Equívocos do dualismo filosófico entre espírito e corpo

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Dediquei as últimas colunas para tratar do sentido pedagógico do interesse e da disciplina. Retomar Democracia e Educação 100 anos depois de sua primeira publicação tem sob este aspecto sentido muito atual, pois a dimensão formativa destes dois conceitos escapa das próprias teorias educacionais vigentes. A disciplina foi compreendida progressivamente como forma de adestramento dos corpos e o interesse, por sua vez, reduziu-se quase só ao sentido psicologista, identificando-se à satisfação dos desejos e prazeres imediatos.

Dewey mostra o quanto o interesse compreendido pedagogicamente de maneira adequada tornar-se a fonte motora do processo formativo humano. O interesse é aquilo que inicialmente mobiliza o aluno, chamando-lhe a atenção para algo; enquanto afecção, representa o fato eminentemente humano de estar sempre inclinado para algo. Por isso, é importante que o ensino comece com o interesse do aluno, mas de modo algum permaneça nele. Escola e professor, como agentes principais do ensino, precisam ir além do interesse imediato do aluno e o fazem quando tornam o conteúdo do ensino interessante ao aluno.

No que se refere ao papel positivo da disciplina, ele repousa no cultivo da atenção do aluno. Deste modo, a disciplina é o exercício permanente pelo qual o aluno passa de seu interesse imediato, normalmente ligados a desejos emotivos, para o interesse no conteúdo, que o leva a lapidar suas próprias emoções. Ora, quando a disciplina proporciona o penoso trabalho de si sobre si mesmo, provocando transformação no modo de ser do sujeito educacional, então ela se torna formativa, assumindo forma positiva que se distancia visivelmente do adestramento. Quando prepara o sujeito educacional para o domínio de suas próprias emoções, reorientando seus interesses, então a disciplina torna-se profundamente pedagógica, fazendo o conteúdo escolar ser interessante ao aluno.

Isso sintetiza, de alguma maneira, os principais resultados pedagógicos do capítulo X de Democracia e Educando, colocando interesse e disciplina novamente no cenário pedagógico. Na coluna de hoje, contudo, ingresso pontualmente no capítulo XI da referida obra, o qual carrega o título “Experiência e pensamento”. Como podemos observar, este capítulo introduz duas noções-chave da filosofia da educação de Dewey, proporcionando-lhe, numa tacada só, duplo acerto de contas, por um lado, com o dualismo filosófico e, por outro, com o autoritarismo da teoria educacional que resulta de tal dualismo.

Como a noção de experiência possui significado importante no computo geral das ideias de Dewey, preciso examiná-la cuidadosamente. Pois, é por meio do novo significado de tal noção que o pensador americano inova tanto filosófica como pedagogicamente. Se a experiência é uma das noções mais importantes, também não deixa de ser uma das mais mal compreendida. De qualquer modo, não podemos entender a grande novidade das ideias pedagógicas deweyanas sem investigar o sentido filosófico e pedagógico da noção de experiência.

Tudo começa, no âmbito da justificação de Dewey, com seu acerto de contas com o idealismo filosófico. Na base disso está, primeiramente, como já analisei em colunas anteriores, a crítica à noção especulativa de espírito e sua transformação em uma agência ativa, que por meio da interação participante, mediada simbolicamente, encontra-se encarnada no mundo, agindo sobre ele e sofrendo as consequências de sua própria ação. Saber intervir e saber sofrer as consequências de sua ação é uma qualidade do espírito pragmatista que também define o sentido inteligente da própria experiência humana.

A questão chave, neste contexto, é compreender porque o dualismo espírito-corpo é uma ideia filosófica falsa e porque seu combate é indispensável à noção pragmatista de educação. O dualismo pressupõe que o ser humano é constituído por duas dimensões distintas e separadas entre si: o intelecto, por meio do qual se pensa e a sensibilidade, por meio da qual se sente. A postura filosófica dualista não só distingue o pensar do sentir, como também atribui primazia ao pensamento em detrimento das sensações.

A filosofia dualista possui longa tradição, remontando ao pensamento grego, especialmente a Platão. Se no diálogo Teeteto o filósofo grego aperfeiçoa sua teoria do conhecimento, atribuindo em certo sentido papel positivo às percepções humanas, em outros diálogos, como no Menão, concebe-as como fonte exclusiva do erro e, por isso, da falsidade do conhecimento. Se as sensações são fontes do engano, então elas precisam ser afastadas da teoria do conhecimento. Com isso, Platão inicia uma longa tradição de subvalorização dos sentidos, a qual desemboca no idealismo moderno, que mal pese a crítica filosófica feita ao idealismo tanto pelo empirismo inglês como pelo próprio idealismo transcendental kantiano.

Se os sentidos enganam, então o conhecimento verdadeiro só pode brotar do intelecto. Daí se entende porque a concepção idealista de conhecimento centra fogo na investigação sobre os aspectos estruturantes do intelecto e sobre seu funcionamento. Mapear quais são as faculdades humanas e como elas se relacionam entre si para produzir conhecimento, passa a ser a principal tarefa da teoria moderna do conhecimento. Como é do intelecto puro que brota o conhecimento verdadeiro, é tarefa da filosofia protege-lo contra a invasão dos sentidos.

Dewey, vinculando-se à filosofia pragmatista e, procurando incorporar os avanços da teoria evolucionista de Darwin, pensa a questão de maneira inteiramente diferente. Primeiro, o ser humano é, para ele, um grande organismo, cujas partes estão profundamente relacionadas entre si. Em segundo lugar, não há primazia de uma parte sobre a outra, simplesmente porque o que decide é o contexto da ação e da experiência humana. E, para que o ser humano possa fazer experiência com sentido, ele precisa interagir socialmente, fazendo uso simultâneo tanto de seu intelecto como de sua sensibilidade.

Antes de avançar na exposição da noção pragmatista de experiência e o novo significado de educação que dela resulta, preciso analisar ainda, seguindo de perto a argumentação de Dewey, os efeitos destrutivos que se originam do dualismo entre espírito e corpo e a teoria educacional que daí emerge. Sobre os efeitos destrutivos tratarei na próxima coluna, deixando para refletir posteriormente sobre a teoria educacional dualista. O fato é, para apenas antecipar já alguma coisa, que o dualismo pedagógico bloqueia frontalmente o desenvolvimento integral das capacidades humanas, entre outras coisas, porque concebe o espírito humano como uma entidade especulativa isolada. 

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