclusivamente aos alunos e, em nome disso, torna ainda mais forte seu poder disciplinador. Ou seja, a consequência é dramática porque além de não criar condições para a formação autônoma dos alunos, diz que a culpa disso é dos próprios alunos. Portanto, além de proteger sua própria incompetência, tal educação torna-se autoritária na medida em que diz que o problema está totalmente fora dela, apregoando que ele reside somente nos outros, no caso, nos próprios alunos.

Mas, por que a educação ocorria deste modo? Atribuiu maior responsabilidade do fracasso ao aluno porque, segundo Dewey, a matéria de ensino não precisava passar por teste ou provas específicas: o que o professor ensinava deveria ser tomado como verdade inquestionável. Ele não precisava dar provas de consistência e aplicabilidade de seu saber. Com isso, a educação tradicional deixava de desenvolver o espírito de observação e de meditação do aluno. De outra parte, tal educação procedia assim porque simplesmente ignorava os interesses do sujeitos educacionais, principalmente dos alunos, os quais deveriam simplesmente memorizar a matéria.

 O segundo caminho – que talvez seja o mais interessante nesta discussão toda – é que a educação tradicional assentou-se de modo geral no papel somente negativo da disciplina. Como tal educação planeja a matéria de ensino sem levar em conta os interesses dos alunos, precisava obviamente desenvolver um poder disciplinador mais forte para manter o aluno atento no conteúdo que está sendo trabalhado pelo professor. Deste modo, disciplinar fortemente a vontade é o recurso encontrado pela educação tradicional para poder tratar da matéria de ensino planejada. Como ignora os interesses do sujeito educacional, tal procedimento autoritário conduz facilmente ao seu adestramento.

Observando bem a reconstrução feita acima, não é difícil de perceber que os dois caminhos adotados pela educação tradicional se cruzam, complementando-se mutuamente. O dogmatismo dos procedimentos que imuniza a educação tradicional de qualquer possível questionamento desagua no fortalecimento do sentido negativo de disciplina, que atua como forma de adestramento do espírito humano, em vez de cultivá-lo para sua própria autodeterminação.

Como se pode ver, salta imediatamente aos olhos a importância que tal crítica à educação tradicional possui para o tema da democracia. Tal crítica à educação tradicional torna-se importante também para justificar o papel que a nova ideia de educação desempenha no sentido de tornar possível a democracia como forma humana de vida e organização social. Daí que é preciso compreender os traços desta nova ideia de educação. Com tal ideia de educação está intimamente relacionada com a noção de espírito, é preciso retomá-lo uma vez mais.

O crucial para o momento é a concepção de espírito como sede das capacidades humanas destinadas à aplicação ao material existente. Trata-se, neste sentido, como já vimos acima, de um olhar dirigido ao futuro, capaz prever possíveis consequências dos modos de ação adotados e de revisar tais modos quando for necessário. Vê-se, com isso, um espírito que longe de estar centrado somente em sua própria dimensão especulativa, encarna-se na experiência, assumindo postura reflexiva sobre o conteúdo e resultados da ação humana.

Isso dá uma ideia bem diferente de cultivo do espírito, porque agora é preciso pensar seu refinamento no contexto direto da ação humana e de suas mais variadas experiências.  Ora, é neste novo horizonte de possibilidades de formação, de cultivo do espírito completamente irmanado com a experiência humana, que Dewey retoma a disciplina em sua dimensão pedagógica, ou seja, em seu dinamismo formativo. Mas, onde repousa o sentido formativo da disciplina?

Dewey refere primeiramente, de maneira ainda muito abstrata, ao desenvolvimento da disciplina como poder construtivo de realização. Ou seja, neste sentido, a disciplina é a força maior do espírito que torna inteligente a própria ação humana. A disciplina é então o principal exercício por meio do qual o espírito humano se cultiva a si mesmo. Ela o impede de divagar no vazio, mas também de se atolar na experiência sensorial, sem reflexão.

Contudo, o papel formativo da disciplina ganha concretude quando se refere à matéria do ensino, considerando simultaneamente tanto o movimento das coisas como os próprios interesses do aluno. Isso significa dizer que os métodos de ensino precisam ser definidos de acordo com os materiais a serem utilizados e as condições físicas e intelectuais que os próprios alunos possuem de utilizar tais materiais. Se o aluno consegue perceber que tanto a significação como o manuseio que são dados a tais materiais estão ao seu alcance, a matéria de ensino se torna mais interessante para ele.

Em síntese, a nova ideia de educação associada à noção de espírito sustenta-se em uma conexão que relaciona intimamente entre si suas três partes constituintes: matéria de ensino, material de ensino e atividade com propósito definido. Esta conexão forma no âmbito educacional, segundo Dewey, uma teoria autêntica do interesse. Ou seja, só há interesses quando estas três coisas estiverem presente no processo educativo.   

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