A esperança de um novo tempo

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Final e inicio de ano é época de doçuras e reconciliações. De renovações de propósitos, de fazer um balanço do que passou e do que poderemos fazer nos próximos 12 meses. É tempo de soerguimento de ânimo e de afirmação de propósitos. No plano individual, creio que vale a pena o compromisso de sermos mais fraternos e menos egoístas.

Nossa natureza é naturalmente inclinada ao egoísmo e se quisermos dar espaço para os  outros, se quisermos limitar nossa liberdade às condições de sua integração com a dos outros, então será preciso  muito esforço, até mesmo que nos  violentemos, em nome de  uma nova ordem de coexistência.

Nestes tempos de radicalismos, de violência, de fundamentalismos, de intolerância, é preciso que encontremos uma maneira de viver em harmonia com os outros. Respeitar nossas diferenças como seres humanos, nossas culturas, nossas religiões e nossos tiques individuais. Para o filósofo Luc Ferry, “ser sábio, por definição não é amar ou querer ser amado, é simplesmente viver sabiamente, feliz e livre”. Liberdade e felicidade, eis o que o Iluminismo do século XVIII nos prometeu.

Libertar os espíritos, emancipar a humanidade dos grilhões da superstição e do obscurantismo medieval. A razão sairia gloriosa do combate contra os fundamentalismos e, geralmente, contra todas as formas de argumentos de autoridade. Entretanto, o que vemos hoje é o crescimento dos radicalismos religiosos e políticos de caráter violento e de forte intolerância.

Um dos grandes problemas destes primeiros 17 anos do século XXI é a falta generalizada de respeito mútuo que o mundo atravessa. É um mundo de puro cinismo, comandado pelas leis cegas do mercado e da competição globalizada.  No cerne da ideia de progresso, esteve/está a liberdade e a felicidade.

O desenvolvimento das ciências é/seria o caminho para a civilização. Entretanto, o que estamos observando é aquilo que Heidegger chama de “mundo da técnica”, um universo no qual  a preocupação com os fins, com o objetivos últimos da história humana, vai desaparecer  totalmente  em benefício único e exclusivo  da  atenção aos meios. 

A noção de progresso, nessa atual perspectiva da globalização, muda totalmente de significado: em vez de se inspirar nos ideais transcendentes, o progresso vai, pouco a pouco, se restringir a ser apenas o resultado mecânico da livre concorrência em seus diferentes componentes.

Para Luc Ferry, “a economia moderna funciona como a seleção natural de Darwin: de acordo com uma lógica de competição globalizada, uma empresa que não progrida todos os dias é uma empresa simplesmente destinada à morte”.

O progresso não tem outro fim além de si mesmo, ele não visa a nada além de se manter no páreo com outros concorrentes. Assim, o poder dos homens sobre o mundo é cada vez maior. Tornou-se um processo incontrolável e cego, ultrapassando as vontades individuais conscientes. A emancipação e a felicidade dos homens que o Iluminismo prometia, estão cada vez mais distantes.

A técnica tornou-se um processo sem propósito, desprovido de qualquer espécie de objetivo definido. O mundo de hoje é mecanicamente produzido pela competição, pelas “leis de mercado”.  Isto está nos desumanizando.

Tomara que em 2018 possamos resgatar o que, no século 19, podia se chamar de “res publica”, república, isto é, “causa comum”. Será ano de eleições. Então, precisamos escolher representantes comprometidos com ideias humanistas e não com a defesa dessas evoluções fervilhantes e desordenadas, com movimentos que não são mais ligados por nenhum projeto comum.

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