Identidade de Gênero não é "Ideologia do Mal"

Postado por: José Ernani Almeida

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A  história  da  família  é longa, não linear, feita de rupturas  sucessivas. Toda a sociedade procura acondicionar a forma  da  família a suas necessidades     e fala-se em “decadência” frequentemente para estigmatizar mudanças  com as quais não  concordamos. No final do século 19  eram os donos da ordem social e moral que apontavam  para essa decadência por temor  da emancipação das categorias dominadas – operários ,jovens, mulheres.

Entre as duas guerras mundiais, coube aos  regimes nazista e fascista  alertar para  a  “degenerência”, demonizando qualquer impulso de mudanças. Nuclear, heterossexual, monógama, patriarcal, a família que herdamos do século XIX era investida  de um grande número de missões. Ela  deveria assegurar a gestação da sociedade civil e dos  “interesses particulares”, cujo bom andamento era essencial à estabilidade do Estado e ao progresso da humanidade.

Para tanto, a junção do público e do privado, esferas grosseiramente  equivalentes  aos papéis dos  sexos, era essencial. A  família, naquele momento de  capitalismo em larga medida familiar, assegurava  o funcionamento da economia, a formação de mão de obra, a transmissão de patrimônios. Formar bons cidadãos, e numa época de expansão dos  nacionalismo, patriotas conscientes dos valores de suas tradições  ancestrais.

O Estado  atento, preocupava-se, principalmente, com as  famílias  populares, suspeitas  de não cumprir  bem o seu papel. Se  a  família não agia como polícia, então o Estado empregava a sua. Era uma família dominada pela figura do pai. Em torno dele   ela  era  celebrada, santificada, fortalecida. A esposa estava destinada  ao lar, aos muros de sua  casa, à fidelidade absoluta.

Os filhos, por sua vez, deviam submeter suas escolhas, profissionais   e amorosas, às necessidades  familiares. Ao longo do século passado esta realidade foi mudando. As rupturas a que assistimos hoje são a culminação de um processo de dissociação iniciado há muito tempo O individualismo moderno do século XIX foi  fundamental  para tanto.  Um imenso desejo  de felicidade, essa  felicidade que o revolucionário Saint-Just na França, considerava uma ideia nova na Europa – ser a gente mesmo, escolher sua atividade, sua  profissão , seus amores, sua vida-, apoderou-se das pessoas.

Na  verdade,  fomos moldados  pelo tempo, pela  seleção e pela  evolução  para  nos  comportarmos  de  certas maneiras. Não  serão as convenções sociais, ditados  por costumes  arbitrários que irão determinar a vida das pessoas. Qual  é  o tipo de família, de cultura  familiar que estamos  em via de romper ? Se a  família é uma realidade  muito antiga – tanto quanto a humanidade, quem sabe ? –, ela  tem  uma história  que se inscreve na longa duração demográfica, na média  duração econômica  e até mesmo na curta duração política, com os  acontecimentos e  as intervenções  do Estado modificando às vezes  os  comportamentos  familiares.

Hoje  ameaçada  pela  efervescência dos seus, a família  tradicional sofre  igualmente o choque de fatores  externos. As redes sociais  assustam os pais. A desigualdade de saberes deixou de ser de cima para  baixo. Os pais perderam seus papéis de iniciadores do saber de que os filhos precisam, o que altera profundamente o relacionamento  familiar.

É neste momento que  entra  a escola, para romper com preconceitos  e com o conservadorismo tradicional da família patriarcal  brasileira – nosso caso em particular –, cultivado  ao longo de séculos. A escola é um lugar laico, onde   deve-se ensinar que todos têm direitos  iguais  e  que as diferenças  decorrem  de uma construção social, não de uma vocação “natural”.

Não é porque determinadas pessoas têm  certas  características  físicas que elas  são inferiores  a outras  e/ou podem  ser tratadas como tal. E “gênero” é justamente  o conceito que permite  refletir sobre  essas relações de poder, retirando-as  seu caráter  essencialista. Não somos  apenas  e tão-somente  um bando  de corpos físicos. Fomos forjados na cultura, com conhecimentos  acumulados  durante milhões de anos.

Refletir sobre o gênero significa mexer com a ordem das coisas,  questionar  o que aparentemente  está  estável, incomoda. Fica  claro que  a intenção é impedir que  as crianças  tenham acesso ao conhecimento.  Parece ser proibido   pensar.

Para a escritora  Virgine Despentes, “ há muito homofobia  e ultraliberalismo. Ambos estão conectados. Isto começa no momento em que você   nasce e lhe dizem se você  está ao lado dos dominantes ou dos dominados (....) Quando aceitamos   isso aceitamos  também o liberalismo , a ordem do mercado, a autoridade  religiosa. E o fato de a direita  dar tanta importância à essa questão, mostra que aí  está  a revolução”.

Não é a família em si que se recusa, mas o modelo excessivamente rígido e normativo que assumiu no século 19 e que, alguns, pretendem manter. A casa sempre será o centro da existência. Os contemporâneos  rejeitam o nó, não o ninho, parafraseando a historiadora francesa  Michelle  Perrot.

Vivemos  outros  tempos. A identidade  de gênero desenvolvida  na  escola  é  o mecanismo fundamental  para  ampliar  o respeito  à  pluralidade  sexual.  Não se  trata  de  inferir na orientação sexual das  crianças  e adolescentes.   Para  os  sectários  a sexualidade  é entendida  observando  simplesmente  seus  componentes  “naturais”.  Esses  só  podem  ser entendidos  e  adquirir  significado  graças  a processos   inconscientes  e formas  culturais.

Michel  Foucault, entre outros  autores, analisa  que, ao longo da  história, os corpos  feminino e masculino têm sido  alvos de inscrições discursivas  e objeto de  disciplinarização e  controle , sendo atravessados pela  física  e pelo microfísica dos poderes.   Assim, é preciso uma  atuação  da educação sexual  escolar  também na direção  do combate    às  discriminações  de  gênero ou sexuais.

Fiquei  espantado,  ao  ler dias  atrás, na  praia,  a  coluna da  jornalista  Zulmara  Colussi, em O Nacional, no qual ela  revelava que  dois  vereadores, ( Mateus Wesp e Ronaldo Rosa) estão  propondo  mudar a Lei Municipal  5146/2015, que  segundo  os  medievais  edis, “obriga  as  escolas  a adotar  a disciplina  de  “ideologia de  gênero”, a  “ideologia do mal”, segundo Rosa. Chegaram  ao  absurdo  de  relacionar  a  “ideologia de  gênero”  a casos de  pedofilia.  Uau !!

Os  dois  políticos   estão, na verdade,   propondo um retorno  ao  século  XIX. Se no  Congresso  temos as  Bancadas  do  Boi, da Bala  e da  Bíblia, nossa  colenda  Câmara  já  possuí  a sua   patética   Bancada  do Reacionarismo. 

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