Efeitos destrutivos do dualismo espírito-corpo

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe

Pensar o ser humano constituído por espírito e corpo separados entre si, atribuindo primazia ao espírito é uma ideia nuclear da tradição metafísico-teológica ocidental. Esta ideia está tão incrustada em nossos hábitos, ou seja, em nossa maneira de viver e pensar, que não nos damos conta, por um lado, dos efeitos destrutivos disso e, por outro, de que nossos próprios hábitos podem ser experienciados de outra maneira. Libertar o ser humano desta “metafísica ruim” é um dos propósitos de Democracia e Educação. Talvez, quando estivermos mais inteirados sobre os efeitos destrutivos do dualismo espírito-corpo, ficaremos mais convencidos da importação de tal libertação.

No capítulo XI de Democracia e Educação Dewey expões três efeitos destrutivos do dualismo espírito-corpo. O primeiro repousa na própria concepção negativa do corpo humano: a atividade corporal é concebida pelo idealismo como um intruso, ou seja, como algo pernicioso ao cultivo do espírito. Deste modo, quanto mais pura e distanciada do corpo for a atividade espiritual, mais forte e inteligente se tornará o próprio espírito. Parte-se da crença de que são as atividades corporais que geram desconcentração, deslocando o espírito de sua genuína atividade intelectiva. São, deste modo, as atividades corporais que desviam o espírito de seus interesses inteligentes.

Esta concepção negativa em relação à atividade corporal traz obviamente efeitos destrutivos à própria condição humana. O que fica primeiramente prejudicado é o desenvolvimento das capacidades humanas. O desenvolvimento integral e diversificado de tais capacidades depende da plasticidade da condição humana, a qual, por sua vez, só acontece na medida em que as próprias atividades corporais entram em cena. Na concepção de Dewey, o ser humano torna-se um ser plástico precisamente porque possui a capacidade de desenvolver atividades corporais e, mais do que isso, ele só consegue alcançar o domínio reflexivo (intelectual) de sua ação, naquilo que lhe é possível, quando levar a sério sua dimensão corporal. Não há corpo sem espírito na mesma medida em que não pode haver espírito sem atividades corporais.

A enorme importância educacional disso ficará mais clara, quando eu tratar, na próxima coluna, dos efeitos destrutivos especificamente pedagógicos, ou seja, das consequências negativas que o dualismo espírito-corpo provoca na formação do sujeito educacional. Pois, a negação da atividade corporal conduz ao imobilismo do aluno, fazendo ressurgir com intensidade o sentido negativo da disciplina, como docilização do corpo, para torna-lo receptáculo passivo do conteúdo a ser ensinado. Como a mobilidade física é da natureza da condição humana e como, segundo a crença da educação tradicional, a acriança só consegue se concentrar e, portanto, aprender, se ficar quieta, então ela precisa ser imobilizada pelo sentido coercitivo da disciplina.

O segundo efeito destrutivo do dualismo corpo-espírito e da primazia concedida ao espírito refere-se ao papel extremamente limitado que atribuí aos sentidos. Os sentidos possuem pouco valor porque a própria atividade corporal é vista como perniciosa. Mas, como não se pode conhecer e menos ainda aprender algo sem a intervenção de pelo menos alguns órgãos humanos, como a visão e o olfato, então se deve atribuir-lhes papel mínimo, que sirva apenas par acionar a atividade cognitiva mais ampla. Como afirma Dewey: “Manter a vista sobre o livro e o ouvido nas palavras do professor é uma fonte misteriosa, de origem meramente intelectual”.

Os diferentes sentidos encontram sua finalidade somente como serviçal da atividade intelectual. Considerando sua irrelevância na arquitetônica da condição humana, jamais podem assumir funções orgânicas autônomas que possam dar caráter instrutivo à experiência humana. Bem longe disso, os sentidos atuam simplesmente como “entrada e saída exteriores do espírito”, ou seja, como uma espécie de correia de transmissão. Portanto, não contêm energia e nem são capazes de gera-la, servindo apenas para transmiti-la. Como os sentidos são órgãos secundários, uma vez que é o espírito o órgão central, eles possuem apenas papel subsidiário na elaboração da experiência e do processo mais amplo de instrução do aluno.

Esta secundarização dos órgãos dos sentidos só é possível na medida em que tais órgãos são concebidos de maneira isolada, sem nenhuma relação orgânica com a própria atividade espiritual. É como se tais órgãos fossem uma coisa completamente isolada e diferente da dimensão espiritual da condição humana. Tal isolamento conduz para o adestramento dos próprios órgão no processo da instrução, tornando um ato mecânico, por exemplo, o treinamento da visão e da audição no processo da leitura. Ver as letras e ouvir sua pronuncia torna-se um ato mecânico, sem sentido, porque os próprios sentidos são compreendidos de maneira mecânica.

Por fim, o terceiro efeito destrutivo da dicotomia espírito-corpo refere-se à dimensão propriamente intelectual da experiência humana. Quando o espírito é separado de sua ocupação com as coisas, a tendência é, como alerta Dewey, que o acento recaia sobre as própria coisas em detrimento das relações ou conexões. Disso resulta a separação entre ideias e juízos, atribuindo a precedência das primeiras sobre os próprios juízos. Isso só é possível mediante a tese idealista de que o espírito possui a energia e a força necessárias para compreender isoladamente as coisas, formando ideais sobre elas sem necessidade de relações. Esta onipotência do espírito vai na contramão, como vimos, da noção interativo-participante que caracteriza a compreensão pragmatista da ação humana.

Como, na compreensão idealista dicotômica, o espírito possui supostamente a soberania para produzir ideias sobre as coisas, então, somente depois surge o juízo como capacidade humana de vincular as ideias às coisas. O que falta aí, como assinala Dewey, é o papel atuante das percepções e o vínculo que o juízo estabelece entre elas e as coisas. Neste sentido, as ideias não surgem simplesmente do espírito como uma entidade mental isolada, mas da atividade judicativa que dá sentido às percepções que buscamos vincular às coisas. Ora, é somente um espírito encarnado e ativo de maneira participante que conseguem tornar-se judicativo, fazendo brotar as ideias do vínculo das percepções com as coisas.

Ora, quando o espírito se autointitula capaz de formular ideias sem o trabalho dos juízos que analisam o vínculo intuitivo que as percepções sensíveis estabelecem com a coisas, ele corre o risco grande de produzir teoria abstrata, completamente desvinculada da experiência. Por outro lado, quando a própria experiência dispensa a capacidade humana de julgar, ela cai no sensualismo ingênuo e inoperante, acentuando ainda mais a incapacidade de pensar própria ao senso comum.

Como se pode observar, a crítica ao intelectualismo que resulta do dualismo espírito-corpo e a primazia concedida ao espírito conduz Dewey pensar de maneira mais equilibrada a tensão inesgotável entre teoria e prática, mostrando que o excesso de ambos os lados é uma postura epistemológica equivocada, que põe limites claros às teorias educacionais. Uma teoria sem experiência torna-se intelectualismo estéril, do mesmo modo que uma experiência sem teoria legitima o sensualismo cego e ingênuo. Dewey reserva, porém, ao sentido reflexivo de experiência a maneira equilibrada de pensar a inesgotável tensão entre as atividades corporais e intelectuais que caracterização a própria condição humana.  

 

Leia Também Chegou o inverno: mantenhamos o coração aquecido Venda de bebida representa sobrevida aos clubes do interior Agenda 2020 – desafios do Rio Grande do Sul Operação Prato Feito: pesquisa aponta o custo da corrupção na alfabetização